REUTERS/Annegret Hilse
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Berlinale 2020: curadoria propõe seleção política e autoral

Sucessor de Dieter Kosslick, o italiano Carlo Chatrian mescla novatos e grandes autores e elege os temas contemporâneos

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

30 de janeiro de 2020 | 06h00

De 2001 a 2019, Dieter Kosslick foi diretor artístico da Berlinale, assinando a seleção oficial do festival que se tornou conhecido como o mais político do mundo. Alguns críticos até reclamavam – Kosslick, formado na Universidade de Munique Ludwig-Maximilians, era capaz de sacrificar a estética para ter uma seleção politicamente eficaz, e reflexiva dos grandes temas contemporâneos.

Imigrantes, desigualdades sociais, crimes contra o meio ambiente. Seu sucessor, Carlo Chatrian, é italiano, de formação jornalística e foi curador do Festival de Locarno. Sua primeira seleção para Berlim não o distancia da diretriz de Kosslick. A política continua dando o tom, e o filme brasileiro na competição, Todos os Mortos, de Marco Dutra e Caetano Gotardo, é prova disso. Os diretores valem-se do Brasil histórico, com sua trama pós-libertação dos escravos e Proclamação da República, para retratar o Brasil contemporâneo, com seus problemas estruturais e desigualdades.

Mas Chatrian, pelo menos a uma primeira visão, parece ter se preocupado muito com a autoralidade. Sua seleção de 18 títulos contempla novatos (como os brasileiros), mas privilegia grandes diretores das mais diferentes latitudes. Se não é o maior cineasta alemão da atualidade, Christian Petzold é dos maiores, com certeza. Ele volta à disputa pelo Urso de Ouro com Undine. Cineastas de prestígio como o sul-coreano Hong Sangsoo, o cambojano Ritty Panh, o francês Philippe Garrel, o americano Abel Ferrara e o autor de Taiwan Tsai Ming-liang, também concorrem – com The Woman Who Ran, Irradiated, Le Sel des Larmes, Siberia e Days.

Condenado a um ano de prisão pelo governo iraniano, em 2019 – acusado de atentar contra a segurança nacional –, Mohammad Rasoulof concorre ao Urso com The Is no Evil. Seis dos filmes selecionados são dirigidos ou codirigidos por mulheres, entre elas a argentina Natalia Meta, de El Prófugo, e uma habitué da Berlinale, a inglesa Sally Potter, de The Roads Not Taken. Uma nova versão de Berlin Alexanderplatz desperta particular atenção – conseguirá Burhan Qurbani superar Rainer Werner Fassbinder, que assinou a monumental adaptação anterior (de mais de 11 horas)?

A Itália cravou dois filmes na competição: Favolacce, de Damiano e Fabio D’Innocenzo, e Volevo Nascondermi, de Giorgio Diritti. O 70.º Festival de Berlim começa dia 20 de fevereiro com Meu Ano de Salinger, de Philippe Falardeau, e vai até 1.º de março. 

“Os filmes da competição contam histórias de efeito duradouro e ganham impacto com a interação com o público. Se houver predominância de tons escuros, isso pode ser porque os filmes que selecionamos tendem a olhar para o presente sem ilusão – não para causar medo, mas porque eles querem abrir nossos olhos”, acrescenta Chatrian.

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