Baixo custo estimula cinema digital

"O motivo da filmagem em digital é o baixo custo. Quero provar com este filme que não é preciso mais de R$ 500 mil para se fazer um bom filme", explica o diretor Carlos Reichenbach. "Não vou fazer este filme por mais que isso!"O cineasta, após ir ao Festival de Locarno (Suiça) como parte do júri, retornou ao Brasil deslumbrado com os recursos da câmera numérica. Lá, pôde ter provas determinantes de que cinema digital tem, ao mesmo tempo, eficiência, qualidade, praticidade, além de ser bem menos dispendioso. Conferiu filmes feitos em câmera numérica, como Scarlet Diva, da italiana Asia Argento (que no próprio filme faz a sensualíssima Anna Battista), e Time Code, de Mike Figgis (de Despedida em las Vegas, 1995). Time Code, aliás, mostra um recurso de narrativa cinematográfica totalmente inovador: a tela, dividida em quatro partes, exibe quatro histórias diferentes. Você pode prestar atenção na que quiser, mas só uma por vez vai ser destacada, através de seu som. Nos últimos minutos do filme, as quatro câmeras captam planos em seqüência (sem cortes) que convergem numa única cena e num único final."É plenamente possível fazer isso com câmeras de 35 milímetros", diz o diretor sobre Time Code, "mas imagina o quanto que é mais trabalhoso e quanto se gastaria a mais". O único aspecto mais caro dentro de uma produção digital é sua passagem para película, num processo chamado kinescopia, que custa em média R$ 1 mil por minuto - ainda que encareça, não supera os gastos com manutenção de equipamento, edição em película, etc. "Além de ser uma linguagem muito mais acessível a todos, é nova, está em evidência e se propaga naturalmente. Já tem festivais só de cinema digital pela Europa", diz o diretor. No Brasil, o primeiro festival exclusivamente para o gênero acontece ainda este ano, no fim de outubro.Iguais e diferentes - E há diferença entre digital e 35 milímetros? "A qualidade é a mesma. A textura, quando revertido para 35 milímetros, também", diz Reichenbach. "Mas a proposta é outra totalmente diferente. No digital, o olhar e seu trajeto são do próprio diretor. O que se vê é explicitamente o que o diretor queria mostrar". Reichenbach aproveita o excelente reconhecimento que vem tendo no cinema brasileiro para por em prática os melhores entre seus planos de cinema. Apesar de já fazer filmes desde 1967 (e já ter coletado uma ótima cinegrafia, como o excelente Filme Demência, de 1985), voltou a ter destaque com o longa Alma Corsária, em 1993, apontado como um dos filmes mais importantes da década de 90. Ano passado, Reichenbach voltou a dar show de qualidade e inteligência com Dois Córregos. Neste ano, recebeu homenagens do Museu da Imagem e Som de São Paulo, do Festival de Cinema e Vídeo Guarnicê (MA), entre outras.Assim, já consegue com segurança visualizar os planos que seguirão a Empédocle, o Deus das Sandálias de Bronze. Na metade do ano que vem, deve estar filmando Aurélia Schwarzenêga, um filme sobre a região do ABC paulista, focalizando o preconceito entre o operariado. Esta em captação para rodar em 35 milímetros, e não em digital. "É um filme que foi concebido para ser gravado assim, e foi apresentado para concurso nesse formato", explica. Sobre o orçamento, aliás, vale dizer que deve ser feito em co-produção com a França. Aurélia Schwarzenêga deve dar origem ao "pentateuco" do ABC paulista: uma série de cinco filmes que tratarão de diferentes histórias sobre operários da região.

Agencia Estado,

17 de setembro de 2000 | 01h16

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