Belas Artes: de volta para o futuro

Depois de seis meses de negociação, o grupo carioca Estação Botafogo acaba de anunciar que assumiu o controle das seis salas do tradicional cine Belas Artes, na Rua da Consolação, esquina com a Avenida Paulista, e também das duas salas do cine Alvorada, na Rua Augusta. A idéia é fazer uma reforma radical e deixar os dois cinemas com cara de primeiro mundo. ?Adquirimos 50% dos dois cinemas junto ao Grupo Alvorada, e também o direito de controlar a programação?, explica Marcelo Mendes, um dos sócios do Estação.A compra veio em boa hora. O cine Belas Artes caminhava a passos largos para igualar-se aos piores pulgueiros do Centro de São Paulo. O velho sistema de ar-condicionado raramente dá o ar da graça, o som é ruim, as poltronas estão velhas (há muitas quebradas) e as salas mais baixas cheiram a mofo. ?Vamos mudar tudo, das poltronas e carpete até o ar, tela e projetores. E cinema, terá o que há de mais moderno?, garante Mendes.A reforma do Belas Artes terá um custo de R$ 4 milhões e, dependendo de aprovação da Prefeitura, incluirá um elevador panorâmico para facilitar o acesso às salas de cima e de baixo. ?Atualmente, o acesso e a sinalização das salas são confusos. O cliente compra o bilhete e fica procurando as salas, tendo, em algumas, de subir ou descer até dois lances de escadas.? O elevador terá capacidade para 20 ou 30 pessoas.O Estação Botafogo é conhecido por investir em filmes de arte e a compra do Belas Artes é o passo mais importante na tentativa de consolidar-se na capital paulistana. ?Temos 15 salas no Rio e, até agora, tínhamos apenas duas em São Paulo, no Top Cine, que fica no outro extremo da Paulista?, explica Mendes. ?Assim, depois de exibir nossos pacotes de filmes no Rio, praticamente não tínhamos onde fazer os festivais de clássicos e pequenos ciclos de cineastas contemporâneos, aos quais os cinéfilos do Rio já estão acostumados.?A mudança na programação é um resgate do Belas Artes, que voltará a seus tempos de glória. Nos anos 80, quando pertencia ao grupo Gaumont, o cinema era moderno e chegou a ser importante pólo cultural, em filmes de arte. Inexplicavelmente, nos anos 90 a programação mudou. Dos clássicos, passou ao cinema-pipoca, com filmes como Matrix, O Patriota e outros.O crescimento das salas de shopping-centers foi gradativamente empurrando o Belas Artes para a decadência A primeira reforma será a do cine Belas Artes, que começará em novembro e, se não houver atrasos, o cinema será inaugurado em fevereiro. ?Desde ontem (sexta-feira) assumimos a programação e vamos deixá-la mais adequada ao perfil do Estação.? Marcelo garante que filmes como Jurassic Park - 3 não terão lugar. ?Jurassic só não saiu porque tinha acabado de entrar, e há questões contratuais.? Por coincidência, o filme combina com o atual estado do Belas Artes, que parece um cinema pré-histórico.Troca de Nome - A nova reforma do cine Belas Artes, que deverá durar de novembro a fevereiro do ano que vem, transformará o cinema num dos mais modernos do Brasil. É a terceira vez que o prédio fecha para obras, desde que foi inaugurado, em 1967, pela Companhia Serrador, em parceria com a Sociedade Amigos da Cinemateca. Na época, ele dispunha de apenas uma grande sala, sempre exibindo filmes de arte, que não encontravam espaço nos cinema comuns.Em 1971, a reforma dividiu o prédio em duas salas, que passaram a se chamar Portinari e Villa-Lobos. No subsolo funcionava a sede da Cinemateca. Posteriormente, ela foi desativada e o lugar passou a abrigar a sala Mário de Andrade. Em 1982, nova reforma, desta vez forçada por um incêndio criminoso, que praticamente destruiu o prédio. Na época, manchete do Jornal da Tarde já dava dimensão da importância do Belas Artes para a cidade: ?Duas horas e meia de fogo. Está destruído nosso mais importante cinema de arte?. A perícia constatou que o fogo teve início quando, em maio, assaltantes arrombaram uma porta e largaram aceso um maçarico usado para abrir o cofre. Em junho de 1983, já sob o controle da francesa Gaumont, o Belas Artes reabriu, desta vez com seis salas, formato que mantém até hoje e não deverá ser alterado pelo Grupo Estação.Quando reabrir, ele já estará com o novo nome: Estação Belas Artes. A programação será composta por filmes independentes, de várias nacionalidades, clássicos e também muitos brasileiros. Será outra opção no já concorridíssimo mercado de ?filmes cabeça?, que conta com o Cinesesc, da Rua Augusta; Cinemateca, no Ibirapuera, Recriarte Bijou, na Praça Roosevelt, Espaço Unibanco e Cineclube Vitrine, ambos também na ugusta, Sala UOL, na Fradique Coutinho e Cinearte, na Paulista.Esse mercado é o que mais cresce no eixo Rio-São Paulo. O público cinéfilo vem revelando-se um assíduo devorador de filmes e os donos dessas salas não têm do que se queixar. A prova é que na sexta-feira serão inauguradas mais nove modernas salas, no Unibanco Arteplex, do novo Shopping Frei Caneca, próximo à Rua Peixoto Gomide. O Arteplex custou a seus proprietários, Adhemar Oliveira e Leon Cakoff, R$ 7 milhões.Como esse público é exigente e de alto nível, as salas não podem ficar para trás e é por isso que o investimento na reforma do Belas Artes é tão alto. ?Nesse mercado, quem não oferece qualidade corre o risco de ficar às moscas?, garante Marcelo Mendes, do Grupo Estação. Ou seja, vai longe o tempo dos cineclubes exibindo cópias riscadas em salas caindo aos pedaços.Por conta disso, o Cinesesc, um dos mais antigos da cidade, passou recentemente por ampla reforma e hoje tem um dos melhores conjuntos de som e imagem da cidade. O mesmo aconteceu na Sala UOL, em Pinheiros, que, além de ter um conjunto semelhante ao do Cinesesc, ainda conta com poltronas tão confortáveis que, num filme lento como os iranianos, por exemplo, o maior risco do espectador é ser acordado pelos faxineiros, com o cinema já fechado. Os cinemas dos shoppings centers mais novos já perceberam isso e, mesmo exibindo filmes-pipoca, também oferecem salas cada vez mais confortáveis.

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