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‘Benedict não é um dândi. É um cara normal’, diz ator Alexis Denisof

Intérprete de 'Muito Barulho por Nada' fala ao Caderno 2

Flavia Guerra, O Estado de S. Paulo

27 de agosto de 2013 | 19h28

Estrela de Muito Barulho por Nada, a adaptação mais que cool do diretor Joss Whedon (de Os Vingadores) para a obra homônima de William Shakespeare, Alexis Denisof não é do tipo nostálgico. O ator, que ganhou fama ao protagonizar séries de sucesso na TV como Angel: O Caça-Vampiros, Buffy: A Caça-Vampiros e How I Met Your Mother, interpreta o jovem Benedict, que, apesar de cair de amores pela bela Beatrice (Amy Acker), teima em negar a paixão e resiste bravamente, de preferência arrumando briga com a amada. Em um dos textos mais divertidos e espirituosos do bardo, Denisof faz de seu Benedict um cara normal, “do tipo que a gente conhece e toma uma cerveja no bar, que se torna um homem de fato ao assumir a paixão por Beatrice”.

Muito Barulho por Nada traz para o presente, com frescor, um clássico de Shakespeare. Como você, que estudou na Inglaterra (na London Academy of Arts), onde trabalhou em algumas montagens dos textos do bardo, vê essa adaptação?

Foi muito bom trabalhar nesse projeto. Algumas vezes as pessoas são mais tradicionais, outras mais experimentais, mas esse nosso jeito é uma nova maneira, moderna, de trazer para os dias de hoje um texto tão importante, um bom momento para experimentar e reavivar o interesse dos jovens pela obra shakespeariana. Tudo que vemos de comédia romântica no cinema começou com Muito Barulho.

Sentiu-se intimidado com a responsabilidade?

Há uma preocupação, mas não intimidação. Queríamos encontrar nossa forma autêntica, e orgânica, de interpretar os personagens. Explorar a verdade que há em seus textos, sua observação sempre contundente do amor, do lado engraçado, ou nem tanto, dos relacionamentos.

Salvo algumas adaptações de linguagem, como a fotografia em preto-e-branco, a obra foi mantida, não? Os diálogos são originais, por exemplo.

Sim. O texto original está praticamente intacto o texto. A única coisa que o diretor fez foi cortar um pouquinho a peça original. Isso porque muitos textos de Shakespeare são mais longos do que o público de hoje está acostumado.

Você já encenou outros textos de Shakespeare, como Hamlet. O que acha que é especial sobre este?

Acho que este trata o amor de uma forma muito real e espirituosa. A história de Benedict e Beatrice poderia ocorrer nos dias de hoje. E ocorre. E a história mostra duas pessoas em um caso de amor, mas este caso influencia a vida de toda a família. Sem contar que os diálogos são construídos de uma forma tão rica que é uma delícia poder estar nesta história.

E sobre esta produção?

O mais especial de poder participar deste filme é a combinação dos talentos. Sou amigo do Joss (Whedon, diretor) e da Amy Acker (Beatrice) desde os tempos em que fazíamos Angel. É muito bom poder trabalhar com pessoas que admiro e com quem funciono muito bem junto. Com esta equipe unida, a gente já sabia que algo de bom sairia disso.

Vocês costumavam ler peças de Shakespeare em reuniões na casa de Joss. Foi daí que surgiu a ideia de filmar esta história?

Sim. Como disse, somos amigos de longa data. E nos reuníamos para tomar um vinho, ler peças que amamos. E Muito Barulho foi uma delas. A vontade de filmar era antiga, mas Joss não sabia como filmaria esta história. Até que a tecnologia deixou tudo mais barato, as câmeras estão pequenas e levas, com as quais podemos entrar em qualquer lugar, sem ter de marcar muito a luz, de forma econômica e simples. Então, aconteceu. A gente filmou. Joss começou a montar o material e percebeu que tinha um filme bacana nas mãos. Inscreveu no festival de Toronto, fomos bem e aqui estamos.

Este é mais um filme que prova que não é preciso gastar milhões para se contar uma boa história.

Sim. O cinema entrou em uma fase em que se produzem filmes caríssimos e isso não necessariamente significa qualidade. Se talvez os cineastas gastassem um pouco mais de tempo pensando em histórias boas de serem contadas, em vez de só pensar em efeitos e ação, o cinema ganhasse muito com isso. O público também vai gostar de ver algo assim. Esta, por exemplo, é uma história fantástica contada de uma forma muito engraçada, os atores são ótimos, a direção é bacana. Espero que cada vez mais diretores encontrem seu público. Há espaço para filmes assim no mundo.

E está indo bem de público, principalmente com os jovens.

Sim. Exatamente. O que poderia parecer difícil de entender, uma vez que é um texto clássico escrito há séculos, revela-se muito simples e claro. Os atores o tornam muito natural, nós usamos roupas normais. E os mais jovens estão adorando que eles estão conseguindo não só entender como também curtir um texto de Shakespeare.

A peça é sobre a natureza humana. Universal, não?

Exatamente. Shakespeare retrata a natureza das pessoas apaixonadas. Mostra o quanto podemos ser bobos quando nos apaixonamos.

Como é seu Benedict?

Tentei fazê-lo como um cara real. Ele não é um dândi, que se veste de forma floreada. Quis fazer com que as pessoas se identifiquem com ele, um cara com quem se pode beber uma cerveja. Ele é um cara real, do bem. E ele finalmente se torna maduro, torna-se tudo que pode ser, o melhor de si, quando se apaixona por Beatrice e vive esta paixão. Quando ele se apaixona e se compromete com o que sente por esta mulher, torna-se um homem real e revela quem ele verdadeiramente é. Deixa suas inseguranças e passa a viver mais como um homem real, com as qualidades que ele tem, em vez de esconder seus defeitos. Torna-se mais humano afinal.

Você concorda quando se diz que o melhor da dramaturgia hoje vem da TV?

Sim. A maioria dos grandes escritores e roteiristas foram para a TV, para poder ter um emprego de verdade. E na TV, ao contrário do cinema, onde o diretor é quem manda, é o território do roteirista. É onde quem escreve as histórias tem poder, é respeitado e levado muito a sério. Sem contar que na TV, os roteiristas têm liberdade de criar e inventar. Isso, no final, só pode resultar em coisa boa.

E tudo isso vai parar na internet.

Exatamente. Tudo é visto hoje na internet. A geração atual vê tudo na internet. Isso já é realidade. Temos que aceitar que a dramaturgia mudou para a tela pequena.

Você vê com bons olhos esta revolução?

Sim. Tendemos a ser nostálgicos e achar que o passado era melhor. Mas se pararmos para pensar, nos anos 40, a era de ouro do cinema, havia filmes incríveis sendo feitos, mas havia muita porcaria também. Há muita coisa ruim na internet? Há. Mas, ao menos, é um novo lugar para que artistas de talento possam exibir seus bons trabalhos, ter projeção. A democratização dos meios é uma herança boa que vamos deixar para as futuras gerações.

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