Bastidores do júri do 62.º Festival de Veneza

Festivais costumam (ou costumavam) dar rescaldos interessantes, polêmicas em torno de filmes que deveriam ou não ter vencido, novas propostas estéticas apresentadas durante o certame, temáticas polêmicas, etc. Símbolo dos novos tempos de Veneza, o único debate sério pós-festival que ocupava os jornais se referia à premiação da atriz italiana Giovanna Mezzogiorno do filme La Bestia nel Cuore, de Cristina Comencini. Não que alguém constestasse a vitória da filha do grande ator Vittorio Mezzogiorno, que ganhou a única láurea italiana do festival. No entanto, alguns lembram que Margueritta Buy, de I Giorgi de L´Abandono, de Roberto Faenza, também poderia ter vencido. E Faenza insinua no Corriere della Sera que o fato de la Mezzogiorno estar num filme produzido pela RAI pode tê-la beneficiado. "Compreendo que estava na hora de dar um prêmio para a Rai, mas se podia encontrar uma outra fórmula que não punisse uma estrela que, estou certo, terá outra forma de reconhecimento", diz, referindo-se a Buy e ao fato de o filme entrar agora no circuito comercial do país. Aliás, pelo que dá a entender o presidente do júri, o italiano Dante Ferretti (Oscar pela direção de arte de O Aviador, de Martin Scorsese), o debate em torno da participação italiana na premiação se resumiu de fato ao troféu de melhor atriz, a Coppa Volpi de interpretação feminina. "Foi ótimo que Ferretti mantivesse até o fim os filmes italianos em discussão", confidenciou o presidente do festival, Marco Muller ao La Repubblica. Muller deixou ainda vazar que nenhum dos prêmios foi unânime e que as discussões se estenderam por mais de quatro horas.Por que tanto debate? Dante Ferretti deixou escapar que formaram-se dois partidos no júri, um favorável ao filme de George Clooney, Good Night, and Good Luck, e outro ao de Philippe Garrel, Les Amants Réguliers. Dois partidos inarredáveis, o que confirma que a saga dos caubóis gays de Ang Lee, Brokeback Mountain, entrou como tertius e assim levou o Leão de Ouro. Esse apelo a uma solução alternativa não é rara em festivais. Diz-se, até hoje, que foi assim que o brasileiro O Pagador de Promessas, venceu a Palma de Ouro em Cannes. O tema-tabu, apenas esboçado pela imprensa local (porque se trata da conclusão mais óbvia, mas inaceitável) é que, para conceder a Copa Volpi a Giovanna Mezzogiorno tiveram de exumar um Leão Especial, recurso que não era usado havia 20 anos, para premiar quem realmente merecia, Isabelle Huppert, magnífica em Gabrielle, de Patrice Chéreau."Não se trata de um prêmio de consolação", diz Muller; "não se pode deixar de reconhecer que de fato Isabelle é uma atriz extraordinária". Bem, isso sabemos todos. Por que então não ganhou em sua categoria? No rescaldo, o festival apresenta um balanço numérico positivo. O mesmo número de ingressos e assinaturas vendidos que no ano passado, sendo que nesta edição a quantidade de filmes era menor. E, este sim, um número impressionante, 2500 jornalistas presentes no evento, dos quais 1100 estrangeiros. Com isso se compreende por que os produtores de todo o mundo (e sobretudo os de block busters americanos) têm tanto interesse em vir para o Festival. Veneza transforma-se, durante 12 dias, na maior caixa de ressonância da indústria cinematográfica mundial. Quem vem aqui apresentar filmes, dar entrevistas coletivas como se fossem individuais (as famosas "junkets") e desfilar na passarela vermelha ganha espaço grátis em mídia em todos os mercados do mundo. Em especial no ainda pouco explorado mercado asiático. A cada ano se vêem mais por aqui as feições orientais. E não apenas porque Marco Muller seja sinólogo de formação. É uma questão de mercado. E também por isso se corteja tanto quem nele manda - os americanos. Para Muller, o maior triunfo deste ano é que "o cinema americano foi diluído por todos os dias da mostra, resultado importante, visto que até o ano passado ele se concentrava nos primeiros dias e depois todos batiam asas para Toronto", disse ao La Repubblica. Quer dizer, Veneza, o mais antigo festival do mundo, jóia da coroa européia, se regozija agora de atrair os americanos e não perdê-los para o Festival de Toronto, que se choca em parte com a mostra italiana. Essa submissão a Hollywood não é o único signo de fragilidade de Veneza. Um golpe inesperado veio do próprio país: já está marcada, para 2006, a primeira edição do Festival de Cinema de Roma, em outubro, um mês depois de Veneza. Muller e o presidente da Bienalle (da qual o cinema é apenas uma parte), Davide Croff, dizem não temer a iniciativa romana. Mas deixam no ar o receio de que o ministério da cultura italiana divida recursos entre os dois eventos. De resto, o Festival de Veneza, fundado há 72 anos (não tem esse número de edições por causa de interrupções durante a guerra, etc.), tem sido há muitos anos criticado pela estrutura carente e envelhecida das suas dependências. Há um projeto apresentado para o novo e faraônico Palazzo del Cinema, mas não se sabe de onde virão os recursos. Com todas essas preocupações não há mesmo tempo e energia para debater os filmes. Afinal, trata-se de um Festival de Cinema e não de filmes, não é mesmo?

Agencia Estado,

13 de setembro de 2005 | 20h58

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