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SERGIO CASTRO/ESTADAO~
SERGIO CASTRO/ESTADAO~

Bárbara Paz realiza documentário e vai lançar livro com os poemas do companheiro Hector Babenco

O artista que refletiu sobre a violência e a ética dos criminosos em grandes filmes produziu também rimas sensíveis

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

07 de agosto de 2016 | 04h00

Ele era daquelas pessoas que vestem máscara para o convívio social. O próprio Hector Babenco talvez se surpreendesse com o teor emotivo dos necrológios a ele dedicados. Embora irregular, o artista sabia ser grande. O homem tinha a fama de difícil, mas quem não é? Essa parte foi ignorada para que só se resguardasse o diretor, e foi bom assim. Poucos podiam dizer que conheciam o verdadeiro Hector. Entre eles, Bárbara Paz, a companheira. Bárbara relembra Hector e anuncia as novidades – um documentário, um livro de poemas. Ela conversa com o repórter em seu ‘esconderijo’, um apartamento enorme, daqueles antigos, pé direito alto, na Av. São Luiz. Comprou-o há tempos. E o tem usado muito mais como escritório.

Agora está sozinha – com a gata, Matilde. “Já perdi pai e mãe e sofri muito, mas nada se comprara à perda do amor. É uma dor inominável. Tem dias que sinto como se falta um pedaço de mim.” O trabalho tem ajudado. Ela segue com a peça – Gata em Telhado de Zinco Quente, de Tennessee Williams, no Rio – e tem se dedicado ao documentário sobre Hector e ao livro de poemas que ele escreveu. O livro é obra de uma vida inteira (leia abaixo). O documentário começou a nascer há alguns anos, em Paris. Foi depois da apresentação de O Beijo da Mulher Aranha, em Cannes Classics. “Hector recebeu uma homenagem em Paris. Estava com ele e havia comprado uma câmera, que ainda aprendia a usar. Filmava-o o tempo todo, e aí o Hector ficou doente, ficou mal. E eu seguia filmando...”

Tanto o filme como o livro de poemas têm o título (provisório?) de Corredor Polonês. Era assim que Babenco via a vida. O mundo lhe parecia hostil, tomava golpes de todo o lado. Daí as máscaras. Bárbara, até pelo convívio íntimo, conhecia o outro Hector. E um dia ele admitiu, aceitou – se alguém fosse revelar esse outro Hector, teria de ser ela. Bárbara é inquieta. “Além de ser atriz, pinto, fiz uns filmes que passam no Canal Brasil.” O documentário começou a se desenhar no seu imaginário. Não um documentário convencional, mas um ensaio poético. “Hector sonhava muito, e me contava os sonhos. E ele próprio dizia que havia morrido muitas vezes.” A diabete, o câncer. No final, foi o coração (uma parada cardíaca) que o matou, em 13 de julho, aos 70 anos. “O documentário será uma viagem pelos sonhos e pelas mortes de Hector.” E ela pergunta – “O que é a morte senão o derradeiro sonho?”.

Se dizia que já havia vivido sua morte, Hector acrescentava – “Agora, só falta fazer o filme da minha morte”. Bárbara perguntava – “Como será?”. Ele respondia – “Acho que será um solilóquio!”. “E inventávamos as outras mortes que ainda viriam...” O apartamento, no qual Bárbara faz essas confissões, é todo branco, com o mínimo de móveis. Naquela parede está escrito ‘Amo-te’. “Foi aqui que o Hector me ajudou a repassar o texto da Gata. Ele não estava muito entusiasmado, não acreditava no texto do Tennessee. Depois, admitiu que não o conhecia. Quando descobriu o texto, ficou louco, amou.” Amo-te – há uma inscrição na parede (veja a foto). O filme de Bárbara sobre Hector, planejado para o final de 2017, nasce como uma carta de amor. 

