Benoît Jacquot leva às telas a ópera "Tosca"

Benoît Jacquot gosta tanto de música que não hesita em definir-se como um melômano, ou seja, quem tem paixão doentia pela música. Numa entrevista por telefone, de Paris, o diretor lembra que seu primeiro filme chamava-se justamente L?Assassin Musicien, O Assassino Músico. Mas ele nunca se imaginou dirigindo uma ópera no cinema. ?O mérito foi do produtor Daniel Toscan du Plantier, que insistiu comigo, dizendo que eu era o homem certo para fazer a Tosca no cinema.? Jacquot admite que gosta de se sentir adulado, desejado. Capitulou à pressão de Toscan du Plantier, seduzido pelo argumento do produtor, que dizia que Tosca tinha tudo a ver com a obra do diretor. Grande Plantier. Você não precisa ser fã de carteirinha de óperas para gostar de Tosca.É um belíssimo filme. Não passa a ópera de maneira acadêmica para a tela. Jacquot desenvolve sua narrativa em três planos: a recriação realista da ação da ópera, um documentário sobre os locais em que se passa Tosca, em Roma, e outro documentário sobre o trabalho de estúdio, enquanto o maestro dirige a orquestra e os cantores registram sua voz. Cada um desses filmes tem a sua textura particular. Essa idéia surgiu logo que Jacquot teve seu primeiro encontro com o maestro Antonio Pappano e os cantores Angela Gheorghiu, Roberto Alagna e Ruggero Raimondi.Incomodava-o na ópera ? e mais ainda em Tosca, de Giacomo Puccini, que lhe parece a mais perfeita representação da ópera italiana ? o academicismo das encenações, aqueles cantores que, em geral, repetem marcações já centenárias do libreto e da música. ?Eu tenho de acreditar no que faço, quero que as pessoas acreditem, também.? Foi assim que pensou em manter o canto em momentos-chave, mas durante boa parte do tempo recorre ao play-back, deixando os cantores livres para representar.Representar, sim. Raimondi é um dos maiores baixos do mundo. É um velho amigo do produtor, com quem fez Don Giovanni. A adaptação da ópera de Mozart, por Joseph Losey, talvez seja o mais perfeito casamento entre música e cinema da história. Raimondi não apenas canta uma parte de barítono, como a de Scarpia; representa o papel. O tenor Roberto Alagna não é um cantor do mesmo calibre, mas com certeza não compromete como Cavaradossi, na célebre áriaE Lucevan le Lucci. E a soprano romena Angela Gheorghiu é mais do que uma diva. Ela canta de forma sublime o tempo todo ? a ária Vissi d?Arte é de ouvir de joelhos ?, mas, mais do que isso, é uma atriz extraordinária, que compreende e carrega a força do papel de Floria.?Ela é maravilhosa?, comenta o diretor. ?Angela pode ser e é uma diva, mas no cinema era uma estreante aplicada, disposta aos maiores sacrifícios para atender ao diretor experiente, que, no caso, sou eu.? Entre a aceitação do convite de Plantier e a estréia de Tosca no Festival de Veneza, em setembro, passou-se mais de um ano. É muito tempo, para o ritmo em que Jacquot costuma trabalhar. ?Não planejei nem exigi uma rodagem longa, mas conciliar as agendas desses grandes cantores de ópera foi um bocado difícil. Em função das datas deles, eu tive mais tempo do que habitualmente tenho; foi bom para que eu pudesse amadurecer bem o projeto.?Sua fama é de um diretor pós-nouvelle vague que também era anti-nouvelle vague, preferindo fazer o cinema francês retornar à via rigorosa de Robert Bresson. ?Isso é verdadeiro para outros filmes meus?, ele reconhece. ?Neste caso, senti-me mais próximo de (Vincente) Minnelli, pelo uso da cor e da cenografia e também por causa da música, naturalmente.? Vincente Minnelli, pai de Liza, foi um dos grandes do musical, na era dourada do gênero, em Hollywood. Jacquot reconhece que suas idéias de câmera e montagem talvez tenham a ver mais com a tradição dos musicais do que com as óperas filmadas, mas ele está seguro de que não traiu a Tosca de Puccini.Em filmes como Sade, com Daniel Auteuil, exibido na TV paga, e L?École de la Chair, no qual Isabelle Huppert se apaixona por um garoto de programa, Jacquot deu pleno desenvolvimento ao seu estilo. ?Gosto de paixões intensas, exacerbadas, meus personagens são muitas vezes excessivos, quase histéricos, mas tudo tem de ser filmado de forma muito fria e racional.? Era o que servia para o conceito do produtor Toscan du Plantier: ?Ele não queria alguém que pudesse carregar ainda mais na emoção de algo que já é carregado.? Jacquot acaba de estrear outro filme em Paris. É Adolfo, uma adaptação do romance de Benjamin Constant, que fez para Isabelle Adjani. ?Ela me pediu, de novo me senti desejado e, além do mais, é um livro do qual gosto muito.?Quatro filmes com Isabelle Huppert, um com Adjani. Faltava a terceira ? para muitos, a primeira ? grande estrela do cinema francês, Catherine Deneuve. ?Meu próximo filme será com ela?, diz Jacquot. O título será Princesse, Princesa, e a personagem, a aristocrata que introduziu a psicanálise na França. Outro filme sobre paixões muito fortes, como Sade e Tosca. Outro grande papel para Catherine Deneuve. ?Adoro as estrelas. Como criador, é estimulante trabalhar com essas figuras míticas que impulsionam o desejo do público?, diz o diretor.

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