"Benjamim" traz narrativa fragmentada de Chico

Deixem o Chico em paz para que ele possa assistir ao filme com tranqüilidade - pedia a diretora Monique Gardenberg, na terça-feira à noite, na pré-estréia para convidados de seu filme Benjamim. O mais ilustre era Francisco brasileiro - o cantor, compositor e escritor Chico Buarque de Holanda, autor do livro em que Monique se baseou. Chico veio a Sampa para assistir ao filme pela primeira vez. Quase houve cenas de sangue no Cinearte. Fotógrafos e populares criaram o maior tumulto para ver Chico, os mais afoitos para tocar naquele mito de olhos verdes e sorriso cândido. Cléo Pires tomou o maior susto. Cléo faz a protagonista (dupla) de Benjamim. É a mais nova estrela da constelação do cinema nacional. Antes da sessão, Chico disse que, se havia alguém indicado para fazer o filme, era a diretora Monique Gardenberg. No fim, elogiou o trabalho dela e também os de Paulo José e Cléo, mas fez a ressalva de que seu livro é de macho e Monique fez um filme feminino. Cléo Pires é filha de Glória Pires e Fábio Júnior. Não gosta muito de falar sobre a família, mas diz que os pais estão orgulhosos e felizes porque ela está feliz na carreira de atriz. Cléo saiu do ´bem bom´, como define o seu estilo de vida em Goiás - tomando banho de cachoeira, andando no mato, comendo sushi e tirando filmes de terror na locadora ("Adoro", confessa) -, para ser arremessada no centro do furacão, na entrada do Cinearte. "Fiquei apavorada com aquele assédio da imprensa e do público ao Chico." Pediu, pelo amor de Deus, que a tirassem dali. Mas ela entende as razões do entusiasmo. Chico virou uma rara unanimidade nacional, ela concorda. Tchuka, como é chamada pela diretora, tem 25 anos. Benjamim marca sua estréia e não apenas no cinema. Cléo não havia feito teatro nem TV antes. Estréia num papel difícil, num filme exigente. Empenhou-se a fundo, mas atribui o mérito a Monique. "Ela me treinou, me deu todo apoio. Foi uma coisa muito bacana, de dedicação das duas", conta. Quem acompanha a escrita de Chico Buarque em livros como Estorvo, Benjamin e agora o mais recente, Budapeste, sabe que não é um narrador tradicional. Chico faz da própria escrita o seu material e isso é difícil de expressar no cinema. Ruy Guerra, que filmou Estorvo, fez o filme na cabeça do personagem, chamado simplesmente de Eu, que Jorge Perugorría interpretava. Monique respeita a narrativa fragmentada de Chico, mas ela quer que o espectador perceba os dois planos do relato, o passado e o presente. Cléo é a obsessão de Paulo José, que faz o personagem quando velho (Danton Mello faz o jovem Benjamim). Toda a construção dramática leva a uma morte violenta e esse é o fascínio e o ponto fraco do filme. Parece muita fabulação para chegar até este desfecho, mas seria injusto negar as belas qualidades de Benjamin.

Agencia Estado,

02 de abril de 2004 | 16h22

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