Paul Zinken/EFE
Paul Zinken/EFE

Berlim abre a sua 64.ª edição

Começa o mais político dos festivais

Luiz Carlos Merten, Berlim - O Estado de S. Paulo

05 de fevereiro de 2014 | 03h00

Na entrevista coletiva em que anunciou a programação do Festival de Berlim de 2014 – a íntegra está no site da Berlinale –, Dieter Kosslick falou sobre o conceito da seleção. Kosslick é o chamado ‘dono’ da Berlinale. Em comparação com Cannes, ele seria, ao mesmo tempo o diretor-geral do evento, Gilles Jacob, e o diretor artístico responsável pela seleção oficial, Thiérry Frémaux. Quem acompanha a Berlinale sabe que nenhum outro festival seleciona tantos filmes que discutam relações familiares, ou entre pais e filhos. É uma forma de introduzir a reflexão sobre a autoridade. Começa-se por discutir a autoridade na família e logo o tema adquire dimensão política.

Começa mais um Festival de Berlim, o de número 64. Até o dia 16, com a outorga do Urso de Ouro, serão exibidos 23 filmes na competição – três fora de concurso. Na entrevista, e no site, Kosslick diz que não planejou dessa maneira – “Não foi uma decisão racional, consciente” –, mas o tema da responsabilidade dos alemães perante o nazismo está presente em todo o evento deste ano. “Já estamos preparados (a Alemanha) para discutir as consequências do nacional-socialismo.”

A política, portanto, voltará a dar as cartas na Berlinale, que já ostenta a reputação de ser o mais político dos grandes festivais de cinema que se realizam na Europa. Todo ano, e a despeito de os EUA abrigarem Sundance, em janeiro, Berlim abre a temporada dos grandes festivais. Em maio virá Cannes, no final de agosto, Veneza. Os três têm sido acossados por Toronto, no Canadá, que concorre em datas com Veneza e cresce tanto que hoje os especialistas dizem que chega a ameaçar a primazia de Cannes. O Brasil, que venceu o Urso de Ouro em 1998 com Central do Brasil, de Walter Salles, e em 2008 com Tropa de Elite, de José Padilha, volta à competição com o novo longa de Karim Aïnouz, A Praia do Futuro, interpretado por Wagner Moura que, como o Capitão Nascimento, já fez história na Berlinale. Leia abaixo sobre a presença brasileira na Berlinale de 2014, nas diferentes seções que compõem o festival.

Até pelo frio e pela neve – e o inverno deste ano está sendo considerado o mais rigoroso, em décadas, no Hemisfério Norte –, Berlim não possui nem de longe o glamour do tapete vermelho de Cannes. Só doido para ficar ao relento para ver a entrada das celebridades – e, mesmo assim, muitos ficam. Apesar da calefação na entrada do Palast – o Palácio do Festival –, poucas estrelas se arriscam a despir seus casacos para exibir decotes generosos. E o que mais inflama o festival termina sendo o debate sobre as condições políticas do mundo. Além da competição, a mostra Panorama, que este ano terá dois filmes do Brasil, é outra queridinha dos críticos. O curador Wielland Speck tem um bom faro para filmes humanistas e sociais. E volta e meia surpreende com filmes de militância gay, embora a Berlinale tenha seções e prêmios específicos (como o Teddy Bear).

Embora integrem a seleção oficial de 23 filmes, três não vão concorrer aos prêmios, apenas usando a Berlinale como plataforma para lançamentos gigantescos. São o filme de abertura, The Grand Budapest Hotel, de Wes Anderson, e também Caçadores de Obras-primas, codirigido e interpretado pelo astro George Clooney, e a nova versão de A Bela e a Fera, de Christophe Gans, com Vincent Kassel e Léa Seydoux. Como a herança nazista, a seleção põe o foco na influência chinesa no mundo por meio de três filmes em competição – Tui Na/Massagem Cega; Bai Ri Yan Huo/Carvão Negro Gelo Fino; e Wu Ren Qu/Terra de Ninguém. A grande surpresa é que há apenas um filme dos EUA na corrida pelo Urso – Boyhood, de Richard Linklater, que ganhou o Urso de Prata pelo primeiro filme da série com Ethan Hawke e Julie Delpy, Antes do Amanhecer.

Uma vencedora do Urso de Ouro, a peruana Claudia Llosa – que ganhou o prêmio com A Teta Assustada –, volta à disputa com Aloft. E dois dos mais velhos cineastas do mundo – dois dos maiores autores – concorrem com os jovens. O francês Alain Resnais, de 91 anos, desafia sua frágil constituição e enfrenta o gelo de Berlim para mostrar Aimer, Boire et Chanter – Amar, Beber e Cantar. O japonês Yoji Yamada, de 83 anos, volta à Berlinale com Chiisai Ouchi. No ano passado, doente, ele acompanhou a distância a exibição de seu belíssimo Família em Tóquio, inspirado – não é um remake – no clássico Viagem a Tóquio, também conhecido como Era Uma Vez em Tóquio, de Yasujiro Ozu. Ambos foram adquiridos pela Esfera para exibição no Brasil e o Yamada já estreia sexta-feira, um ano depois da Berlinale de 2013.

A par dos longas de Karim Aïnouz e Claudia Llosa, a competição de Berlim abriga mais dois latinos – Historia del Miedo, do uruguaio Benjamin Naishtat, e La Tercera Orilla, da argentina Patricia Murga. O festival outorga um Urso de Ouro especial de carreira ao inglês Ken Loach. E a retrospectiva, que celebra a luz nos filmes, terá obras representativas de gêneros e cinematografias dos EUA, da Europa e do Japão.

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