"Bellini e a Esfinge" é policial à brasileira

No material de Bellini e aEsfinge distribuído à imprensa há até um mapinha de São Pauloassinalando os locais onde as cenas acontecem, o Parque Trianon,a boate na Rua Nestor Pestana, o Pacaembu, Largo do Arouche,Praça da República, etc. O longa-metragem, dirigido por RobertoSantucci Filho a partir do livro do titã Tony Bellotto, procuraisso mesmo, um certo cheiro de rua, algum tipo de contaminaçãodo real para, justamente, evitar a assepsia social queesteriliza o filme policial à brasileira.Policial? Sim, há em Bellini a costumeira históriaenrolada de um crime, ou vários deles, que o detetive tentaresolver. Fábio Assumpção faz o papel-título e é contratado porum médico para encontrar uma garota de programas quedesapareceu. Bellini vai à boate Cocktail, onde a moça costumavaexercer o métier. Lá, conhece outra profissional, a incrívelFátima (Malu Mader), que terá papel importante durante ainvestigação. Pelas tantas, o médico que havia encomendado ainvestigação aparece morto, assassinado. E o caso se complica,complica e complica.Dizem que Bellotto é leitor de Dashiell Hammett, RaymondChandler e outros autores do gênero. Seu texto, aparentemente, éconstruído segundo esse padrão. Ninguém pode confiar em ninguém,nada é aquilo que parece, as surpresas estão em cada quebrada davida. É preciso haver uma reviravolta a cada 15 minutos dahistória. Tudo bem, isso é filme de gênero e não custa nadarespeitar regras. Mesmo quando se trata de um gênero que existe,de fato, pela quebra de certas regras.O lugar do filme policial, do noir, é aquela travessa domundo onde a sociedade falha. É o resto, o lugar não assimiladopelo mundo burguês, seguro e previsível. Por isso é muitonatural que Bellini ande pela noite paulistana, porque é nanoite mesmo, com o perdão do clichê, que todos os gatos sãopardos, uma sombra pode anunciar a chegada de uma companhiaagradável ou de um bandido com arma na mão.Falta, é verdade, um tanto de coerência à história,porque em tese um filme de detetive deve trabalhar com a lógica.Ou, pelo menos, a lógica deve prevalecer no final, quando tudoficar esclarecido. Quem dirigiu Bellini e a Esfinge, noentanto, se esqueceu que um novelo deve ser enrolado e depoisdesfeito.Não vale deixar o espectador pasmo, desconfiado de que éburro ou então que a história tem mais buracos que as ruas deSão Paulo. Certo, levados ao limite, filmes como RelíquiaMacabra (vulgo Falcão Maltês), À Beira do Abismo ouChinatown são literalmente incompreensíveis. O Homem Quenão Estava lá, de Joel Coen, que entra amanhã em cartaz,desenvolve essa mesma idéia, a de que alguém metido em certasituação não é capaz de enxergar todos os dados do problema aomesmo tempo. Aplicação do Princípio da Incerteza de Heisenbergao mundo do crime.Essa dose de incompreensão é acompanhada, nos grandesfilmes, por um trabalho muito grande com o clima da história. Oque não se entende é compensado pelo mood, pelo trabalho com oambiente e o quadro onde a trama acontece. Bellini e aEsfinge insinua alguma coisa nesse sentido. Não chega lá, nemde longe.Bellini e a Esfinge. Ação. Direção de RobertoSantucci. Br/2001. Duração: 117 minutos. 16 anos.

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