'Banheiro do Papa' leva prêmio do júri na Mostra de São Paulo

Filme é co-produção entre Brasil, Uruguai e França, e dirigido por Enrique Fernández e César Charlone

Luiz Carlos Merten, do Estadão,

07 de novembro de 2002 | 10h26

Pior que o atraso de meia hora - que provocou assovios e aplausos ritmados do público, para lembrar que já estava ali - foi o sistema de som no auditório do Memorial da América Latina, onde se realizou, na quinta-feira à noite, a cerimônia de encerramento da 31ª Mostra Internacional de Cinema São Paulo. Das últimas filas, foi preciso ver César Charlone, o genial fotógrafo de Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel, subir ao palco para confirmar que o prêmio Bandeira Paulista deste ano foi para O Banheiro do Papa, co-produção uruguaio-brasileiro que ele realizou, em espanhol, em parceria com Enrique Fernández. O filme já havia sido premiado no Festival de Gramado, em agosto.   Veja também:    31.ª Mostra Internacional de Cinema de SP   Com menos trapalhadas que de hábito, a cerimônia - apresentada por Serginho Groisman e Marina Person - teve, mesmo assim, momentos engraçados, como o discurso de agradecimento de Jia Zhang-ke.   Homenageado com uma retrospectiva nesta edição, o diretor chinês recebeu, dois anos depois, o troféu correspondente ao prêmio da crítica que conquistou em 2005, por The World (O Mundo). Jia é baixinho, seu tradutor é um cara alto. O microfone foi baixado para se ajustar à altura dele. O tradutor teve de se curvar para os agradecimentos. Foi hilário e a turma do gargarejo riu como se estivesse assistido a uma comédia do Gordo e o Magro, aqui, do alto e do baixo.   Foi uma extensa premiação. O júri oficial de ficção, o mais importante - integrado pelas diretoras Lúcia Murat e Inês Medeiros e pelos diretores Hirokazu Kore-eda, Moussa Sene Absa e Férid Boughédi -, entregou três prêmios na categoria ‘longas’, além da Bandeira Paulista para o simpático O Banheiro do Papa. Truques, do polonês Andrzej Jakimowski, recebeu uma menção especial (mas não é muito bom). Postales de Leningrado, da venezuelana Mariana Rondón, ganhou o prêmio revelação; e - o mais merecido de todos - Carla Ribas foi sagrada como melhor atriz da Mostra por sua extraordinária interpretação em A Casa de Alice, de Chico Teixeira. O diretor subiu ao palco para os agradecimentos. Estava feliz da vida por sua intérprete, reconhecendo que, sem Carla na pele de Alice, a casa não seria a mesma coisa.   O júri também premiou dois curtas - o brasileiro O Crime da Atriz, de Elsa Cataldo, muito bem feito; e o estrangeiro (francês) Em Construção, de Zhenchen Liu. Outro júri escolheu como melhor documentário Transformaram Nosso Deserto em Fogo, de Mark Brecke, co-produção entre EUA, Sudão e Chade. Dois filmes dividiram o prêmio do público para a melhor ficção estrangeira - Into the Wild, de Sean Penn, dos EUA, e Persépolis, de Marjani Satrapi e Vincent Paronnaud, da França.   O prêmio do público para o melhor documentário foi para o argentino O Filme da Rainha, de Sergio Mercurio, sobre mulher de Curitiba que transforma papéis de bala em vestimentas majestosas. O melhor longa brasileiro de ficção, pelo voto do público, foi Estórias de Trancoso, de Augusto Sevá. Além do prêmio de revelação, Postales de Leningrado recebeu também o Prêmio da Juventude, outorgado por estudantes do ensino médio.   O prêmio da crítica foi para A Questão Humana, do francês Nicolas Klotz, sobre psicólogo que investiga o passado do presidente de uma empresa alemã na França e descobre, não apenas que ele tinha ligações com o nazismo, mas também que continua usando métodos que remontam ao nacional-socialismo para gerir seu negócio.   A Questão Humana é dos filmes que ainda não foram adquiridos para o mercado brasileiro, mas está em negociações, podendo ser adquirido pela Imovision (de Jean-Thomas Tomasini). Um prêmio humanitário foi atribuído a um amigo da Mostra, o diretor Israelense Amos Gitai, que este ano participou da programação com A Retirada, interpretado por Juliette Binoche e (num pequeno papel) Jeanne Moreau.   Foi uma boa Mostra, embora inferior à do ano passado, que apresentou filmes mais alternativos (e ousados). O gosto do público esteve mais para o médio do que para a vanguarda e sua escolha se manifestou numa seleção um tanto estapafúrdia de títulos, a partir dos quais o júri teve de distribuir os prêmios.   Alguns dos melhores filmes de toda a programação, habilitados para concorrer, foram ignorados na votação, desde o brasileiro Mutum, de Sandra Kogut, até o mexicano Cochochi, de Israel Cárdenas e Laura Amélia Guzmán. A Mostra prossegue até a próxima quinta-feira em duas salas (CineSesc e Bombril) que apresentam a chamada ‘repescagem’.   Dos quase 400 títulos que foram exibidos, a repescagem apresenta uma seleção que inclui O Banheiro do Papa, sábado, às 19h50, no Cine Bombril.

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