Babenco consegue autorização para filmar no Carandiru

O governo paulista autorizou hoje o uso de parte da Casa de Detenção do Complexo do Carandiru para a gravação de cenas do filme Estação Carandiru, dirigido por Hector Babenco e baseado no livro homônimo do médico Dráuzio Varella. Foi o primeiro ato administrativo do presidente da Assembléia Legislativa, Walter Feldman (PSDB), como governador em exercício. O uso do Pavilhão 2 da Casa de Detenção como locação para o filme só será possível porque o governo paulista pretende cumprir o cronograma anunciado para a desativação do Complexo. Segundo Nagashi Furukawa, secretário estadual daAdministração Penitenciária, "as chaves da Detenção serão entregues ao governador Alckmin no dia 31 de março de 2002". Hoje, o Carandiru abriga 7,4 mil presos, que serão transferidos para unidades menores, no Interior.Das 11 penitenciárias menores, com capacidade para cerca de 800 presos, uma está com obras atrasadas e deve ser ser entregue em dezembro, a do município de Oswaldo Cruz. As demais ficam prontas em novembro. As transferências dosdetentos começam em dezembro próximo e até janeiro de 2002, Furukawa prevê já ter trasferido 40% dos presos. As filmagens serão realizadasentre fevereiro e março, por 40 dias, mas em local já desocupado."Haverá toda a segurança para a equipe. O Pavilhâo 2 estará totalmente esvaziado até 31 de janeiro de 2002 e no dia 1 de fevereiro, à disposição do Babenco. Teremos um muro, separando o pavilhão do resto do complexo e uma entrada lateral, independente, para todo o pessoal que participar das filmagens", disse Furukawa. O filme deve ficar pronto no final de 2002. Será uma parceria entre a Globo Filmes, a Columbia do Brasil e a Gabe Filmes. O elenco ainda não foi escolhido, mas será todo brasileiro e o filme será falado em português. "Ainda não fechamos o orçamento porque dependia de conseguirmos usar a Detenção como locação ou construí-la em estúdio. Hoje, estamos saíndo vitoriosos daqui do Palácio, com um documento que nos permitirá trabalhar lá por 8 semanas consecutivas, para recriarmos a realidade em termos de ficção", disse Babenco.Cinema e literatura - Para Babenco, a estrutura do livro de Varella é muito complexa e permitiria realizar, no mínimo, três filmes diferentes. "Tem o aspecto documental, o da narrativa e o jornalístico. A gente não está utilizando o livro excluíndo o massacre nem o massacre excluíndo o livro", disse Babenco, referindo-se ao massacre do Carandiru, ocorrido em 1992, quando a PM invadiu aDetenção e matou 111 detentos. "A gente quer passar a vivência de alguém que conta as histórias lá de dentro, sem criticar,denunciar, glamurizar."Segundo Varella, que disse apenas ter acompanhado a revisão do roteiro, junto com Babenco, o livro não tem nada a ver com o filme. "É outra linguagem, outra história. Não tenho nada a ver com isso. Nessas horas, o autor só atrapalha", afirmou Varella. Ele considera fundamental a desativação da Casa de Detenção, mas após 12 anos de serviço voluntário com a população carcerária, confessou que terá saudades do trabalho."Não era mais possível, em 2001, manter uma cadeia que já era considerada velha nos anos 50. Mas, no plano emocional vai ser muito difícil aceitar isso. Estou tão acostumado, sinto que uma parte da minha vida vai embora com essa desativação. Nesse sentido, tenho um sentimento meio contraditório", desabafou Varella. As transferências do presos para os presídios menores será feita a partir de dezembro, com ônibus. Furukawa descartou a idéia inicial de usar aviões para o transporte.

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