Jody Rogac/The New York Times
Jody Rogac/The New York Times

Benicio Del Toro sempre escolhe a parte boa ao romper com estereótipos

A franquia de 'Sicário' e a minissérie 'Escape at Dannemora' inauguram uma nova era de longevidade para as personas do ator na tela

Reggie Ugwu, The New York Times

10 Julho 2018 | 10h11

Recentemente, Benicio Del Toro percebeu que é um velocista.

Ele sempre se identificou com os atletas - o treinamento rigoroso, o compromisso de corpo inteiro, o implacável cabo-de-guerra entre a habilidade e a pura sorte. Como ator em filmes como Os Suspeitos, Traffic: Ninguém Sai Limpo e, em um recente desvio galáctico, Star Wars: Os Últimos Jedi e um par de filmes de Vingadores, ele tem sido um jogador extremamente econômico, se não sempre o mais valioso, calculando-se a média da proporção extraordinariamente elevada de momentos memoráveis de seus minutos na tela.

Mas foi só depois de um teste de resistência recente que Del Toro entendeu que tipo de atleta era. Ele estava filmando Escape at Dannemora (ainda sem título em português), uma minissérie em oito partes para a Showtime e seu primeiro papel na televisão em mais de duas décadas. A sessão se estendeu por quase sete meses.

“Foi uma maratona”, lembrou, em uma entrevista na torre da Sony em Manhattan no final do mês passado. “Eu precisei aprender a recuar e respirar, senão iria explodir.”

A lição pode ser útil. As minisséries da Showtime e Sicário: Dia do Soldado, uma sequência pouco plausível de seu emocionante thriller de 2015 nos cinemas, inauguram uma nova era de longevidade para as personagens de Del Toro no cinema, sugerindo que sua extensa carreira ainda pode encontrar uma nova direção.

Eles também marcam uma conquista mais poderosa: Del Toro, que nasceu em Porto Rico, é um dos poucos latinos que lideram uma franquia lançada por Hollywood, onde os atores latino-americanos precisam se contentar com papeis de apoio, quando eles existem.

Aos 51 anos, ele é alto e musculoso, com uma pilha indisciplinada de cabelos negros, bochechas afundadas e pálpebras que ficam parcialmente fechadas, como se guardassem uma vaga chama. Ele tem um ar de tranquila sensibilidade e uma voz levemente anasalada, sugerindo uma versão de ‘hora da folga’ dos anti-heróis e bandidos que ele personificou nos filmes.

Desde seu desempenho em Suspeitos, em 1995, como um personagem menor, que ele transformou em um misterioso homem, Del Toro correu em direção a um conjunto de obras interessantes, incluindo Snatch: Porcos e Diamantes; 21 Gramas e Sin City: A Cidade do Pecado, deixando uma trilha de chamas que ainda ardiam muito depois que ele disse sua última frase.

Um Oscar de melhor ator coadjuvante para Traffic: Ninguém Sai Limpo (2000) não o transformou em um nome em destaque da noite para o dia, mas ele vagou em direção a um tipo tranquilo de status de protagonista, que ficou à vontade ao lado de Halle Berry em Coisas que Perdemos pelo Caminho (2007), e no biográfico Che em duas partes sobre Che Guevara (2008) — um projeto de paixão que ele também produziu.

Se o público ainda é mais propenso a reconhecer Del Toro como um intrigante acompanhamento do que como um prato principal, seu personagem nos filmes Sicário é algo entre os dois, tanto o assassino do título espanhol do filme quanto a figura quase mítica que consegue ser mais temido do que visto.

“Ele representa a fúria contra a violência da guerra contra as drogas - o mal disso”, disse Del Toro sobre o personagem, um incansável mercenário inexoravelmente vingativo, conhecido nos filmes como Alejandro. “Ele é uma vítima dos cartéis de drogas e, por isso, tornou-se completamente insensível, como um cubo de gelo.”

Poucos esperavam que Sicário retornasse. O filme original (Sicário: Terra de Ninguém), que também contava com Emily Blunt e Josh Brolin, era uma perturbadora meditação sobre ambiguidade moral e a violência infatigável na fronteira do Texas com o México. Dirigido por Denis Villeneuve, ele teve o clima e o ritmo da apresentação artística e da estreia nas bilheterias, arrecadando apenas US$ 12 milhões no mercado interno dos EUA no fim de semana de estreia.

Mas críticas positivas, a forte influência do boca-a-boca e um bom desempenho no exterior transformaram o filme em um sucesso modesto, com um faturamento global de US$ 85 milhões em um orçamento de produção de US$ 30 milhões. O roteirista do filme, Taylor Sheridan, apresentou as produtoras Black Label Media e Thunder Road Pictures em uma trilogia que incluiria Sicário: Dia do Soldado e um terceiro Sicário (que ainda não recebeu a luz verde).

