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'Basquiat – Traços de Uma Vida' retrata o artista à margem da sociedade

Julian Schnabel refaz o percurso do pintor que começou como grafiteiro

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

21 Janeiro 2018 | 06h00

Basquiat como artista maldito. É o retrato, pintado por Julian Schnabel, de Jean-Michel Basquiat (1960-1988), que fez do grafite base para sua arte pós-moderna e original. 

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Quando grafiteiro, Basquiat assinava como Samo, autor de enigmáticos epigramas pelas paredes de Nova York. Descoberto por Andy Warhol (o dos 15 minutos de fama), tornou-se artista da moda em Manhattan e teve muito mais que o quarto de hora de sucesso previsto por seu mentor. Teve dinheiro, mulheres, galerias badaladas para sua arte, etc. Todas as benesses desse estranho mundo das artes plásticas, há pouco satirizado em The Square – A Arte da Discórdia, do sueco Ruben Östlund. O êxito não afastou Basquiat de hábitos pouco saudáveis. Teve vida rápida e intensa. Morreu aos 27 anos, de uma overdose. 

Em Basquiat – Traços de Uma Vida, o artista é interpretado por Jeffrey Wright. Muito bem, aliás. Interpreta o artista iniciante, que de súbito faz sucesso, mas não consegue, e talvez nem queira ou possa, refrear a veia contestadora. David Bowie faz Andy Warhol. Benicio del Toro vive Benny, um amigo do artista. Gary Oldman (o atual Churchill de O Destino de Uma Nação) faz Albert Milo, uma espécie de alter ego de Schnabel. Christopher Walken é um jornalista especializado. Dennis Hopper faz o agente de Warhol; Parker Posey, a dona da galeria, e Willen Dafoe, um eletricista. Courtney Love interpreta um pequeno papel como Big Pink. 

Mais que cinebiografia, Basquiat pretende discutir a arte e o artista perante a sociedade. A começar pelas cenas iniciais, quando o menino vê sua mãe se emocionar diante da Guernica, de Picasso. Cena imaginária ou real, pouco importa, porque, no contexto da história, é como um rito de passagem, coroamento do futuro pintor, que, em criança, intui o poder transformador da arte. 

Nas sequências seguintes, vemos outro personagem, sentado num banco de jardim, a escrever em seu caderno algumas reflexões sobre a pintura e um artista em particular, Vincent Van Gogh. Celebrado, incensado e idolatrado depois de morto, em vida Van Gogh vendeu um único quadro. Não teve reconhecimento, essa palavra tão fundamental para a espécie humana. “E não podemos permitir que haja outro Van Gogh irreconhecido entre nós”, escreve. Atrás dele, vemos um morador de rua a sair da caixa de papelão que lhe serviu de abrigo durante a noite. 

Tudo conflui para a construção da imagem do artista à margem do seu tempo. Ou melhor, alguém dotado que intui a essência do seu tempo, mas se recusa a fazer o jogo de conveniências característico da época. Pequenas transgressões o tornam incômodo. E a grande transgressão o torna agressor do próprio corpo, suporte da sua vida e arte. É a saga terrível dos artistas que morrem jovens. Muitos morreram aos 27 anos, como Basquiat: Jim Morrison, Jimi Hendrix, Kurt Cobain, Janis Joplin, Amy Winehouse. Basquiat se foi numa overdose de speedball, um coquetel de heroína, cocaína e anfetamina. 

Em consonância com os hábitos do personagem, o filme toma liberdades visuais alucinógenas. Por vezes, vemos o azul do céu nova-iorquino se transformar em onda gigantesca, pela qual desce um surfista. Com algumas transformações, será uma imagem recorrente, pois Basquiat sonhava deixar tudo e se mudar para o Havaí. 

Em paralelo a essa fantasia de evasão, havia um ponto de contato de Basquiat com o mundo. Gina Cardinale (Claire Forlani) era a garçonete que o havia tratado bem quando todos queriam enxotá-lo. Ele se apaixona, é correspondido, vão morar juntos, mas era difícil para uma garota normal acompanhar o trem de vida do personagem. 

Schnabel registra essa vida e esse ambiente com familiaridade. Faz parte dele. Antes de fazer suas incursões pelo cinema (Basquiat é seu primeiro filme), Schnabel é artista plástico reconhecido. Pertence à mesma corrente do seu personagem, o neoexpressionismo. Ele está no filme, na pele de Gary Oldman, tipo inventado, alter ego do autor, mas também consciência crítica e autoirônica de tudo que vive e observa. 

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