Divulgação
Divulgação

'Baarìa' faz um tocante passeio pela história da Itália

Magnífico filme de Giuseppe Tornatore causou polêmica, por ter sido produzido por empresa de Berlusconi

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

17 de setembro de 2010 | 06h00

No ano passado, quando esteve em São Paulo, Giuseppe Tornatore não poupou os críticos que haviam batido em Baarìa. O filme, que estreou no Festival de Veneza, provocou um vendaval de críticas, e não apenas na Itália. Embora seja um dos melhores filmes de Tornatore - menos sentimental do que Cinema Paradiso, mais rigoroso do que Malena -, Baarìa recebeu pancadas de todos os lados porque foi produzido pela Medusa, que faz parte do grupo Mediaset, de Silvio Berlusconi.

 

É como se alguém fosse desautorizar todo o cinema brasileiro porque boa parte das produções são bancadas pela Petrobras. Baarìa é um filme crítico da história italiana - e do fascismo, do qual Berlusconi é herdeiro, portanto, o projeto já teria nascido comprometido. Esta crítica também já foi feita ao belo Vincere, de Marco Bellocchio, ainda em exibição na cidade. Interpelado pelo repórter do Estado, Tornatore retrucou que se tratava de uma imensa bobagem. Ele argumentou que a empresa Medusa produz boa parte do cinema italiano atual, sem interferir no projeto artístico dos diretores. Provocou - "Tive mais liberdade para me expressar, fazendo o filme, do que os jornalistas que tiveram de atacá-lo para satisfazer a seus patrões, contrários a Berlusconi." A propósito, a dama do mistério, Agatha Christie, tinha uma frase ótima - "Democracia é uma palavra que tem significados diferentes em cada lugar e nunca tem o sentido que lhe atribuíam os gregos."

 

Tornatore veio a São Paulo para participar da Semana Pirelli do Cinema Italiano, que tem trazido à cidade, nos últimos anos, filmes com passagem pelo Lido. Aumentou o teor das críticas o fato de o próprio Berlusconi tecer elogios a Baarìa, incentivando o público do país a vê-lo. O filme é o mais caro da carreira do diretor e também seu maior sucesso de bilheteria na Itália, onde ultrapassou folgadamente Cinema Paradiso, pelo qual Tornatore recebeu o Oscar de melhor produção em língua estrangeira de 1988 (e que é responsável, até hoje, pela reputação internacional do artista). Mais do que as diferenças entre ambos, Tornatore preferiu ressaltar o que tinham em comum - "Cinema Paradiso poderia muito bem ser um fragmento da história de Baarìa", resumiu.

 

Com o acréscimo de A Porta do Vento ao título original, Baarìa finalmente estreia hoje nos cinemas brasileiros, depois das sessões especiais no ano passado. É interpretado por Margareth Madè, uma nova estrela, muito parecida com Sophia Loren, e por Francesco Scianna, cuja reputação repousa na atividade teatral. Tornatore agradece à Medusa que lhe permitiu ter uma dupla de atores pouco conhecidos - e até desconhecidos - à frente de um filme tão caro. Eles eram perfeitos para o que queria e o cineasta bateu pé por eles. Deu certo.

 

 

 

Escrito e dirigido por Tornatore, o filme acompanha quatro décadas de história numa pequena cidade siciliana. Baarìa, não por acaso, é como os próprios sicilianos se referem, em dialeto, a Bagheria, onde nasceu Tornatore. Como isso ocorreu somente nos anos 1950, o protagonista, Peppino Torrenuova, é muito mais um ancestral do autor, seu pai. Ele começa como um menino de comportamento problemático nos anos 1930, atravessa a dura experiência da guerra, nos 40, sob o fascismo, vive seu romance proibido e casa-se com a bela Mannina, até chegar, na maturidade, à vida política, aos anos de militância no Partido Comunista Italiano.

