Black Bear Pictures/Handout via REUTERS
Black Bear Pictures/Handout via REUTERS

'Barry' é inspirado na juventude do presidente dos EUA Barack Obama

Filme sobre os anos de universidade do líder norte-americano é produção original da Netflix e está disponível na plataforma de streaming

Manohla Dargis, The New York Times

19 Dezembro 2016 | 03h00

Abraham Lincoln continua sendo o mais consagrado de nossos presidentes nas telas, mas não será surpresa se Barack Obama – outro colosso histórico, divisor de águas e igualmente magro – eventualmente o seguir. Em Barry, o futuro 44º presidente dos Estados Unidos inicia sua jornada interior num momento crítico, muito como o herói de A Mocidade de Lincoln, de John Ford. A viagem de Lincoln para a descoberta foi num lombo de mula para Springfield; Barry só teve de pegar um avião para Nova York. O filme é uma produção da Netflix e está disponível para streaming.

É o ano de 1981 e Barry, como gosta de ser chamado (um Devon Terrell charmoso, de andar solto e fala ritmada) está a caminho de seu primeiro ano na Universidade Colúmbia. Lá chegado, o filme – com roteiro de Adam Mansbach e direção de Vikram Gandhi – o acompanha em seu trânsito entre Colúmbia, onde estuda ciências políticas, e a vida fora do câmpus, na qual joga basquete de rua e às vezes relaxa numa rodinha de fumo. É um tipo familiar, embora elevado, de educação sentimental, com discussões sobre Grécia Antiga e democracia na sala de aula e a vida num mundo exterior que parece fortemente definido por gritantes verdades em preto e branco.

Esse é o caso, mesmo que o mundo habitado por Barry sugira ser mais preto ou branco. Muito do filme envolve as dúvidas de Barry com as complexidades e contradições embutidas em suas escolhas. Ele é negro ou branco? Branco e negro? Tem de escolher? Por quê? Essas questões turbilhonam em torno dele, embora geralmente cheguem mais como situações dramáticas que em forma de diálogo. Isso faz sentido, uma vez que o filme não é sobre Barack, mas sobre um garoto chamado Barry, inseguro, que não sabe a que mundo pertence. Está dividido, existencialmente e de todos os outros meios, morando no Harlem e compartilhando um quarto com Will (Ellar Coltrane), um agradavelmente inócuo rapaz branco.

Sentindo-se um outsider, inclusive na Ivy League, Barry circula com amigos brancos e arranja uma namorada branca, Charlotte (Anya Taylor-Joy), que estuda em uma de suas classes. Eles se entrosam numa festa, onde Barry está se esquivando em meio a alunos de uma fraternidade, e logo formam um adorável casal geeky. Num dos primeiros encontros, eles sintonizam a TV num debate para a eleição municipal – Ed Koch aparece na tela da televisãozinha – antes de cada um tirar a roupa do outro. É talvez a primeira vez que um prefeito tenha desempenhado um papel afrodisíaco. Charlotte parece inteiramente à vontade com Barry e com o Harlem, onde ela o leva ao Sylvia’s e compra para ele uma brochura de James Baldwin.

É um pouco demais essa garota branca comprando para o garoto negro um livro de Baldwin. Mas Gandhi resolve a cena sem transformá-la num lance de autoconscientização. Na maior parte, Gandhi mantém as cenas curtas, compactas e silenciosas, deixando a maioria das explosões para o amigo de Barry Saleem (Avi Nash), que mora num cortiço enquanto tenta descobrir o que fazer da vida. Em alguns dos momentos mais fortes, Barry e Saleem simplesmente saem para curtir e o ar fica pesado de uma incipiente melancolia.

Saleem atua de certa forma como uma espécie de terceira via, tanto para o mundo predominantemente branco de Colúmbia quanto para o mundo negro que Barry entusiasticamente explora. O realismo do filme põe Barry mais no chão que no ar – ele vivencia as usuais agonias e tristezas da passagem para a idade adulta. Barry também recebe uma visita da mãe, Ann (uma adorável Ashley Judd), o que o faz sofrer e curtir, entre vacilações e ternura. Às vezes, chega para Barry uma carta do pai.

O futuro chama, mas, por enquanto, Barry está aqui. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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