"Beleza Americana" e "Magnólia" em vídeo

Se o Oscar fosse honesto... Quantas vezes você já não leu (ou ouviu) isso? Pois vai ler de novo. Se o Oscar fosse honesto, Beleza Americana não teria recebido a consagração que obteve na premiação deste ano. O filme do estreante Sam Mendes não merece metade do sucesso de crítica que fez nos EUA. Certamente não merece a enxurrada de prêmios que obteve da academia, principalmente os de melhor filme e direção. Em contrapartida, Magnólia mereceria muito mais do que alcançou. Mereceria até, ou principalmente, Oscar de coajuvante para Tom Cruise. É o que você poderá confirmar agora que os dois filmes estão chegando às locadoras.Na sua edição de junho, a revista francesa Cahiers du Cinéma publica um dicionário de atores americanos. Relaciona cem deles. Um dos verbetes, e um dos mais elogiosos, é dedicado a Cruise. Cahiers está certa. Podia-se rir de Cruise, ou achar que ele era apenas mais um ídolo teen quando fez Ases Indomáveis e Coquetel, mas hoje a situação mudou e o astro mais poderoso de Hollywood também é o homem que trabalhou com Stanley Kubrick, Brian De Palma, John Woo e Paul Thomas Anderson. Qualquer um deles, menos Kubrick, que morreu, assinaria embaixo de qualquer reflexão elogiosa a Cruise. Tem sido um batalhador para garantir autonomia artística aos diretores com quem tem trabalhado. E ousa. Ficar dois anos à disposição de Kubrick foi uma ousadia. Cruise não mediu as conseqüências que isso poderia ter para sua carreira comercial. Pensou de forma mais ambiciosa, artisticamente.Cruise faz um dos personagens principais do vasto painel montado por Anderson. O Mangólia do título, embora o cartaz ostente a flor, refere-se à rua famosa do Vale de San Fernando. O filme não deixa de ser um Short Cuts. Cenas da vida americana. Diversas histórias (e vidas) que se entrelaçam e cocluem num fim insólitro. Ao terremoto do filme de Robert Altman segue-se aqui uma chuva inusitada, que é bom não dizer qual seja para não tirar a surpresa de quem vê o filme pela primeira vez (e embora a tal chuva tenha sido descrita com minúcias quando Magnólia estreou nos cinemas). O que isso significa é fonte permanente de indação, perplexidade e até polêmica.Soltando a câmera - É um filme incômodo, tomando-se a palavra no sentido do elogio. Anderson não filma para divertir o público, proporcionando duas horas de sessão num shopping, regadas a refri e pipocas. É um artista e, como tal, deve ser encarado. Depois do painel sobre o universo da pornografia de Boggie Nights - Prazer sem Limites, ele monta outro painel, soltando sua câmera entre diversos personagens. É nesse soltar da câmera que se assemelha a Altman, tendo de ressaltar que o próprio Altman, ao adotar o procedimento, bebeu na fonte do Luis Buñuel de O Discreto Charme da Burguesia. Em arte, cria-se, mas também tudo se recria. A recriação de Anderson é brilhante.São várias histórias, relatando dramas familiares e psicológicos. Cruise faz um guru da auto-ajuda especializado em sedução feminina. É agressivamente misógino, mas isso é só uma fachada para a insegurança do adulto que não superou o trauma infantil de ter visto a mãe morrer de câncer (e abandonada pelo pai). Agora, é seu pai quem está morrendo, também de câncer. O círculo dos personagens amplia-se bastante, pois eles chegam ao número de 30. Há a nova mulher do pai, o enfermeiro que trata dele, a filha viciada em drogas, o policial que se apaixona por ela, um garoto prodígio que participa de um quiz show, um ex-garoto prodígio (e agora um velho e amargurado homossexual) que também já participou de um quiz show. Todas essas vidas, e outras, vão se entrelaçando de forma a compor o comentário de Anderson sobre a sociedade americana contemporânea.É um belíssimo filme, e ousado, do ponto de vista da linguagem. Não apenas a chuva particular do desfecho, mas também uma canção unindo os protagonistas em montagem paralela, desconcertaram os críticos americanos. A respeitável Janet Maslin, do The New York Times, escreveu uma dessas bobagens que as pessoas tendem a levar a sério. Disse que esses recursos fazem desandar o que começou brilhantemente. Janet não entendeu nada. Ela engrossou o coro dos apaixonados por Beleza Americana. O filme é um compêndio de clichês e banalidades disfarçadas como cinema de arte. Um Nélson Rodrigues à americana e sem uma mínima fração da carga explosiva do dramaturgo brasileiro.Kevin Spacey, que ganhou o Oscar, é um ator competente, embora, eventualmente, seja também maneirista. Faz um pai de família frustrado que se apaixona pela coleguinha da filha. Essa se envolve com o vizinho, um rapaz cujo pai é um militar durão que mal consegue conter suas pulsões homossexuais. E por aí vai. Não é que Beleza Americana seja desprezível. Pode-se entender, se não apoiar, o Oscar de fotografia (para Conrad Hall), o de ator (para Spacey), mas os de melhor filme e direção? A consagração foi exagerada. O filme não é tudo isso. Ou, melhor, não é nada disso. Já Magnólia é ainda melhor do que Boogie Nights. Anderson promete ir longe em Hollywood.Beleza Americana (American Beauty). EUA, 1999. Direção de Sam Mendes. CIC. Cor, 122 min. Nas locadoras, na próxima semana. Magnólia (Magnolia). EUA, 1999. Direção de Paul Thomas Anderson. PlayArte. Cor, 180 min. Já nas locadora

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