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Beijos são marcas registradas nos clássicos de Hollywood

No cinema essa forma de demonstrar carinho se tornou essencial

A. O. Scott - THE NEW YORK TIMES , O Estado de S. Paulo

02 Janeiro 2015 | 03h00

Quem foi seu primeiro beijo? Não o beijo físico, real - isso não é da minha conta -, mas a reunião atestada de duas bocas na tela? Foram os cachorros dando um selinho em A Dama e o Vagabundo, seus lábios unidos casualmente por um fio de spaghetti? Jack e Rose na sala das caldeiras do Titanic? Jack e Ennis em Brokeback Mountain? Cher e Nicolas Cage em Feitiço da Lua? Ou foi um ósculo mais canônico, mais antigo, da era em que o beijo era o máximo a que um casal podia chegar na tela, com ou sem o privilégio do clero? Bogey e Bergman em Casablanca? Bergman e Cary Grant em Interlúdio? Grant e Eva Marie Saint, ou Grace Kelly, ou Katherine Hepburn? Você o considerou rude? Chato? Sexy? Romântico? Ele se intrometeu no curso da ação ou era a ação que você queria ver? Você aprendeu alguma coisa sobre seus próprios desejos ou suas técnicas para realizá-los? Foi levado a reproduzir o que viu na tela, talvez com a pessoa ao seu lado no escuro? Conseguiu continuar assistindo ao filme? 

São questões de peso, e com algumas variações, elas têm perseguido cada geração de frequentadores de cinema e navegadores em canais de TV desde os tempos do Nickelodeon. O cinema pode não ter inventado o beijo, mas suspeito que, ao longo do século 20, os filmes o tornaram mais essencial. O inegável é que o cinema - o cinema de Hollywood, em especial, mas não exclusivamente - tornou o beijo visível. Ele estabeleceu uma iconografia glamourosa e uma coreografia elegante para uma experiência que, na vida real, é muitas vezes estabanada, canhestra e menos do que perfeitamente graciosa. 

O que é parte da diversão, é claro. Mas uma coisa que os beijos reais sempre são para as pessoas engajadas neles é invisíveis. O que você verá, se por alguma razão mantiver os olhos abertos, pode ser a ponta borrada de um nariz (o seu? o dele? o dela?), um cacho de cabelo desmanchado, um pedaço de teto, calçada ou painel de carro. Mas a câmera de cinema tem o misterioso poder de revelar intimidades invisíveis, enquadrar e diagramar o que, sem isso, nós conhecemos como uma sensação de frenesi. 

 

Em outras palavras, seja o beijo o que for, para diretores de cinema ele é, antes de tudo, um desafio formal. A câmera adora o rosto humano. 

A apoteose da arte cinematográfica, o ponto em que foi dito (por críticos mais sábios do que eu) que ela se aproximou da condição de santidade, é o close-up, que dota um rosto individual de dignidade estética e gravidade ontológica. Os grandes astros de cinema não são necessariamente os atores mais talentosos, ou mesmo os seres humanos de melhor aparência, mas aqueles cujos olhos, bocas e maçãs do rosto prendem a atenção quando apresentados em duas dimensões. Sua magia está em sua singularidade. 

Quando ocorre o beijo e seus rostos desaparecem, nós não estamos assistindo apenas ao que acontece: estamos também no seu interior. 

Um beijo ainda é um beijo. Mas um beijo de cinema nunca é apenas uma questão formal, um problema de planos, sombras e cortes. Um beijo é carregado de significado, com um poder curioso e contraditório explicado, quase no exato momento em que Thomas Edison estava fazendo suas filmagens pioneiras, por outro inventor da consciência moderna, Sigmund Freud. Se Edison, simultaneamente com os irmãos Lumière na França, inventou o mecanismo do sonho coletivo, Freud escreveu o manual de instrução. É bem verdade que o beijo ocupa menos espaço em seu corpus do que nos anais de Hollywood; suas teorias da sexualidade foram centradas em lugares - os genitais, o inconsciente - onde a câmera de cinema ainda estava relutante e despreparada para entrar. 

Hoje, quando um vídeo de qualquer ato sexual imaginável está a algumas palavras de busca de distância na internet, nós às vezes olhamos para os filmes de antigamente como artefatos de um tempo mais repressivo e inocente. Mas pode ser mais preciso considerá-los a força que fez de todos nós pervertidos, contrabandeando ilegalmente todas aquelas outras coisas com insinuações suaves e inócuas. Os hipócritas que escreveram o Código de Produção (também conhecido como Código Hays) que imperou na licenciosidade incipiente de Hollywood no começo da era sonora eram igualmente suspeitos. Cientes de que poderiam não controlar cada imagem e cenário, eles ordenaram que um “cuidado especial fosse tomado” em algumas áreas sensíveis, incluindo “beijos excessivos ou libidinosos, particularmente quando um personagem ou o outro é um ‘importante’”. Mas a luxúria e o excesso estão no olho do espectador, e o público é perfeitamente capaz de projetar na tela muito mais do que o feixe de luz que passa pelo nitrato. Um beijo não é apenas o significante casto de outros prazeres mais travessos - ou de relações maritais para procriação socialmente sancionadas. É uma droga de iniciação em outras mais pesadas, prova literal de que as repreensões sempre foram justificadas. 

