"Benjamim", de Chico Buarque, vira filme

Se, no Brasil, aventurar-se a fazer cinema de gente grande é quase um milagre, chegar ao segundo longa é um ato de heroísmo. Mesmo para quem estreou na atividade em grande estilo, como Monique Gardenberg. A produtora cultural e diretora de videoclipes realizou o seu sonho em 1996 ao lançar Jenipapo, um drama de fundo político protagonizado por um ator estrangeiro, Jason Patric. Despontou como "promessa" da retomada do cinema brasileiro e chegou a ser convidada pela Fox para comandar um projeto da subsidiária de filmes de arte do estúdio americano.Mas só seis anos e muitos videoclipes mais tarde é que Monique pôde voltar a comandar novamente um set de filmagem. Benjamim, a adaptação do romance de mesmo nome de Chico Buarque, que está sendo rodado em diferentes pontos do Rio - não necessariamente cartões-postais - dá prosseguimento ao desejo de Monique de se firmar como uma das heroínas do cinema nacional."Nunca pensei em abandonar a carreira. Sempre quis ser atriz, desde menina, mas a vida não permitiu e aos 17 anos me tornei secretária executiva. Dezesseis anos mais tarde virei diretora de cinema e não quero mais largar. Preciso disso para viver, sempre precisei, é quando estou mais feliz. Se demorei a voltar, foi de novo por circunstâncias da vida. Mas nunca pensei em parar", explica a diretora baiana de 43 anos, mais conhecida como uma das mentoras do Free Jazz, durante um dos raros intervalos das filmagens.Infortúnios - A morte de Silvia, irmã e sócia na Dueto Produções, a companhia que, entre outras coisas, articula o festival de jazz, foi um dos infortúnios que nublaram o caminho de Monique no cinema. Se bem que, até para o bem da reputação da diretora, a proposta inicial que recebera da Fox acabou sendo negociada por outra."Não me identifiquei com a história que a Fox sugeriu", lembra Monique, que escapou da tentação de dirigir para os americanos o filme que chegaria aos cinemas com o título de Woman on Top, ou Sabor da Paixão, para os brasileiros, projeto que foi parar nas mãos da venezuelana Fina Torres."Propus algo no lugar: um roteiro sobre um aspecto pouco conhecido da resistência judaica em Varsóvia, objeto da tese Mensageiras, da historiadora australiana Shophie Gelski. Eles toparam." Durante dois anos, ela esteve envolvida na pesquisa e elaboração do roteiro. "Mas tive de interromper o contrato temporariamente, pois não queria me afastar do Brasil. Foi aí que comecei a viajar na idéia de filmar Benjamim. Depois veio o luto de dois anos (pela irmã Silvia) e agora estou voltando. Quando acabar Benjamim, vou me dedicar ao que pode ser a última edição do Free Jazz e ao filme sobre a 2.ª Guerra", promete.A vontade de filmar Benjamim, um romance de tons policialescos considerado infilmável por muitos, começou a tomar forma a partir de uma conversa com Paula Lavigne, sócia da Natasha Records, que se tornaria co-produtora do filme, e seu marido Caetano Veloso, para quem, na época, Monique estava dirigindo Fina Estampa. "Quando Caetano me descreveu, com todo o requinte de detalhes e a compreensão cinematográfica que ele tem, a cena de deslanche da história, que se passa num banheiro, fiquei na maior excitação, comprei o livro no dia seguinte e devorei a obra do Chico, que considero brilhante", conta a diretora. "O meu fascínio por Benjamim veio da linguagem extremamente cinematográfica do livro e da linda história de amor, ainda que terrível, contida ali."Benjamim, o filme, saiu da mesa da pizzaria na forma de uma história de amor com fundo policial. O primeiro passo foi decidir se o roteiro seguiria a trajetória de Benjamim Zambraia, o protagonista, um ex-modelo fotográfico já na meia-idade, que é atirado num redemoinho de acontecimentos absurdos, segundo a mesma intricada narrativa do livro, que se passa em três tempos distintos. "Logo de início, o Jorge Furtado (um dos co-roteiristas, com Glênio Póvoas e a própria Monique) perguntou assim: ´Queremos fazer um filme para passar na sessão das 4 no festival de Locarno ou um filme bem enredado, com começo, meio e fim?!´ Optamos pelo segundo caminho. Mas, logo nos primeiros tratamentos, o roteiro ficou híbrido, meio existencial e meio thriller. Aí, a Paulinha (Lavigne), produtora do filme com Augusto Casé, me deu uma prensa. Disse que o meu discurso sobre o filme não condizia com o que estava escrito. Que eu falava de uma história de amor comovente e ela lia uma outra coisa. Disse para eu ir fundo naquilo que eu acreditava. Fiquei feliz da vida e mergulhei", conta Monique.Ao assumir o compromisso de fidelidade ao texto de Chico, o filme, segundo a diretora, toma emprestado do livro o que ele tem de mais intrigante: o tempo elíptico. "Como num quebra-cabeça, a cada peça que se adiciona a visão do todo se transforma. A cada volta ao passado, o presente se modifica por completo, sua perspectiva muda. Fomos totalmente fiéis aos avanços e recuos temporais do