Babenco investiga humanidade dos condenados

Causa forte impressão a maneira como começa Carandiru, o novo filme de Hector Babenco. A câmera mostra um plano geral da cidade e depois desce, fechando-se bruscamente sobre a prisão. Há aí um significado. Estamos diante de um microcosmo, de uma amostragem, de um exemplar, em tamanho reduzido, de algo mais amplo. Da sociedade, de maneira geral? Mais ou menos. Um presídio pode ser amostra da sociedade, mas apenas da sua fração criminosa - ou pelo menos daquela que se deixa prender. Mais precisamente, é amostra da fração pobre, que delinqüiu e foi presa. E a partir de que filtro vemos essa pequena fatia social retratada? Através de um médico (Luiz Carlos Vasconcelos), voluntário de campanha contra a aids. Este descobre que para entender aquele meio e as pessoas que o habitam não há outro jeito senão deixar as certezas em casa e abrir olhos e ouvidos, sem preconceitos. Aprender. Esse olhar - que não julga nem condena - será o do livro de Drauzio Varella, e, por extensão, o do filme, adotado por Babenco. Em dois momentos a opção pelo olhar isento é explicitada, de modo verbal e com todas as letras para que não haja dúvida. No início, o médico diz que a sociedade já dispõe de instâncias adequadas para julgar e condenar, estando ele desobrigado, portanto, dessas duas atividades. Drauzio estava ali para curar ou aliviar sofrimentos, não para decidir se os pacientes eram merecedores de sua atenção. Babenco está ali para ver o homem, não o monstro social ou a vítima da sociedade. Já no final, depois do massacre, o narrador diz: "Só Deus, a polícia e os presos sabem o que aconteceu. Eu ouvi os presos." Aí estão, portanto, as duas atitudes centrais e complementares do narrador. A primeira, de simpatia atenta para com os que em geral não têm voz - são seres condenados, a escória, pobres que caíram na marginalidade, e quase ninguém se preocupa em ouvir o que têm a dizer. Estão na cadeia para serem esquecidos. A segunda, a opção por um dos pontos de vista possíveis numa situação-limite sujeita a controvérsias. Ninguém pode acusar o filme, ou o livro, por não terem levado em conta a versão da polícia. Ela já foi dada, é sabida e passa como verdade oficial. A versão do filme é a dos presos e não tinha sido ouvida. Essa narrativa parcial, focada nos detentos, é a que prevalece, do começo ao fim. Contém, no entanto, vários planos. Mostra o que é o cotidiano em um presídio superlotado. Conta histórias de vida que, quando evocadas pelos detentos, levam a cena para o mundo exterior. Finalmente, conduz ao desfecho, ao massacre de outubro de 1992 quando uma rebelião desencadeada por motivos banais terminou em tragédia.Clique aqui para ler mais

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