Bertolucci chega à locadora em dose dupla

Bernardo Bertolucci só não era considerado carta fora do baralho quando fez Assédio porque seu prestígio havia sido restaurado, pelo menos em parte, com Beleza Roubada. Embora a maioria da crítica não dê muito valor a esse filme, é um dos melhores do autor. A história da garota em busca do pai, que faz seu rito de passagem na Toscana, é bem mais rica e complexa do que as pessoas, apressadamente, tentaram fazer entender. Há um subtexto sobre a morte, sobre a degradação dos sonhos da geração que tentou mudar o mundo em maio de 68. Tudo isso é interessante e Liv Tyler, que faz a protagonista, Lucy, não é menos que deslumbrante.Beleza Roubada recuperou Bertolucci para a experiência de Assédio, deixando para trás o orientalismo de pacotilha da trilogia formada por O Último Imperador, O Céu Que nos Protege e O Pequeno Buda. Assédio, com Tandie Newton e David Thewlis, está sendo lançado em vídeo. Um acaso faz com que chegue às locadoras simultaneamente com Antes da Revolução, o primeiro grande impacto de Bernardo, embora não seu primeiro filme (que foi La Commare Secca, com roteiro de Pier-Paolo Pasolini). Um distribuído pelo Consórcio Europa, no selo Europa; o outro, pela Cult Filmes. Ambos obrigatórios para quem quiser entender um dos mais importantes diretores italianos da geração que surgiu nos anos 60.Prima della Rivoluzione (título original) demorou 34 anos para chegar aos cinemas brasileiros. O filme de 1964 estreou no País só em 1998. É uma obra-prima, não menos que isso. Um título fundamental para a compreensão dos míticos anos 60. Bertolucci tinha apenas 23 anos quando fez esse filme centrado no personagem Fabrizio (interpretado por Francesco Barilli). O nome não é acidental. Evoca Fabrizio Del Dongo, o stendhaliano herói de A Cartuxa de Parma.O Fabrizio de Bertolucci vive angustiado entre o conformismo e a sua necessidade de radicalizar, saltando no escuro. No começo, ele perde um amigo afogado e se pergunta o que poderia ter feito para evitar a tragédia. Apaixona-se pela tia, jovem e neurotizada (Adriana Asti). Aceita um casamento de conveniência. O título remete a Talleyrand - "Só quem viveu antes da revolução conheceu a delícia de viver". Bertolucci, cria de Luchino Visconti e Jean-Luc Godard, faz a síntese desses dois pólos do seu cinema. O clássico e o revolucionário, mas Visconti, na época, não era menos revolucionário, apenas trabalhando numa cinedramaturgia mais clássica.É um filme que coloca o tema do intelectual diante da ação política, um dilema muito forte nos anos 60. A política volta de forma madura e sutil em "Assédio". As primeiras imagens passam-se na África. Thandie Newton leciona numa escola para crianças carentes (ou deficientes). Seu marido, opositor ao regime, é brutalmente preso. A narrativa salta para Roma, onde ela, agora emigrante, vai trabalhar como faxineira para um pianista (Thewlis). Envolvem-se - a relação inter-racial é carregada de densidades e significados. Bertolucci voltou à forma. Quem sabe não volta ao nível das obras-primas do começo de sua carreira?Antes da Revolução (Prima della Rivoluzione) - Dir.: Bernardo Bertolucci, Itália, 1964, Cult Movies. Este mês, nas locadoras.Assédio (Besieged) - Dir.: Bernardo Bertolucci, Itália, 1998. Europa. Este mês, nas locadoras.

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