 

Toda essa trajetória - vida e morte, amor e ódio, sexo e sentimentos - parece sob medida para sustentar a célebre definição de cinema por Sam Fuller em Pierrot le Fou (O Demônio das Onze Horas), de Godard. Tornatore jamais diria, como Shakespeare, que a vida é uma história cheia de som e fúria, narrada por um idiota e significando nada. Som e fúria, sim, mas como num campo de batalha. A vida é guerra. O herói de Fuller é um sobrevivente. O de Tornatore faz seu aprendizado muitas vezes na marra.

 

É o que une Cinema Paradiso, Malena e Baarìa, não apenas o fato de que os dois primeiros cabem no terceiro. As crianças de Tornatore amam, desejam, eventualmente são incompreendidas, mas suas história totalizam experiências humanas, de enriquecimento pessoal, que merecem ser compartilhadas. Mesmo quando elas se decepcionam (como Peppino com o PCI). Todos os temas do mundo, todas as histórias, cabem em Baarìa. A inocência da infância, a dor do amadurecimento, a morte. Por isso mesmo Tornatore reconhece que se trata de seu filme mais ambicioso também do ponto de vista intelectual. Mas ele sabe que um filme, qualquer filme, só se completa no inconsciente do público. O espectador precisa reformular, no seu imaginário, o que foi proposto pelo cineasta. Se ele não faz sua lição de casa, o filme fica incompleto.

 

Babel. No final de Baarìa há uma espécie de cacofonia. Ouvem-se diversas vozes, num efeito de Babel que não é estranho ao de certos experimentos estéticos do artista brasileiro Cildo Meirelles. Nesta polifonia, há uma voz que diz que o artista deve falar o que sabe, deve se manter fiel a suas origens e raízes.

 

Uma breve receita de integridade e honestidade em tempos de globalização. A voz pertence ao pintor siciliano Renato Guttuso e o depoimento foi colhido pelo próprio Tornatore, que o usa por um motivo muito especial. Baarìa, informa o diretor, é seu filme mais pessoal, não necessariamente o mais autobiográfico. Em Cinema Paradiso e Malena, ele já se projetou nos protagonistas, mas o que eram fragmentos nos filmes anteriores vira aqui um projeto mais amplo. Não se impressione com as possíveis críticas negativas, aqui também, a Baarìa. Em 24 anos de carreira, iniciada com Il Camorrista, O Professor do Crime, em 1986, Tornatore fez 12 filmes. Baarìa é um dos melhores (o melhor?). O cineasta concluiu recentemente o 13.º, L’Ultimo Gattopardo, Ritratto de Goffredo Lombardo, sobre o produtor de clássicos de Luchino Visconti, incluindo Rocco e Seus Irmãos e O Leopardo.

 

Crítica: Diretor sintetiza influências

Peppino coleciona fotogramas em Baaria, como outros meninos talvez colecionassem figurinhas. É uma reinvenção dos beijos que eram cortados pela censura da Igreja e que o cinegrafista reintegrava à vida do protagonista de Cinema Paradiso.

 

O novo filme de Giuseppe Tornatore totaliza uma experiência humana - e social. Mais tarde, o colecionador de fotogramas dirá, da política, que ela é bela, não importa quantas sejam as decepções que provoca. Além de cineasta - comendador das artes, por decreto do Conselho de Ministros da Itália -, ele é um cinéfilo apaixonado que amplia seus filmes anteriores, ao mesmo tempo que sintetiza os autores que mais lhe interessam.

 

É impossível assistir a essa recriação da vida provinciana, sob o fascismo, sem associá-la ao Federico Fellini de Amarcord. As décadas de história também evocam Bernardo Bertolucci, Novecento. A trilha de Ennio Morricone, o tom épico e a violência da Máfia remetem a Sérgio Leone, Era Uma Vez na América (aqui, na Sicília). O filme passa-se quase todo num quarteirão de Baaria. O mundo cabe no coração da Sicília, como os filmes anteriores de Tornatore estão dentro deste.

Mais conteúdo sobre:
TornatoreBabarìa

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.