"Bellini e a Esfinge" vence Festival Rio BR 2001

Meio milhão de acessos no site do Festival do Rio BR 2001, mais de 40 mil acessos diários duranteos 12 dias de realização do evento; 326 filmes; 150 mil espectadores, 13 mil a mais do que no ano passado, quando o festival foi mais longo e teve ainda mais filmes. Os números apontam para o sucesso do festival patrocinado pela BRDistribuidora, que terminou segunda-feira à noite, no Cine Odeon BR, no Rio. Garotas-propaganda do colegiado que realiza o festival, Ilda Santiago, do Grupo Estação, e Walkíria Barbosa, do Cima, subiram ao palco para comemorar a vitória. Estavam eufóricas. O festival resistiu a tudo, até à conflagrada situação mundial, que fez com que convidados importantes cancelassem, à última hora, a vinda ao Brasil. Foi o caso dohomenageado de honra do Festival do Rio BR 2001, o diretor italiano Francesco Rosi.Felizes também estavam os vencedores do prêmio decomercialização dado pela BR. O melhor curta, para o público e os críticos, foi Coruja, de Márcia Derraik e Simplício Neto. Ganhou R$ 10 mil e prêmios como a cópia que a Labo Cine doa àCinemateca Brasileira, para preservação da obra, além de latas de filme virgem e horas de revelação em laboratórios especializados. O melhor documentário foi Onde a Terra Acaba de Sérgio Machado, que também ganhou o prêmio da crítica, válido para obras de ficção e documentário. Onde a Terra Acaba ganhou o Prêmio Comercialização da BR: R$ 100 mil.Bellini e a Esfinge, de Roberto Santucci Filho, na categoria ficção, ganhou mais ainda. Além de ter sido o 3º filme mais visto do evento (o primeiro foi Um Casamento à Indiana,de Mira Nair, que ainda não tem distribuição assegurada no País) ganhou o prêmio do público: R$ 200 mil de incentivo à comercialização. Os diretores premiados foram unânimes: uma premiação dessas, com esses valores em dinheiro, faz a diferença na hora de colocar o filme nas salas.Como toda premiação, foi discutível, para dizer-se o mínimo. Coruja, com Bezerra da Silva, é bom, mas havia curtas superiores. Podem ser citados A Canga e Palíndromo, de Philippe Barcinski, que recebeu o prêmio de melhor curta daAssociação Brasileira de Documentaristas e Curta-Metragistas, a ABD-Rio. Bellini se beneficiou da fraca concorrência entre as obras de ficção. E quanto a Onde a Terra Acaba, possuiimagens raras e de qualidade, mas é um tanto ´chapa-branca´ demais na sua abordagem do mito Mário Peixoto, criador de Limite. É um filme feito para vender, para o Brasil e omundo, o gênio que criou um dos filmes mais misteriosos da história do cinema brasileiro. Machado, que dedicou o filme aos dois Walteres, o Carvalho e o Salles, que o incentivaram nacarreira, poderia e até deveria ter sido mais crítico com as contradições de Peixoto. A justificativa dos seus admiradores é que o Brasil ainda está na fase de construir seus mitos, atécomo fator de auto-estima para a definição da identidade nacional.Ousadia - Tudo bem que Onde a Terra Acaba tenha ganho o prêmio do público. O da crítica é mais grave. A crítica, por princípio, deveria ter um compromisso maior com a ousadia. Ese Mário Peixoto foi ousadíssimo em seu tempo, Sérgio Machado é cauteloso até demais no seu profissionalismo bem acabado. Havia documentários melhores. A Negação do Brasil, de Joel ZitoAraújo, promove uma discussão muitíssimo mais interessante, sobre a maneira como a telenovela, essa verdadeira instituição brasileira, trata o negro. Araújo desmonta a balela da democracia racial no País simplesmente mostrando como a novela discrimina e inferioriza o negro. Melhor ainda é A Janela da Alma, de Walter Carvalho e João Jardim. Foi de longe o melhorfilme da representação brasileira no Festival do Rio BR 2001, incluindo os que