Ralph Gatti / AFP
Ralph Gatti / AFP

Bertolucci era atraído pela beleza e pelos insondáveis mistérios do humano

Diretor fez filmes que enchiam os olhos com tanta beleza, mas o que ele buscava era o interior – dos personagens e da alma humana

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

27 Novembro 2018 | 09h14

Entre os muitos momentos deslumbrantes de O Último Imperador, há um particular. Na Cidade Proibida, o menino Pu Yi corre atrás de um balão amarelo e a câmera de Bernardo Bertolucci, inebriada, o segue. É difícil dizer o que impressiona mais – se o colorido ou o travelling. Em 2011, quando recebeu sua Palma de Ouro especial e apresentou a versão restaurada de O Último Imperador, Bertolucci já estava preso à cadeira de rodas, consequência de uma cirurgia malfeita de coluna.

O repórter lhe disse que nem era preciso fazer a versão 3 D do filme. Seu olho, naquele deslocamento da câmera, já construíra o efeito. Ele riu, melancolicamente – “Sempre gostei tanto de travelling, nunca imaginei que terminaria a vida num travelling permanente, vendo o mundo da perspectiva do deslocamento dessa cadeira”.

Isso foi há sete anos e, depois, a saúde de Bertolucci deteriorou-se e ele só fez mais um filme, em 2012, Io e Te. Sua morte, aos 77 anos, põe um ponto final à carreira interrompida. Nascido em Parma, em 1941, filho de poeta – Atílio Bertolucci –, Bernardo foi sempre cinéfilo. Ao repórter, que lhe disse certa vez que amava Luchino Visconti, ele elogiou o bom gosto, mas disse que seu mestre havia sido Roberto Rossellini. Será? Bertolucci foi um esteta, que realizou filmes belíssimos, intensamente visuais. A perfeição nunca foi o forte de Rossellini – pelo contrário: mesmo seus maiores filmes no neorrealismo trazem o signo da imperfeição. Bertolucci sugeria muito mais uma cruza de Visconti com Jean-Luc Godard. Não por acaso, colocou Jean-Pierre Léaud como o cineasta dentro de Último Tango em Paris, sempre com aquela irritante câmera na mão.

Assistente de Pier Paolo Pasolini em L’Accatone/Desajuste Social, de 1961, Bertolucci estreou como diretor no mesmo ano. Tinha só 20 anos e o filme, La Commare Secca, A Comadre Seca, a Morte, é adaptado de Pasolini. Três anos mais tarde, o filho de Parma inspirou-se em Talleyrand (“Só quem viveu antes da revolução conheceu a delícia de viver”) e Stendhal (A Cartuxa de Parma) para fazer a sua versão da história de Fabricio Del Dongo e da Sanseverina – Antes da Revolução.

Partner, de 1968, seu filme mais godardiano, não é dos melhores. Seguem-se A Estratégia da Aranha, O Conformista e Último Tango em Paris, cada um melhor que o outro. O Tango, proibido pela censura do regime militar, trazia Marlon Brando em estado de graça, naquele monólogo dilacerado, mas a fama do filme deve-se à cena da manteiga e ao abuso que Maria Schneider dizia ter sofrido. E vieram Novecento, La Luna e O Último Imperador, pelo qual ganhou o Oscar. Fez história com seu agradecimento à Academia.

Comparou-a à América, que acolhia em seu ‘seio’ (breast) tantos estrangeiros. Não com Donald Trump, claro. Bertolucci fez filmes que enchiam os olhos com tanta beleza, mas o que ele buscava era o interior – dos personagens e da alma humana. Em outra entrevista que fez com ele, o repórter lhe disse que tinha uma filha, Lúcia – como a Lucy de Liv Tyler em Beleza Roubada. Sensível, Bertolucci terminou a entrevista como o poeta que era. Disse – “Beije a Lúcia por mim.”

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