"Beijos e Tiros" desperta roteirista de pesadelo

Hollywood deve muito a Shane Black, um dos roteiristas pioneiros do cinema de ação. Só a franquia Máquina Mortífera, que ele criou em 1987, aos 22 anos, rendeu aos cofres da Warner quase US$ 500 milhões com os quatro longas-metragens protagonizados por Mel Gibson. Mas nem por isso a indústria perdoou o tropeço do roteirista, com Despertar de Um Pesadelo (1996), fracasso de público e crítica. Foram quase dez anos de ostracismo até Black conseguir vender outra de suas tramas a um grande estúdio. Ironicamente, as portas só se abriram quando ele resolveu satirizar a própria máquina de fazer filmes na comédia policial Beijos e Tiros, sua estréia na cadeira de diretor. "Tenho uma relação de amor e ódio com Hollywood", diz ele, em entrevista ao Grupo Estado, em Los Angeles. Para recuperar o prestígio, aos 43 anos, Black precisou atacar o estilo de vida superficial de Los Angeles, a obsessão dos atores pela fama, os clichês cinematográficos e as franquias milionárias (como Senhor dos Anéis e mesmo Máquina Mortífera). Nem Drew Barrymore escapou, virando de piada de cunho sexual por conta de sua queda por roqueiros. "Espero que Drew tenha senso de humor quando nos encontrarmos de novo. Não quero levar um tapa na cara", brinca o roteirista/diretor, conhecido pelos diálogos rápidos e afiados dos seus personagens. Destilando cinismo, Black escreveu Beijos e Tiros sem esconder do espectador o processo de criação da história, lembrando o que Charlie Kaufman fez em Adaptação (2002). Aqui os personagens têm consciência de que atuam num filme, principalmente o protagonista. Robert Downey Jr. vive ladrão que se esconde da polícia fingindo ser ator e acaba contratado para interpretar detetive num filme - o que o obriga a seguir os passos de um policial de verdade (Val Kilmer). Conforme a história avança, o personagem "discute" algumas opções narrativas com a platéia. "Foi o jeito que encontrei de brincar com as convenções que predominam no cinema. As tramas estão cada vez piores", alfineta Black, que já foi um dos roteiristas mais bem pagos da indústria. Recebeu US$ 1,7 milhão por O Último Boy Scout (1991) e US$ 4 milhões (um recorde para a categoria na época) por Despertar de Um Pesadelo. "O dinheiro deixava muita gente enciumada e me colocava sob os holofotes pelas razões erradas. Tudo isso me prejudicou", lembra. A mídia ainda promovia uma competição entre Black e Joe Eszterhas, de Instinto Selvagem (1992). "Sempre nos comparavam para ver quem ganhava mais." Cansado da "mentalidade mercenária" de Hollywood, o roteirista nem se importou quando lhe descartaram. O afastamento foi necessário para que Black se sentisse "invisível de novo" e recuperasse o prazer de inventar histórias. Ele só não esperava ser esquecido tão facilmente. "A fraca abertura de Despertar foi o suficiente para me condenar. Curioso como ninguém comenta que o filme acabou virando cult em vídeo, provando não ser tão ruim assim." Foi o amigo Jim Brooks, diretor de Laços de Ternura (1983) e Melhor É Impossível (1997), quem incentivou Black a voltar a escrever. "Por influência dele é que enveredei pela comédia. Tinha perdido mesmo o gosto pelos filmes de ação." Aos poucos, o sentimento ambivalente com relação a Hollywood, onde conheceu altos e baixos, tomou conta do roteiro. "Foi quando percebi que tinha de dirigir o filme", conta Black, que convenceu o produtor Joe Silver, da trilogia Matrix, a lhe entregar US$ 15 milhões. "Felizmente mudei de gênero. Num filme de ação isso mal daria para explodir um helicóptero", brinca. Sorridente, Black não esconde a satisfação de ter dado a volta por cima. Principalmente com um filme que foi recebido com entusiasmo nos festivais de Cannes e Toronto. A bilheteria mundial soma até agora pouco mais de US$ 9 milhões, o que corresponde às expectativas da Warner para uma produção modesta. "Vou aproveitar a chance para melhorar o meu estilo e testar novos gêneros. Tudo quieto no meu canto, sem chamar muito a atenção." Até porque Black aprendeu a lição e não quer mais figurar entre os queridinhos de Hollywood. "Para quê? As festas continuam tão chatas e as pessoas tão maldosas quanto antes."

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