Babenco revive sucesso do "Beijo da Mulher Aranha"

Para o cineasta Hector Babenco, foram momentos de que ele havia esquecido. "Momentos que ficaram em algum lugar dentro de mim e voltaram muito fortes." Para o ator William Hurt, a sensação era mais palpável. "Parecia que estava novamente em São Paulo, acolhido por uma hospitalidade que nunca mais vou esquecer." Para a atriz Sônia Braga, foi a saudade de Raul Julia, dos ensaios, dos vestidos que sua mãe (Dona Zezé) fez. "E mais do que isso: como esse filme é bonito!" Quase 16 anos depois de ser lançado nos Estados Unidos; de ser o filme pioneiro do novo cinema independente americano, que se criou após a era John Cassavetes; e de conquistar o primeiro Oscar para um ator interpretando um personagem gay, O Beijo da Mulher Aranha foi novamente exibido em Nova York na noite de quarta-feira. A ocasião foi a abertura do Festival Internacional de Direitos Humanos, onde o longa de Babenco, baseado na obra de Manuel Puig, teve uma première beneficente para 1,1 mil convidados. No dia 29, o filme será relançado em cinemas de Nova York, Miami e da Filadélfia. Mais tarde expande seu circuito para pelo menos dez outras cidades. Por causa da burocracia e entraves de direitos autorais - já que o filme foi vendido para companhias que viriam a falir mais tarde -, desde 1987 que O Beijo havia desaparecido das prateleiras das locadoras e até de mostras de cinematecas. Depois de recuperar esses direitos, o produtor David Weisman, em associação com Babenco e a distribuidora Strand Releasing, decidiu trazer o longa de volta. Durante os 118 minutos de projeção do filme, nenhum sinal da ação do tempo ou da perda de seu impacto. Até as cenas rodadas na Praça da Sé, Pátio do Colégio e um apartamento mirando o Minhocão parecem atuais. "É a eternidade do cinema", comemorou Sônia Braga. Monólogo - Logo após a exibição de O Beijo, Babenco refletiu sobre "a grande coragem" de se fazer uma cena de abertura de três minutos de monólogo, sem que o público soubesse que a voz pertencia a Hurt e com a câmera montada sobre uma grua "do século 19". "Não tenho vergonha de dizer que estou muito orgulhoso de meu filme", disse o diretor que foi cumprimentado por muitos convidados, como o cineasta Arthur Penn. "Para mim, o que permeou esse trabalho foi a simplicidade; e essa singeleza só pôde ter sido alcançada com muito empenho da equipe", prossegue. "Quando vi as nuvenzinhas de giz desenhadas sobre o fundo preto da parede da cela de Bill Hurt e Raul Julia, fiquei emocionado, pensando comigo mesmo: ´Esse Clóvis Bueno (cenógrafo)! Vai ser talentoso assim no inferno´." William Hurt disse à Agência Estado que voltou a rever o filme depois de sua estréia, "num momento em que sentiu necessidade de auto-reflexão". Já Babenco, Sônia e a atriz Denise Dummont não tiveram mais contato com O Beijo desde a sua estréia em junho de 1985. "Estou bastante emocionada por essa ter sido a primeira vez que pude mostrar O Beijo para minha filha (Anabella) de 13 anos e iniciá-la numa discussão política que ela desconhecia", disse Denise, acompanhada também de seu marido, o cineasta inglês Matthew Chapman. O produtor Weisman e o roteirista Leonard Schrader assistiram ao filme em algumas sessões realizadas nos últimos dois meses em universidades de cinema na Califórnia. "O Beijo fala sobre o humanismo e também do trágico lado político de um continente e isso chegou numa época dura para nós, americanos, que vivíamos sob o período do Reaganomics", disse Schrader que, durante sua passagem por Nova York, fez as pazes com seu irmão, o roteirista e cineasta Paul Schrader, após 15 anos de indiferença. Schrader viu o filme pelo qual o irmão foi indicado para o Oscar num dos balcões do Alice Tully Hall, onde se encontravam os convidados de Babenco, entre eles Bruno Barreto, Amy Irving, Lucy Barreto, Cacá Diegues e sua mulher, a produtora Renata Magalhães, e Gene Parseghian, agente de Hurt na época. Hurt, que não cruzava com Babenco há muito tempo, confidenciou ao diretor que detesta freqüentar esse tipo de festa, mas decidiu aparecer de última hora. A oportunidade, segundo Amy Irving, que contracena com o ator numa produção da Disney em Baltimore, foi a paralisação das filmagens por um dia, devido a um técnico atingido por uma torre de iluminação. Revolução - Amy disse que viu o filme em Nova York, logo depois de seu lançamento. "Fiquei maravilhada com a performance de Hurt", disse. "Também foi o filme que me levou a encontrar Pixote, outro grande trabalho de Babenco, e também conhecer Sônia Braga." O ex-agente Parseghian, cuja ajuda na escalação de Hurt foi elementar para iniciar o projeto, avalia os dois momentos de O Beijo no mercado americano. "Esse filme provocou uma revolução no circuito em 1985 e agora está voltando numa temporada de filmes ruins, com toda a chance de se sobressair mais um vez", analisou. Ao apresentá-lo para o público, Babenco analisou que seu filme é um trabalho do triunfo do amor sobre a política. O cineasta também citou a oportunidade que teve no Brasil de falar sobre "tempos ruins" na América Latina. Ele ainda lembrou de peça importantíssima na engrenagem de O Beijo: a ajuda de Burt Lancaster, que, a princípio, interpretaria o homossexual Luis Molina, mas não pôde fazê-lo por motivos de saúde. Durante um jantar íntimo da equipe de O Beijo no restaurante Daniel´s, no Upper East Side, Babenco também ressaltou o trabalho de José Lewgoy, outro que teve problemas de saúde. Escalado inicialmente para o papel do chefe da penitenciária, Lewgoy sofreu um acidente automobilístico pouco antes do início das filmagens. "Fiz tanta questão dele, que Lewgoy acabou voltando atrás e fez todas as suas cenas sentado numa cadeira de rodas", lembrou o diretor, que também contou que teve situação semelhante quando o garoto Fernando Ramos da Silva quebrou a perna enquanto ainda filmava Pixote. Hector Babenco explicou o porquê de ter agradecido Diegues e Barreto em seu discurso no Alice Tully Hall. "Sou um argentino que foi muito bem acolhido por vocês no mundo do cinema brasileiro."

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