O beijo heterossexual pode ter representado, por Hollywood ao menos, a totalidade da sexualidade humana, mas ele também marcou aquele momento irresistível em que a simulação cinematográfica se tornou literal. Todos sabiam que tudo na tela era, em certa medida, falso. A rua da cidade era um cenário montado no terreno de um estúdio. O cowboy era um dublê. As balas eram de festim. O monstro esmagador de carros tinha 45 centímetros de altura. 

Mas o homem e a mulher estavam realmente se beijando. Eles podiam se odiar e detestar os hálitos um do outro - ou, aliás, podiam ter dormido com os cônjuges um do outro, ou um com o outro, ou com o diretor. Mas o beijo entre eles não era nada mais que a verdade. 

E como tal, o beijo cinematográfico está aberto a uma interpretação interminável. Faça um giro pelos beijos famosos dos clássicos de Hollywood e você se encontrará numa densa floresta de semiótica sexual. Hollywood operou sob restrições próprias. Há um beijo apaixonado entre homens - envolvendo Gary Cooper - em Asas, o melodrama de aviador da 1ª Guerra Mundial que ganhou o primeiro Oscar de Melhor Filme em 1927. 

Três anos depois, em Marrocos, Marlene Dietrich, usando um smoking e cartola, beijou uma mulher enquanto cantava Quand L’Amour Meurt (Quando morre o amor) para um público de boate que incluía Cooper. Mas eram tempos antes do código, e beijos do mesmo sexo praticamente desapareceriam até os anos 70. O primeiro beijo inter-racial chegou em 1958, em Ilha ao Sol, incitando protestos e cancelamento de reservas no Sul. A miscigenação havia sido explicitamente banida pelo Código de Produção, e Hollywood permaneceu hesitante nesse quesito até recentemente. 

E o beijo, por sua vez, sacrificou sua singularidade, perdeu sua perversidade gloriosa. Outros tipos de sexo - os tipos envolvendo genitais - já não precisavam ser implícitos. Eles podem ser, como tudo na tela, falsos. Os atores, literalmente nus ou estrategicamente não totalmente nus, podem se arranjar em posturas que sugerem o ato real e podem fazer os ruídos apropriados, com ou sem música de fundo. O sexo na tela passou por vários estágios de explicitação e estilização ao longo dos anos. Algumas vezes - como em Último Tango em Paris ou Azul é a Cor Mais Quente - ele pareceu chocante, ousado, ou importante. 

Beijos também podem ser clichês - na chuva, num avião, num barco, num trem - mas eles ainda seduzem. Quando dois personagens num filme se beijam, significa que eles pararam de conversar, e que a emoção entre eles requer outra forma de comunicação. Isto é inerentemente poderoso, quer o encontro de lábios seja um ato de agressão - pense em Michael Corleone beijando na boca seu irmão traidor Fredo na véspera de ano novo em Havana, um beijo da morte fratricida - ou de ternura. 

Ou outra coisa. Um dos beijos mais sugestivos que eu vi na tela este ano foi em Livre, adaptação de Jean-Marc Vallée das memórias de Cheryl Strayed. No filme, vemos Strayed, interpretada por Reese Whiterspoon, em encontros sexuais casuais que ocorrem enquanto ela ainda está casada com o seu marido, Paul. Nunca vemos os dois na cama, e o único intercâmbio fisicamente íntimo que testemunhamos ocorre depois que seus papéis de divórcio foram assinados. É um beijo de adeus, quente e completo, do tipo que poderia sinalizar, num filme diferente, o início de uma relação sexual, e não seu fim. Para nós, ele parece um primeiro beijo, e por essa razão carrega uma carga agridoce de caso romântico inacabado e inconclusivo. Ele também sublinha os temas de perda, solidão, intimidade e autossuficiência do filme. 

São esses também, se poderia dizer, os temas de Boyhood, a história desbravadora sobre a passagem para a idade adulta, de Richard Linklater, que inclui um adorável beijo na tela do garoto protagonista, Mason, e seu primeiro amor. Mas o grande beijo desse filme é um que não se vê, e um que pode nem sequer acontecer. Na tomada final, Mason, recém-chegado à universidade, está sentado conversando com uma garota que acabou de conhecer. 

Eles comeram uns pedaços de brownie e foram de carona para Big Bend Ranch State Park no Texas, onde estão admirando o pôr do sol e trocando olhares furtivos, o tipo que poderia levar a... bem, você sabe. E no exato momento em que eles parecem ficar sem palavras, com a câmera perfeitamente posicionada num clássico campo/contracampo lindamente iluminado, a tela escurece e surgem os créditos. Nós ficamos sem saber o que ocorre em seguida. E, no entanto, temos plena certeza de que as coisas fundamentais se aplicam. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK 

Beijos do cinema

...E o Vento Levou

 

A Um Passo da Eternidade

 

Casablanca

 

Homem-Aranha

Titanic

 

O Segredo de Brokeback Mountain

 

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