Bela surpresa, 'Guardiões da Galáxia' é o blockbuster do ano

Filme de James Gunn é grande aventura com amizade, efeitos, diversão e romance; estreia é nesta quinta-feira, 31

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

31 de julho de 2014 | 02h00

Para início de conversa, eles não são super-heróis. Ninguém tem superpoderes e o grupo é o mais bizarro já reunido numa aventura intergaláctica desde que, na série Star Wars, Luke, Han Solo, Chewbacca, a dupla de robôs e Yoda nos ensinaram - seguindo as palavras do último - que é possível mover o mundo só com a imaginação. O que JJ Abrams vai fazer na nova trilogia iniciada há quase 40 anos por George Lucas? Terá quer ser algo muito criativo e original, se quiser ser tão bom - melhor, parece impossível - quanto o James Gunn de Guardiões da Galáxia. É o melhor blockbuster do ano, em muitos anos.

Pode-se gostar do Superman de Zach Snyder, por exemplo, mas é um personagem trágico - a cena final foi a mais bela do ano passado - e há um desequilíbrio entre o intimismo e o inevitável clímax violento, com a destruição da cidade (presente em todos esses filmes). O caso de Snyder é emblemático. James Gunn escreveu para ele Madrugada dos Mortos. Ele também foi roteirista da série Scooby-Doo e dirigiu Slither, que foi um megafracasso de público. Algo se passa agora quando Gunn assina o melhor e mais charmoso filme da Marvel desde... sempre? 

Um aventureiro que cata sucata pelo universo é o aglutinador do grupo. A cena inicial nos revela a origem desse Peter Quill. Sua mãe está morrendo, ele se isola com seu fone de ouvido no mundo da música pop dos anos 1970. Uma mão lhe é estendida, ele não atende o pedido. Outra mão lhe será estendida no fim e desta vez... Veja. Quill carrega o presente que nunca teve coragem de abrir, seu amuleto para os dias ruins que virão. Os que chegam com ele são um guaxinim, uma árvore humanoide e mais dois renegados. O destruidor que quer vingar a morte da mulher e da filha; e a garota que quer se afastar do vilão Ronan, e por isso o trai, fugindo com uma pedra com incrível poder de destruição.

Nada de superpoderes, mas astúcia, inteligência e capacidade de improvisação. Na hora H, quando tudo está perdido, Quill faz seu discurso. Eles são losers, perdedores, no sentido de que cada um perdeu algo importante. Será como um team, um time, uma unidade, que nossos amigos vão virar o jogo. 

Humor. O eventual problema dos super-heróis é que se levam demasiado a sério. Nada como o humor que caracteriza o grupo de Guardiões da Galáxia. A árvore humanoide - “interpretada” por Vin Diesel - repete uma frase, I'm Groot. É todo seu vocabulário, mas a modulação da voz insinua diferenças que Rocket, o guaxinim, vivido por Bradley Cooper, capta - e lá pelas tantas o “Eu sou Groot” vira “Nós somos”.

Fisicamente, o guaxinim assemelha-se ao sr. Raposo de Wes Anderson, arremessado numa aventura no espaço. E Zoe Saldana, a garota, também usa sua máscara, como... Bautista, o destruidor Drax. De perto, ninguém é normal. Com certeza, não. Mas como se faz um grande filme de ação com essa gente que precisa se unir e aprender a confiar? O segredo de James Gunn é que o filme dele engloba tudo. É sério e é paródico, tem ação e efeitos, humor, amizade, romance, sacrifício, traição. É uma aventura e uma sucessão de dramas familiares. Para que querer mais que uma aventura, se ela carrega uma visão do mundo, do homem e do próprio cinema?

Um pensador como André Bazin, cujo livro - na verdade, uma reunião de escritos, O Que É o Cinema? - acaba de sair no Brasil com um atraso de quase 60 anos, baseia-se no caráter objetivo da imagem para nos fazer crer que o cinema, derivado da fotografia, é um meio realista. Voltamos aos primórdios. Os irmãos Lumière e a chegada do trem à estação. Georges Méliès, o mágico, e a viagem à Lua. O cinema é, ou pode ser, realista, mas não só. É mágico, também. E a magia também nos desvenda o mistério do homem, mesmo que seja um guaxinim chorando com um broto de árvore na mão. Chris Pratt, como Quill, faz o mais humano e cativante dos heróis (não super). E ah, sim, fique até o fim dos créditos, porque tem uma coisa importante, confirmando que eles vão voltar.

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