DENIS SINYAKOV
DENIS SINYAKOV

'Ayka' retrata a luta pela sobrevivência em um infernal inverno na Rússia

Martírio de uma jovem expõe o significado do capitalismo selvagem praticado no país após fim do império soviético

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2019 | 03h00

Quem se lembra dos sofrimentos de Rosetta, personagem do filme homônimo dos irmãos Dardenne, verá que eles são nada em comparação ao martírio de Ayka, personagem que também dá nome ao filme agora em cartaz. Rosetta era uma jovem que tentava desesperadamente encontrar um emprego.

Ayka (Samal Yeslyamova) é uma cazaque sem documentos na Rússia atual, que sobrevive em empregos sórdidos, mora num muquifo indescritível e abandonou um filho na maternidade por não ter como sustentá-lo. Ainda por cima, está sendo perseguida pela máfia russa, à qual deve dinheiro; como se sabe, não é bom negócio ter dívidas com essa gente. A aproximação com os cineastas belgas se deve não apenas pelo tema – o sofrimento social de mulheres em condições adversas.

Há, também, um diálogo estético. Assim como os Dardennes, o diretor cazaque Sergey Dvortsevoy usa a câmera na mão, ao modo documental, para acompanhar de perto sua personagem e suas misérias num infernal inverno moscovita. É um trabalho frenético. 

A câmera tenta, também, registrar o sufoco do cotidiano de Ayka. Na pensão onde habita jamais vemos um plano geral, o ambiente caótico cabe de maneira concentrada nas imagens espremidas que recebemos. O efeito, ao que parece bem desejado, é claustrofóbico. 

Assim como o registro invernal da fria Moscou, coberta de neve. Não aquela neve romântica das estações de esqui, mas a neve suja que se acumula nas cidades e provoca um sofrimento adicional a seus habitantes. 

O desafio de Ayka será sobreviver nesse ambiente para lá de hostil, ainda sangrando do parto, faminta, com os seios doendo por não amamentar, devendo à máfia e com medo de ser encontrada pela polícia e expulsa do país por não ter documentos em ordem...Ufa! O tour de force interpretativo rendeu a Samal Yeslyamova a Palma de melhor atriz no Festival de Cannes de 2018. 

Tal acúmulo de sofrimentos, expostos em tom naturalista, pode provocar incômodo ao espectador. Também isso parece calculado. Se há uma ferida, um filete de sangue escorrendo, a câmera se aproxima para amplificar a dor na tela grande. As sequências na fábrica clandestina de processamento de frangos são quase insuportáveis. E assim por diante. Não se trata de esconder imagens, ou de atenuá-las pela distância ou pela rapidez da duração. Tudo se intensifica pela opção, digamos, estética do diretor. 

Ayka não é obra para desfrute, prazer ou mesmo catarse. Põe a nu, de maneira crua e dura, o significado do capitalismo selvagem praticado na Rússia após a debacle do império soviético. Não é bonito de ver. Mas precisa ser conhecido, em especial para quem acredita que o livre mercado seja a resposta para todas as perguntas e a solução de todas as angústias.

 

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