Belas Artes leva três filmes de Kubrick de volta ao cinema

Primeiro 'Noitão' promovido pelo espaço após a reinauguração, no mês passado, ocorre nesta sexta-feira, 15; veja trailers

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

15 de agosto de 2014 | 09h30

Foi sempre um sonho de cinéfilo. O Noitão do antigo Belas Artes, reunindo filmes por autores, gêneros ou temas, exerceu um importante papel na formação de plateias. E o Noitão volta nesta sexta-feira, 15, no novo Belas Artes, com a mesma preocupação de oferecer uma programação não apenas de qualidade, mas também capaz de refletir sobre questões estéticas e éticas. Nada como o tempo. No começo dos anos 1970, organizavam-se caravanas no Rio Grande do Sul para ver, no vizinho Uruguai, Laranja Mecânica, que Kubrick havia adaptado do livro de Anthony Burgess. O filme era subversivo, segundo a censura dos militares. Quando foi liberado, o decoro dos repressores exigiu que fosse colocado nas telas com bolinhas pretas ocultando a genitália dos atores. As bolinhas ficavam, ridiculamente, saltando na tela.

Hoje, você vê Laranja Mecânica a toda hora na televisão (paga), em DVD ou Blu-ray. Laranja Mecânica/A Clockwork Orange é um dos filmes que integram o Noitão Kubrick desta sexta-feira no Cine Caixa Belas Artes (Rua da Consolação, 2423). Os outros dois filmes são Nascido Para Matar/Full Metal Jacket e De Olhos bem Fechados/Eyes Wide Shut, outra adaptação, da Traumnovelle de Arthur Schnitzler - o livro foi lançado no Brasil como Breve Romance do Sonho.

Kubrick já era objeto de um culto, ao morrer, há 15 anos, em março de 1999. Tinha 70 anos. Nasceu em julho de 1928 nos EUA, mas desde o começo dos 60 se exilara na Inglaterra. Desde a morte, o culto só tem crescido. De Olhos bem Fechados, que terminou sendo seu último filme - ele ia fazer, a seguir, A.I. Inteligência Artificial, filmado por Steven Spielberg - havia sido considerado decepcionante pelo público e parte dos críticos. Com o tempo, passou a ser dissecado por seus códigos velados, integrando o panteão kubrickiano.

Todo mundo imaginava que, ao convocar Tom Cruise e Nicole Kidman – o casal mais notável de Hollywood, na época –, Kubrick fosse brindar o público com cenas calientes, em sua anatomia de um casamento. É filme mais frio e distanciado do autor. O sexo vira coito interrompido. Um marido surta ao ouvir da mulher que ela quase o traiu com um estranho que despertou sua libido. Kubrick usa a história para discutir a natureza do desejo. A cena polêmica é quando o marido participa de uma sessão numa sociedade secreta. A versão corrente é que Kubrick, tendo perdido uma filha para a lavagem cerebral da Cientologia, convocou Tom Cruise, garoto-propaganda das crenças e práticas criadas por I. Ron Hubbard, para denunciá-las, de dentro. Ele encheu o filme de signos, que também são maçônicos. Significam muito, ou não significam nada. Depende do olhar de quem olha, e se a pessoa vê.

O tema do olho é recorrente na obra de Kubrick. O olho de Hal 9000 em 2001 - Uma Odisseia no Espaço, o de Alex/Malcolm McDowell, que não pode se fechar em Laranja Mecânica. E existe o olhar enigmático, somado ao sorriso sardônico, que compõe a loucura de Jack Nicholson em O Iluminado, que ele adaptou de Stephen King. Todos esses filmes são permeados de símbolos. Há uma conspiração rondando o cinema de Kubrick? Há uma teoria segundo a qual ele teria encenado a descida do homem na Lua para a NASA, no contexto da disputa geopolítica (e ideológica) entre as superpotências, nos anos 1960. Proibido de falar, passou a usar símbolos para denunciar, nos próprios filmes, a conspiração.

De Olhos Bem Fechados é fascinante, mas como a revisão da guerra de Nascido para Matar e a antecipação futurista de Laranja Mecânica, o que esses três filmes do Noitão revelam, mais que o tema do olho, é o outro tema, 100% kubrickiano. A dissolução da palavra como elo que une os homens e estrutura o tecido social. Aqueles soldados não dizem obscenidades por acaso. Kubrick divide Nascido para Matar em duas partes - o treinamento militar e o combate, com a surpreendente revelação da identidade do atirador solitário. Grandes filmes já haviam sido feitos sobre a Guerra do Vietnão, incluindo o delirante Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola. Kubrick já dirigira um clássico de guerra - Glória Feita de Sangue, com Kirk Douglas, nos anos 1950. Ele recriou sua guerra do Sudeste Asiático num hangar na Inglaterra, por meio de uma prodigiosa direção de arte e uma fortíssima direção de cena. Kubrick, quando lhe perguntavam o que é o cinema, respondia sempre - montagem. Tente olhar seus três filmes desta sexta-feira por esse ângulo, e as surpresas serão muitas.

NOITÃO - STANLEY KUBRICK

Cine Caixa Belas Artes. Rua da Consolação, 2423, Consolação, São Paulo. 23h30. Ingresso: R$ 30 (R$ 15 a meia entrada).

Veja os trailers

De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut, 1999):

Nascido Para Matar (Full Metal Jacket, 1987):

Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1971):

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