livro, esta é a grande engenhosidade do roteiro."Receio - Desde o início, a transformação de Benjamim em filme foi acompanhada de perto - e com interesse - pelo seu autor. "Ele foi muito legal, como não poderia deixar de ser. Leu todas as dez versões do roteiro, fez observações desprendidas, sem posse ou apego a coisa alguma do livro, mas apenas em relação à coerência das cenas ou personagens. O Chico sempre quis que o filme fosse o filme, morria de medo que eu transpusesse para a boca das personagens frases que são lindas escritas, mas que viram literatice quando faladas. No nosso primeiro encontro, ele já demonstrou alívio."A idéia do filme ganhou forma rapidamente. Na cabeça da diretora e dos produtores, Benjamim é uma produção média, cujo orçamento está fechado em R$ 2,5 milhões. Cerca de R$ 1,7 milhão já foi captado, por intermédio dos patrocínios da Petrobrás BR, da Eletrobrás e do apoio da Ogilvy e do banco BBM. Mais da metade do montante já foi captado, o que garante que o cronograma de filmagens - que ainda exigirão mais duas semanas de trabalho - sejam completos.Mas Monique ainda espera uma ajuda final para garantir a finalização do filme e, também importante, alguns dias de filmagens em Paris. "É uma exigência do roteiro. Temos previsto cenas em frente da catedral de Notre-Dame, no museu do Louvre, num café parisiense e uma cena de rua. É para garantir a veracidade das seqüências que se passam nos anos 60, quando o pai de Castana Beatriz (uma das personagens vividas por Cleo Pires), insatisfeito com o namoro da filha com um modelo, manda a filha passar uma temporada em Paris. Uma atitude bem daquela época", esclarece a diretora. Dos dois textos anteriores de Chico Buarque, apenas a novela Fazenda Modelo, escrita nos anos 70, não ganhou uma versão audiovisual. Estorvo, lançado no início dos anos 90, foi filmado por Ruy Guerra. "Não sei dizer por que o interesse dos cineastas pela literatura do Chico. Não posso responder pelos outros. Quanto a mim, o que posso dizer é que quando me interesso por uma história é porque ela me afeta, e se ela me afeta é porque a história, de alguma forma, ainda que da maneira mais enviesada, passa por mim, pela minha história também", justifica Monique."Quando falei com Chico Buarque pela primeira vez sobre Benjamim, ele perguntou porque ela queria filmar aquela história. Eu lhe repondi: ´Porque eu sou o Benjamim´. Ele riu e disse: ´Peraí, o Benjamim sou eu!´ Então, a partir desse raciocínio próprio, poderíamos concluir que todos nós, cineastas e Chico, somos bem banaisinhos... Por isso ele é o mais filmado!!"Para garantir um trabalho o mais prazeroso possível, Monique se cercou de velhos conhecidos, "pessoas com quem a troca é fácil e segura". Marcos Flaksman assumiu a direção de arte, Elisa Tolomelli e produção executiva, Marcelo Pies o figurino, André Gardenberg o still e Márcia Rubin a preparação corporal. O elenco obedeceu ao mesmo critério, na medida do possível. Guilherme Leme, Ernesto Piccolo e Chico Diaz interpretam os personagens masculinos. O protagonista é vivido por Danton Mello, na juventude, e por Paulo José, em sua fase adulta.Romantismo - Monique explica que não foi difícil chegar ao profissional que pudesse dar dimensão tridimensional às angústias do protagonista. "Benjamim é um homem solitário, meio patético, meio desplugado da realidade, e um pouco deprimente no livro. Não gosto de escrever ou de falar de coisas deprimentes. Portanto, peguei o lado bom do Benjamim e o fiz mais leve, ainda mais romântico, mais musical e bizarramente refinado."Mas ainda assim, ela garante, Benjamim possui uma melancolia. "Ela está sempre ali, ainda que de pano de fundo. Precisava de um ator que desse a Benjamim a real dimensão de sua fragilidade, de sua perplexidade perante a vida. A densidade, a humanidade que o Paulo empresta a suas personagens é comovente e era isso que o filme precisava", justifica. "Procurei muito por um nome para fazer o Paulo jovem, tentei até pessoas comuns, não atores. Mas de repente surgiu o nome do Danton, e ele se encaixou perfeitamente. Foi um grande achado, uma grande lembrança."No caso de Cleo Pires, a filha de 19 anos de Glória Pires e Fábio Júnior, sua escalação foi fruto de um feliz acaso. Como a conversa na pizzaria de onde surgiria a idéia de fazer de Benjamim um filme. "Cismei com a Cleo. No ano passado, eu estava na fila do banheiro de uma festa, ela chegou e disse assim: ´Posso ir na sua frente? Estou muito apertada.´ Aquele encontro ali, num banheiro, daquele jeito, exatamente no lugar onde a história do filme começa, confirmou a minha intuição e lhe fiz o convite ali mesmo. Ela me disse que nunca tinha feito nada, nem estudado teatro e nem passado em nenhum dos testes que fez para outros filmes. Eu tinha certeza da sua força, e, assim como sua personagem repete muitas vezes no filme, lhe respondi: ´Não faz mal´."

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