Morgana Narjara
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'Baile do Menino Deus' vira filme

Tradicional auto de Natal de Recife chega às telas com história filmada nas ruas da capital pernambucana e participações de Chico César e Lia de Itamaracá

Danilo Casaletti, Especial para o Estadão

23 de dezembro de 2021 | 15h00

O espetáculo Baile do Menino Deus, encenado pela primeira vez há 40 anos, em teatro, e que há 18 anos ocupa a Praça do Marco Zero, no Recife, ganha um novo formato este ano.

Impossibilitado de ser apresentado em seu “palco” original em razão da pandemia – uma apresentação a céu aberto que costuma reunir pessoas 80 mil pessoas em três dias de apresentação – o tradicional auto de natal vira filme dirigido por Tuca Siqueira com estreia hoje, no site e no canal YouTube do Baile, às 20 horas.

Com criação original de Ronaldo Correia de Brito, Antônio Madureira e Assis Lima, o Baile do Menino Deus não tem nada de Papai Noel, renas, neve e ursos polares, ou seja, no Natal importado da Europa Central e dos Estados Unidos e seguido em grande parte do Brasil. Nele, os protagonistas são as manifestações populares e folclóricas, nascidas ou incorporadas pela região nordeste, como reisado, pastoril, lapinha, chegança, maracatu rural e boi de reis.

Para essa versão cinematográfica, o roteiro ganhou adaptação escrita por Brito e Tuca. Em vez dos protagonistas centrais serem os dois Mateus – figuras clássicas do teatro popular, embora eles continuem no espetáculo – a história traz as figuras de Maria, personagem da atriz e cantora Isadora Melo, e José, interpretado pelo ator Marcio Fecher.

Maria, grávida, prestes a ter o bebê, vai à Recife na companhia de José para comprar o enxoval para a criança. Eles se perdem, à noite, e atravessando uma ponte, ela sente as dores do parto. Os Mateus, então, saem em busca de uma casa onde o menino Deus possa nascer. 

“Não é uma Maria de Nazaré da Galileia e sim de Nazaré da Mata (de Pernambuco). As portas que os Mateus tentam abrir, na verdade, é algo bem contemporâneo, que remete às fronteiras do mundo, das interdições”, diz Brito.

Os cenários do longa foram praças, mercados, ruas e pontes de Recife. No trajeto de Maria e José aparecerem encontraram cantores, artistas e bailarinos.  “É um casamento do neo realismo com o realismo mágico. Sou fã de cinema e posso dizer que não há nada parecido. Em sua concepção, o espetáculo é o que João Cabral de Melo Neto fez em Morte Vida Severina, mas não de forma realista, mas sim de forma mágica. É uma brincadeira musical”, explica o roteirista.

A porta que se abre à Maria e José é a do Teatro Santa Isabel, um dos mais importantes da cidade, de arquitetura neoclássica, mostrando que a salvação vem por meio da arte. Os Reis Magos que vão saudar o rebento são dançarinos de hip hop. O personagem teatro, então, entra em cena. 

Uma das participações especiais é da cirandeira pernambucana Lia de Itamaracá. Ela faz o papel da burrinha Zabelin, um dos seres mágicos da história que ajudam os Mateus no sortilégio de abrir a porta. Lia aparece cantando um coco, linguagem bem próxima à ciranda.

Em mensagem enviada à reportagem do Estadão, a cirandeira se diz contente em participar da produção. “Fico honrada e feliz que essa história vai sair para o mundo. É cinema! É o mundo! Quanto mais eu conhecer pessoas, melhor. Minha personagem, a burrinha, que traz festa, alegria e emoção, assim como a ciranda que eu faço”, diz, por áudio, Lia.

Outro convidado é o cantor e compositor Chico César. No palco do teatro, ele encena um caboclinho que junto com um tropel de seres encantados cantam para Maria, José e o menino, criam uma atmosfera mágica que os introduzem no teatro.  O cantor Carlos Filho, que participou do programa The Voice Brasil deste ano, também faz parte do elenco.

Para Ronaldo Correia de Brito, o Baile do Menino Deus representa o Natal ibérico que chegou ao Brasil e ganhou influência negra e indígena. “O Natal sempre foi celebrado com presépios, lapinhas, reisado, pastoril antes de ser massacrado por outras culturas, virar algo meio Disney. Esse auto é uma forma de resistência cultural. É o teatro popular em sua essência. Quando o lançamos em 1983, nos chamou atenção como as pessoas se reconheceram nele. Era algo guardado lá de trás”, diz. 

Quando estreou no teatro, a ópera nordestina, que fazia parte de uma Trilogia das Festas Brasileiras, em que se incluíam a Bandeira de São João e Arlequim de Carnaval, ficou 8 anos em cartaz e ganhou inúmeras versões pelo Brasil afora. Virou também livro e disco, esse último lançado pela gravadora Eldorado.

Além do YouTube, o longa-metragem Baile do Menino Deus – O Filme será transmitido pela Globo Recife no dia 25 e entrará no catálogo do GloboPlay no dia 27.

Baile do Menino Deus - O Filme – Estreia 23/12, às 20h, no canal oficial no YouTube.

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