Alessandro Bianchi|Reuters
Alessandro Bianchi|Reuters

Bernardo Bellocchio traz a Cannes o belo 'Tenha Bons Sonhos'

Longa do diretor italiano integra a abertura da Quinzena dos Realizadores

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2016 | 16h00

CANNES - Pertencente à mesma geração de Bernardo Bertolucci no cinema italiano, Marco Bellocchio passou os anos 1960 e 70 disputando com o colega a atenção do público e da crítica. Houve um tempo em que Bertolucci, com o escândalo de Último Tango em Paris e o Oscar de O Último Imperador, tomou a dianteira, mas hoje não tem para ninguém. Bellocchio virou o grande diretor não apenas de sua geração, mas do cinema italiano atual. Prova-o, de novo, com Fai Bei Sogni. O filme inaugurou na quinta-feira, 12, à noite, a seção Quinzena dos Realizadores. Na sexta, 13, à tarde, Bellocchio conversou com o repórter numa suíte da Croisette.

“Tenha bons sonhos” – é o que a mãe murmura no ouvido de Massimo, quando ele já está dormindo. Pela manhã, a tragédia que vai perseguir Massimo adulto – a morte da mãe. Prepare-se, porque o filme é belíssimo. Renata de Almeida adorou e já está de olho no Bellocchio para a Mostra. “Em primeiro lugar, preciso esclarecer que esse não foi um projeto meu. O produtor me ligou propondo que adaptasse o romance de Massimo Gramellini, que saiu na Itália em 2012. Disse-lhe que teria de ler o livro, o que fiz. Achei que havia um material muito rico, com o qual valeria trabalhar. Mas já estava comprometido com Sangue del Mio Sangue, que estreou em Veneza no ano passado. Essa profissão é curiosa. Em geral, perde-se muito tempo correndo atrás de financiamento. Desta vez, consegui emendar dois filmes de forma consecutiva, quase simultânea”, lembra Bellocchio.

O repórter observa que, apesar da encomenda, Tenha Bons Sonhos lhe pareceu muito elaborado, e até pessoal. “Mas é. Só consigo trabalhar num projeto se estiver muito envolvido. Já fiz filmes sobre terrorismo, eutanásia, a Igreja. Já contei a histórias de uma louca que dizia ser mulher de Mussolini. São filmes que vocês, da imprensa, chamam de políticos, mas a política é sempre uma consequência. Viver é um ato político, por mais alienados que sejamos. Começo sempre pelos personagens, e pela família, que está presente em todos os meus filmes. Massimo foi um personagem que me fascinou. E, embora já estivesse envolvido com Sangue do Meu Sangue, tive de ir preparando Fai Bei Sogni, porque sabia que filmar em duas épocas (passado e presente) e em várias locações (Turim, Roma, Sarajevo), nunca é fácil. Finalmente, a montagem me exigiu muito tempo e atenção. Acredite – é um elogio que você me faz ao dizer que o filme é pessoal. Ficou, é a verdade.”

E Bellocchio reflete – “Quando a gente é jovem, ainda não tem muitas experiência da arte nem da vida. E para se assegurar de que a gente domina o filme, escolhe temas que nos são próximos, de um cunho mais autobiográfico. Foi assim com De Punhos Cerrados, In Nomine del Padre. Com o tempo, a gente percebe que consegue contar as histórias dos outros para fazer comentários pessoais sobre o mundo. É o que ocorre com esse filme.” Massimo passa pela vida não só se sentindo órfão na alma, mas também tentando decifrar o mistério da morte da mãe. Porque há um mistério que cerca essa morte. Bellocchio vale-se de incidentes – a morte de uma mãe, vítima de um atirador, e a aparente indiferença do filho em Sarajevo; a carta de um leitor (ele vira jornalista) que odeia sua mãe; uma minúscula caixa que pertenceu à mãe ressurge em sua vida, etc. – para refletir sobre a carência de Massimo. Tudo isso estava no livro?

“Na verdade, não. Havia um incidente em Sarajevo, mas não era bem assim. Havia a caixa, mas não a carta. Aproximei Sarajevo e a caixa no roteiro em busca de um efeito dramático, para cristalizar, digamos, a psicologia de Massimo. Adaptar não significa seguir ao pé da letra um livro ou peça. É que nem na vida. Às vezes, precisamos nos afastar de alguém para ficar próximos”, reflete.

Massimo, como a mãe, é fascinado pelo cinema de terror que vê na TV. Até que ponto essa é uma vivência de Bellocchio? “Quando eu era criança, a TV não existia ou não era importante na Itália. Eu ia ao cinema. Quando se consolidou, a TV virou máquina de manipulação com (Sílvio) Berlusconi. A televisão virou parte importante da nossa tragédia italiana”, reflete ainda o diretor.

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