“Jorge Bodanzky está comigo no projeto. Era amigo do Hector havia mais de 20 anos. Jorge fez fotos lindas. Vai estar no filme com sua câmera oculta, como um olhar de fora sobre o filme. Com o Hector, fui atrás dos trilhos de Pixote, a cena emblemática da corrida do Fernando (Ramos da Silva). Chegamos num lugar e os trilhos estavam enterrados. Desenterramos, e foi todo um passado que voltou.” Grande fotógrafo, Adrian Teijido vai ajudá-la no que talvez seja o maior desafio de Corredor Polonês. “Quero recriar os sonhos do Hector. O documentário vai ser em preto e branco, muito Béla Tarr. É o cinema que me interessa hoje em dia, o romeno.”

Bárbara está falando do grande diretor de O Cavalo de Turim, um dos melhores senão o melhor filme do ano. “Já captei (o dinheiro) e vou a Los Angeles em dezembro para colher alguns depoimentos essenciais. Jack Nicholson, por exemplo (É o ator de ‘Ironweed’, dividindo a cena com Meryl Streep) Mas não vou perguntar nada. Câmera ligada, as pessoas vão dizer o que quiserem.” Embora tenha dado autorização a Bárbara para filmá-lo do jeito dela – e ela sempre deixou muito claro que seria seu filme –, Babenco, até no hospital, fazia planos sobre o ‘nosso’ filme. “Ele embarcou comigo nessa aventura, estava sendo um processo muito gostoso.” Parte da dor que Bárbara sente vem dessa parceria. “Hector me incentivava a fazer, a ousar. Cresci muito, como mulher e artista, com ele”, reflete.

Como diretor, e autor, Hector tinha a tendência a controlar. O próprio velório, Bárbara conta, ele dirigiu. “Não queria tristeza, não queria uma homenagem oficial na Assembleia. Queria a Cinemateca, que amava, com champanhe, vinho, um ambiente informal para as pessoas se encontrarem e conversarem.” Esse era o verdadeiro Hector. Por detrás da máscara de durão, o artista que deu seu testemunho sobre a violência em grandes filmes – Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia; Pixote, a Lei do Mais Fraco; Carandiru – O Filme – era um homem doce que a companheira vai compartilhar com o mundo. 

Livro vai resgatar os poemas escritos ao longo de uma vida

O artista que refletiu sobre a violência e a ética dos criminosos em grandes filmes produziu rimas sensíveis

Sonhos e mortes. Poemas e memórias. Assim como está empenhada na realização do documentário Corredor Polonês, Bárbara Paz também está em conversas com uma editora para lançar em livro os poemas de Hector Babenco. A vida toda, desde garoto, Hector escreveu poesia. Escrevia muito, tudo, às vezes refletindo sobre seu trabalho. Já faz algum tempo que Bárbara recuperou os velhos cadernos em que ele redigia, do próprio punho.

Um dos primeiros poemas foi inspirado pela morte do pai. É escrito em espanhol, pungente como a dor que o jovem Hector, aos 14 anos, estava sentindo. Ele continuou escrevendo em espanhol, depois em portunhol, quando se radicou no Brasil. Esses textos, não apenas os poemas, mas as memórias, perfazem uma vida. E por isso Bárbara empenha-se em garantir que sejam publicados.

Para o espectador que identifica o cineasta que morreu em 13 de julho, aos 70 anos, por filmes violentos como Lúcio Flávio e Pixote, ou por obras sobre seres desgarrados como Ironweed, esse mergulho na poesia talvez revele um outro Hector. É o que Bárbara se propõe a fazer com seu filme. Mostrar o homem por trás do artista, livre das máscaras que usava para enfrentar o que considerava a hostilidade do mundo. Hector era um fabulador. Vivia contando histórias – da própria vida. Às vezes floreava tanto que deixava os interlocutores em dúvida. “Tinha gente que não acreditava que tivesse sido vendedor de túmulos, quando chegou ao Brasil. No velório apareceu um velhinho que foi chefe dele. Recontou as velhas histórias. Gente, era tudo verdade!”

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