Bernal, a força do novo cinema mexicano

Mais do que qualquer outra cinematografia internacional, incluindo a sempre proeminente francesa, o cinema mexicano vem se transformando na maior revelação recente do circuito americano. Nos últimos dois anos, filmes como Amores Perros, de Alejandro González-Iñárritu, E Sua Mãe também, de Alfonso Cuarón, não só estouraram na bilheteria dos EUA, como também ajudaram a propagar em Hollywood o fluxo de novas idéias saídas de outras praças latino-americanas, especialmente de cineastas da Argentina e do Brasil.Como toda revolução possui um líder, o grande fôlego conquistado pelo cinema mexicano já tem, pelo menos, um marcante rosto: o do jovem ator Gael García Bernal. Aos 23 anos, Bernal tem a seu favor o fato de ter protagonizado os três filmes mexicanos de maior expressão internacional em quase uma década, ou seja, desde que Alfonso Arau lançou, em 91, o megassucesso Como Água para Chocolate. Além de Amores Perros e E Sua Mãe também, o ator é a estrela de O Crime do Padre Amaro, filme que se tornou a maior bilheteria de todos os tempos no México e que está sendo exibido nos cinemas brasileiros."Acredito que o sucesso desses três filmes fora do México aconteceu porque, pela primeira vez em muito tempo, três brilhantes cineastas decidiram filmar histórias com temas facilmente identificáveis por qualquer cultura do planeta", explica Bernal em entrevista por telefone à reportagem do Estado, falando de Los Angeles. "Espero que, o fato de essas produções terem dado certo no mercado americano, ajude também o caminho de Cidade de Deus, que é uma maravilha de filme, de Madame Satã, e da atual safra argentina", prossegue. "O momento pede um reconhecimento amplo da cinematografia latina e não apenas de uma cinematografia exilada", observa.Dirigido pelo cineasta Carlos Carrera (que já venceu o prêmio Camera D´Or do Festival de Cannes por seu curta El Héroe, em 94), O Crime do Padre Amaro é uma adaptação do cultuado romance homônimo do escritor português Eça de Queiroz. Mas, em vez de ambientar a história de um padre católico, que vive um trágico romance com uma menor de idade, na Portugal do fim do século 18, Carrera adaptou a história para uma cidade do interior de um México contemporâneo. Bernal faz o papel do pároco que se muda para um vilarejo, onde a Igreja faz vista grossa às doações monetárias ofertadas por lordes do tráfico de drogas e onde conhece uma garota de 16 anos (leia entrevista com Ana Claudia Talancón), a qual vem a engravidar.Ao se tornar o maior fenômeno de bilheteria do México no ano passado, O Crime do Padre Amaro também despertou a fúria da Igreja Católica no país.Autoridades religiosas chegaram a pedir ao presidente Vicente Fox que interviesse e banisse o lançamento do filme. Sem que a súplica tivesse efeito, o longa foi lançado em mais de 350 cinemas no país e arrecadou um total de US$ 13 milhões na bilheteria."Na verdade, toda essa publicidade gerada pela Igreja Católica acabou sendo muito boa para o sucesso do filme, mas não era o tipo de propaganda que queríamos", avalia Bernal. "Fiquei bastante desiludido com a reação dos religiosos, pois achava que a Igreja seria mais otimista e teria uma posição mais inteligente, usando esse filme para expurgar a si própria e também o fato dos ataques recentes pelos quais passaram."As constantes acusações de pedofilia e molestamento sexual por padres católicos nos EUA ajudaram a despertar o interesse do público pelo filme no mercado americano. Até a última semana, O Crime já havia arrecadado US$ 4,5 milhões e, no domingo, o filme concorreu ao Globo de Ouro, sendo derrotado pelo espanhol Fale com Ela, de Pedro Almodóvar. Mas existem boas chances de O Crime ainda conquistar uma indicação para o Oscar. "Não queremos ficar superconfiantes, mas acredito que pode rolar uma indicação para o prêmio da academia", diz Bernal.Filho da modelo e atriz Patricia Bernal e do cineasta Jose Angel García, o primeiro contato de Bernal com as câmeras foi com 1 ano de idade. Desde então, foi ator mirim de várias novelas mexicanas até ingressar no cinema em 1996, no filme De Tripas, Corazón, de Antonio Urritia. Em seguida, decidiu estudar drama numa escola de Londres, onde ainda mantém um apartamento.Embora já esteja formalmente escalado para aparecer no próximo filme de Pedro Almodóvar, batizado de Mala Educácion, e de ser protagonista do novo trabalho de Walter Salles, Bernal é simplista ao explicar sua paixão pela profissão de ator. "É um estilo de vida que me fascina e interessa muito. Não é preciso grandes reflexões para falar sobre algo que é prazeroso."Até algumas semanas atrás, Bernal esteve filmando com Salles na região andina, o filme Os Diários da Motocicleta. Produzido pela South Fork Pictures, companhia do ator e diretor Robert Redford, o longa Os Diários marca a estréia da dupla de ator e diretor numa produção falada em inglês. O roteiro é baseado na viagem de sete meses, entre 1951-52, que Ernesto (Che) Guevara fez pela América do Sul com o amigo Alberto Granado e na qual aflorou em Che seu ideário marxista, tornando-se um grande advogado da esquerda revolucionária na América Latina dos anos 60.Bernal, que recentemente interpretou Che Guevara no telefilme Fidel, produzido pela rede a cabo americana HBO (ele detestou o resultado da produção), conta que foi convidado para um encontro com Walter Salles e, nessa reunião, houve "uma grande empatia" entre os dois. Mas Bernal já vai logo avisando: "Waltinho me proibiu categoricamente de falar sobre o filme com qualquer jornalista. Ordens são ordens", brinca.Ele, porém, não se importa em explicar o que mais o surpreendeu sobre a figura mítica de Guevara em sua intensa pesquisa preparatória (além de ler várias biografias do líder guerrilheiro, Bernal revela que procurou se familiarizar com os escritos de Marcel Camus, Pablo Neruda e Franz Kafka). "Fascinou-me o fato de Che ser uma pessoa totalmente incongruente e de não ser ciente dessa incongruência."Em entrevista ao jornal The Los Angeles Times, Walter Salles descreveu as qualidades de Bernal: "A capacidade de García de se adaptar e de se moldar às mais variadas situações é extraordinária. E isso é um grande presente para um diretor." Já, Bernal, em bom portunhol, descreve à reportagem do Estado como foi trabalhar com Salles: "És una pessoa charmosa, encantadora, carinhosa, gigantesca, enfim, o príncipe do Rio."

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