AP Photo/Neal Ulevich
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Bernardo Bertolucci era um mestre tanto no épico como no intimismo

Eixo político de sua obra nunca deixou de conviver com outra de suas preocupações, a questão da subjetividade humana, em leitura psicanalítica

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

26 Novembro 2018 | 11h18

Um gigante do cinema nos deixou hoje. Aos 77 anos, foi-se Bernardo Bertolucci, autor de filmes polêmicos como O Último Tango em Paris, políticos como 1900, grandiosos como O Último Imperador, minimalistas como Eu e Você, seu último longa.

Filho do intelectual e poeta Atílio Bertolucci, Bernardo deu início à sua carreira com La Comare Secca (A Morte) em 1962, numa época áurea do cinema italiano, quando o neorrealismo já havia acabado, mas os grandes, como Fellini, Antonioni, De Sica, Pasolini e o próprio Rossellini estavam não apenas na ativa, mas no auge de suas carreiras. Um ambiente de tal forma competitivo em termos da excelência artística mostra-se extremamente estimulante para um novato.

E, desse modo, o jovem Bertolucci já brilha com seu segundo longa, Antes da Revolução (1962), uma adaptação livre da Cartuxa de Parma, de Stendhal, reflexão sobre o sentido das revoluções. Tema que ele reencontraria mais tarde no épico Novecento, 1900 (1976) um painel extenso e emocionante sobre o ímpeto incontornável de mudar o mundo. 

1900 faz parte do, digamos assim, “núcleo duro político” da obra de Bertolucci, eixo que nunca deixou de conviver com outra de suas preocupações — a questão da subjetividade humana, em leitura psicanalítica (seu extremo, nessa tendência, seria La Luna (1979) sobre a relação entre filho e mãe em chave edipiana explícita). 

Por isso, uma de suas maiores obras, O Conformista (1970), tirado do romance de Alberto Moravia, analisa a questão do fascismo na Itália em suas determinações sociais, mas também nas raízes psicológicas do personagem principal, vivido por um Jean-Louis Trintignant em estado de graça. Ele é o “conformista” do título, pois deseja confundir-se com a multidão; mas é também o reprimido sexual, que transforma seu impulso primário recalcado em ressentimento e violência política. O filme disse muito sobre a realidade italiana da época e talvez ainda tenha umas duas ou três palavras a dizer sobre a atualidade brasileira. Filme a ser revisto em nossos dias.

Bertolucci gostava de apoiar-se em grandes autores. Stendhal em Antes da Revolução, Moravia em O Conformista e Jorge Luis Borges em A Estratégia da Aranha. Neste último, que é outro de seus grandes filmes políticos, Bertolucci inspira-se no breve relato de Borges Tema do Traidor e do Herói, para falar da ascensão de Mussolini e dos crimes políticos na Itália fascista — uma de suas obsessões.

Bertolucci já era amplamente conhecido por esses filmes, mas seu nome tornou-se universal com um sucesso de escândalo como O Último Tango em Paris (1973). Um desesperado viúvo de meia idade (Marlon Brando) inicia caso terminal com uma jovem (Maria Schneider) numa Paris crepuscular. O sexo é menos exercício de prazer ou afeto e mais tentativa frustrada de remediar o vazio existencial. O filme é de uma beleza convulsiva, como recomendava André Breton, e marcou época. Resistiu ao tempo e às tentativas tolas de vinculá-lo a duvidosos bastidores de filmagem. A crítica Pauline Kael comparou a importância do Tango, para o cinema, à da estreia da Sagração da Primavera, de Stravinsky, para a música. 

Bertolucci, que sabia trabalhar tão bem na contenção como no épico, não deixou de ser mordido pela mosca azul do êxito universal que, no cinema, atende pelo nome de Hollywood. Seu grande êxito nesse terreno foi com grandiloquente O Último Imperador (1987), ganhador de nove Oscars, entre os quais os de melhor filme e diretor. Bertolucci é o único diretor italiano a possuir essa estatueta.  

Sua outra incursão oriental, em O Pequeno Buda (1993), não teve o mesmo sucesso — e nem foi apreciado pela crítica. É um trabalho bastante artificial e inconvincente, um dos raros pontos baixos numa carreira em que cumes e cordilheiras são comuns.

Já em outro de seus filmes “americanos”, O Céu que nos Protege (1990), adaptado de Paul Bowles, foi bastante feliz, retomando o tema do estranhamento entre culturas, que também nunca deixou de fasciná-lo. 

A fase final de carreira inclui uma bela peça de câmera de retorno à Itália, como Beleza Roubada (1996), uma antevisão do que seria um tema comum nos anos 2000 com O Assédio (1998), uma revivescência dos anos rebeldes do maio francês de 1968 com Os Sonhadores (2003), e a questão familiar em tom minimalista com Eu e Você (2012), seu último trabalho. Pinceladas finais de um mestre, cuja obra há de permanecer. 

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