Bertolucci mantém intacta sua arte da sutileza em 'Eu e Você'

No encontro dos irmãos, diretor retrata nossa complexa realidade social

Luiz Zanin Oricchio. , O Estado de S. Paulo

19 de dezembro de 2013 | 19h21

Eu e Você parece, à primeira vista, um pequeno filme de Bernardo Bertolucci. Isso não seria novidade. O mestre italiano sempre soube alternar grandes e pequenas produções e tirar proveito de ambas. O mesmo diretor que faz os suntuosos O Último Imperador e O Pequeno Buda, realiza também filmes “pequenos” como Beleza Roubada, essa espécie de pastoral toscana.

 

 

No caso de Eu e Você, a “pequenez” refere-se ao estreito espaço em que a história se dá. O porão de uma casa romana no qual um adolescente se esconde da família e da sociedade. Baseado em romance homônimo de Niccolò Ammaniti (no Brasil pela Bertrand Brasil), Eu e Você marca a imersão do cineasta neste nebuloso universo da adolescência. Uma fase da vida, digamos, colocada no limbo pelo olhar adulto. “É só um período chato, logo passa”, dizem os pais, como se fosse apenas uma idade de transição, sem qualquer especificidade. Basta respirar fundo e esperar que a pessoa chegue à idade adulta, quando então se poderá conversar com ela como com um igual.

Na história, o garoto Lorenzo (Jacopo Olmi Antinori) finge para a mãe, com quem mora, que vai passar as férias com os colegas numa estação de esqui e se esconde no porão da casa, onde dispõe de todos os meios para viver como quer. Da música teen à junk food com a qual se alimenta. O que não esperava é pela chegada de Olívia (Tea Falco), uma meia-irmã mais velha, que procura se manter longe das drogas pra iniciar novo relacionamento amoroso. Ambos são filhos de um pai comum.

O encontro entre os dois não deixa de ser peculiar. Em particular pelo contraste entre o desejo de solidão de Lorenzo e a envolvente sensualidade de Tea. Existe uma tensão erótica entre os dois, e aqui notamos o velho e bom Bertolucci, em seu diálogo da política com a psicanálise, em uma sutil sugestão de incesto entre irmãos. Mas o jogo vai além e notamos que se trata de uma questão mais ampla, a saber a dialética entre o porão e o mundo lá fora. Ou seja, entre o viver ensimesmado e o aparecimento problemático de um ser social.

Não se trata de dizer que Eu e Você represente uma metáfora do surgimento do homem político. Em certa medida, ele fala apenas do que fala – do relacionamento entre um adolescente problemático (pleonasmo) e uma jovem perdida, que o acaso tornou meio-irmãos. Mas não seria exagero dizer que nesse relacionamento complexo se encerra um dos aspectos mais complexos da vida contemporânea, o da abertura do ser isolado para a sua realidade social. Em certa medida, todos desejam, hoje viver em seus porões confortáveis, mais seguros que a praça pública. Bertolucci mantém intacta sua arte da sutileza.

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