“Não se falava em sequência quando estávamos gravando o original”, disse Del Toro. “Mas foi uma daquelas coisas em que pensei: por que não? Vamos.”

Dia do Soldado segue Alejandro e o personagem de Brolin, um arrogante buldogue do governo, na missão de incitar uma guerra entre os cartéis de drogas no México. Del Toro e Brolin ancoram o filme - nem Blunt nem Villeneuve retornaram - e foram excepcionalmente incentivados, em colaboração com o novo diretor, Stefano Sollima, a tomar liberdades com o roteiro.

"Taylor é um ótimo escritor, mas nós definitivamente começamos a despedaçar seu texto", disse Brolin.

Cenas foram ampliadas ou descartadas; tramas secundárias e transições foram criadas na hora, e Del Toro, como tem feito ao longo de sua carreira, dotou seu personagem de detalhes vívidos e imaginativos.

“Benny aparecia depois uma noite insone com cinco novas cenas e todas essas ideias: 'E se tentássemos isso? E se entrarmos nisso?'”, lembrou Brolin, que também apareceu brevemente com Del Toro em Vingadores: Guerra Infinita. Quando ele está trabalhando, está realmente dentro do que estamos fazendo. Não é do tipo, "que diálogos eu tenho que decorar, pois depois vou sair para festejar".

As inovações de Del Toro se estenderam aos arcos de outros personagens da história, incluindo um que ajuda Alejandro a sobreviver enquanto foge da polícia. Por sugestão de Del Toro, esse personagem foi reescrito como um homem surdo que se comunica em linguagem de sinais, levando a uma revelação inesperada — também concebida por Del Toro — sobre a história passada de Alejandro.

Em outra ocasião, Del Toro repensou uma cena inicial de execução, decidindo-se por um estilo de tiro rápido e feroz para seu personagem no qual um dedo indicador, virado para baixo, é repetidamente batido contra o gatilho de uma pistola. O resultado marcou tão bem na câmera que foi usado no trailer do filme e se tornou um meme.

“Ele está sempre buscando novas maneiras de expressar a personalidade do personagem”, disse Sollima. "Você olha para o que foi rodado depois de uma filmagem e, de alguma forma, ele inventou essa pessoa completamente diferente.”

Del Toro, que mora em Los Angeles e tem uma filha de 6 anos com Kimberly Stewart, faz uma fusão de seu trabalho de personagem com fragmentos de história pessoal. DJ, o hacker mercenário que ele interpretou em Star Wars: Os Últimos Jedi, tinha uma gagueira característica que Del Toro disse basear-se na de seu pai (fãs, porém, têm teorias sobre seu maior simbolismo). “Costumávamos imitá-lo pelas costas", disse Del Toro, referindo-se a ele e seu irmão, Gustavo, agora médico no Brooklyn.

Seu pai, que ainda mora em Porto Rico, foi uma fonte indireta para a cena de execução em Sicário: Dia do Soldado também. Del Toro teve a ideia para o método de fogo rápido anos atrás, depois de ver alguém usá-lo em um campo de tiro.

“Eu cresci com armas”, disse ele, lembrando-se de atirar em garrafas como alvos com o Del Toro mais velho na fazenda de sua família em Porto Rico. “Meu pai estava no exército e meu avô era policial — eu tinha respeito pelas armas, mas também a compreensão de quão perigosas elas podem ser.”

Del Toro muitas vezes interpretou personagens violentos que atiram para matar, alguns de um lado da guerra contra as drogas outros do outro. Ele é otimista sobre sua reputação — “Humphrey Bogart, Al Pacino e Denzel Washington também interpretaram um monte de vilões”, disse ele — mas se preocuparam com o papel que sua etnia desempenhou na definição de sua carreira.

“É muito difícil quando seu nome termina com um 'O' e seu sobrenome termina com um 'O'", disse ele. "Se você é um ator latino e consegue um emprego em filmes, será como uma espécie de gângster".

Para Del Toro, isso às vezes impõe o desejo de se sobressair como ator contra um impulso recorrente de contestar os estereótipos negativos, uma situação enfrentada por muitos atores de cor. Del Toro disse que decidiu se concentrar apenas se um personagem é bem definido e nos méritos dos cineastas envolvidos.

“Se eu tiver que escolher entre a quebra do estereótipo e ir para a parte boa, eu sempre vou para a parte boa”, disse ele. “Eu acho que a parte boa é sempre mais satisfatória. E eu tenho minha própria vida - posso ter certeza de romper com os estereótipos lá.” / Tradução de Claudia Bozzo

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