"Baixo Califórnia" acerta na viagem

Baixo Califórnia, o Limite do Tempo, de Carlos Bolado, é um desses casos (raros) de cinema independente bem-sucedido. Quer dizer, sem os vícios do rótulo, sem fórmulas, apenas imaginação e técnica a serviço de uma inspiração.A história é bem apanhada. Damian é um artista promissor que mata acidentalmente uma mulher grávida quando cruza a fronteira entre México e Estados Unidos. Atormentado pela culpa, e em busca de suas raízes, Damian empreende aquilo que se convencionou chamar de "viagem iniciática". Ou seja, volta a um tema tão antigo quanto a viagem mítica de Ulisses e seu retorno a Ítaca.Cinema é movimento e já se disse que o tema cinematográfico por excelência é a viagem. É o entrecho dramático (ou cômico) clássico, pois o personagem se move, desloca-se, conhece outras paisagens, outras pessoas, se relaciona, modifica-se. Ou seja, para um artista, no caso para o cineasta, o tema da viagem é mamão com açúcar.E Bolado sabe aproveitar essa situação favorável. Há um personagem atormentado por uma culpa real ou imaginária. Alguém em crise (portanto, também em movimento), que procura vagamente seu mito de origem, o que, em tese, significará libertação, ou, no mínimo, apaziguamento. O segredo cinematográfico de Bolado é explorar com talento a paisagem e o clima a seu dispor. Trabalha com planos largos, em paisagens em geral despovoadas. Não há sentido de desolação nessa rarefação, mas sim de mistério, de expectativa, de esperança. Esse tônus psicológico, passado ao espectador, é também o do personagem. Damian é um tipo em busca de algo que vai além dele próprio. Um sentido, um fundamento, um ponto de referência.Todo mundo passa por isso, um dia ou outro. Pode ser ilusório ou não, mas o importante não é a chegada e sim a procura em si mesma.

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