passaram fora de concurso, um deles o muito bonito Dias de Nietzsche em Turim, de Júlio Bressane.Por falar em ´bonito´, nenhuma sessão foi mais bela que a de domingo à tarde no Cine Odeon BR, que mostrou a versão restaurada de Tudo Azul. O filme metalingüístico de MoacirFenelon, de 1951, foi restaurado pelo Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro, com apoio da BR. Foi um dos filmes que mais atraíram a atenção dos estrangeiros durante o evento. É a provade que o mito de Fenelon e de Tudo Azul já ultrapassou as fronteiras do País. Só falta agora os brasileiros descobrirem o mais engajado e social dos musicais nacionais nos anos de ouroda chanchada. Marlene, Luiz Delfino, Virginia Lane, Jorge Goulart subiram ao palco para receber a ovação do público. Durante a projeção, os números musicais foram aplaudidos em cenaaberta.Marlene canta Lata d´Água na Cabeça e as imagens do morro antecipam o que Nelson Pereira dos Santos mostraria, a seguir, no seu clássico Rio 40 Graus. Virginia Lane canta Sassaricando e aqui é preciso abrir um parêntese. Virginia, a chamada vedete do Brasil, idolatrada por Getúlio Vargas, foi a nossa Marlene Dietrich, no sentido de que teve as mais lindas pernas do País. Teve, não. Tem. Virginia, octogenária mas muito animada, ameaçou tirar a pantalona para exibir as pernas que, segundo ela, ainda dão "uma meia-sola legal".O presidente da BR, Júlio Duarte, vestindo jeans, muito à vontade, subiu ao palco para dizer que tinha pensado em não prestigiar a exibição, afinal, havia jogo da seleção brasileiranaquela tarde - mas ele não podia deixar de estar presente na sessão de resgate de um clássico, ainda mais que a restauração foi patrocinada pela empresa que preside. O público quase veioabaixo, com muitos aplausos espontâneos, pela maneira descontraída (a própria encarnação do jeito carioca de ser), como ele, ainda bastante jovem, disse que não poderia ficar sem conferir as famosas decantadas pernas de Virginia Lane.Os aplausos também foram retumbantes quando, no meio do filme, a estrela Dalva entra em cena, acompanhada por integrantes da Escola de Samba Império Serrano, para cantar A Estrela do Mar. Dalva é, com certeza, uma das maiores cantoras brasileiras. Freqüenta o clube reduzido das vozes iluminadas que se podem contar nos dedos de uma mão.Houve programas para todos os gostos. O melhor filme europeu do Festival do Rio BR 2001, escolhido por voto popular na Internet, foi Intimidade, de Patrice Chéreau. Ainda ocinema europeu brilhou no extraordinário documentário de Martin Scorsese, Minha Viagem à Itália. Essa viagem ao mesmo tempo afetiva e crítica põe na tela imagens inesquecíveis do cinema italiano. O filme, ainda incompleto - o próprio Scorsese anuncia que a terceira parte ainda está sendo feita -, foi comprado pelaMiramax para distribuição internacional. Já é preciso pressionar a Lumire para que traga esse tributo deslumbrante ao País.E o bom é que haverá resquícios do Festival do Rio BR 2001 para o público paulistano. Na sexta, o Grupo Estação exibe nos seus cinemas, em São Paulo, a retrospectiva completa de Francesco Rosi, incluindo o genial O Bandido Giuliano e os inéditos do grande diretor no Brasil: As Mãos sobre a Cidade, Homens Contra e Cristo Parou em Eboli. O cinema documentado de Rosi é essencialmente político. No outro extremo, também chega a São Paulo, na sexta, a retrospectiva da Troma,que lotou as salas do festival no Rio. A Troma é conhecida por seus filmes trash que viraram cults. A Camisinha Assassina, Tromeu e Julieta. São Paulo é capaz de ter mais público para Rosi, mas a Troma é programa a ser conferido. Não se pode dizer ´degustado´, porque aí o risco é de congestão.

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