Aventura de vampiros faz a festa das crianças

Desde o clássico Nosferatu, de Wilhelm Friedrich Murnau, no começo dos anos 20, e até antes, o cinema contou muitas histórias de vampiros. Terence Fisher dirigiu uma série de Dráculas na empresa britânica Hamer nos anos 50 e 60 e houve o suntuoso Drácula de Bram Stocker, de Francis Ford Coppola, nos 90. Não se trata de enumerar aqui todos os vampiros do cinema, apenas alguns dos mais ilustres. O vampiro quase sempre assusta, mas o ato de sugar sangue sugere conotações sexuais que não passam despercebidas para os diretores. Num registro mais raro, conseguem provocar risos e aí o título mais conhecido talvez seja Dança dos Vampiros, de Roman Polanski. É nesta última tendência que se inscreve O Pequeno Vampiro, que estréia nesta sexta-feira em todo o País.Não é um lançamento qualquer. São cem cópias, todas elas dubladas, o que deixa claro que o alvo preferencial da empresa Warner é o público mirim. Pois O Pequeno Vampiro não é só uma comédia, é um filme infantil, concorrendo na mesma faixa de Xuxa Popstar, de A Nova Onda do Imperador e do inédito Tainá, que pretende ser a contribuição brasileira aos filmes de férias, nas próximas semanas. Nos EUA, O Pequeno Vampiro surpreendeu, ao faturar bem nas bilheterias. Os adultos vão achar bobo, mas as crianças, chamadas à sessão especial que a distribuidora realizou para a imprensa, na segunda-feira, divertiram-se bastante.É um filme que usa os vampiros, tradicionalmente seres do mal, para mostrar que eles podem ser do bem. Baseia-se nos personagens criados por Angela Sommer-Bodenburg na série The Little Vampire, que já vendeu 12 milhões de exemplares nos EUA e na Inglaterra. A trama exalta os valores da amizade e da família. Jonathan Lipnicki, o garotinho de Jerry Maguire, a Grande Virada, com o astro Tom Cruise - que, só para lembrar, já fez Entrevista com o Vampiro, criando um sugador de sangue ambivalente, para não dizer gay -, é o protagonista. No começo do filme, ele é alvo de chacota na escola. Americano, mudou-se com os pais para a Escócia. Não tem amigos e vive tendo sonhos recorrentes com vampiros. Surge um vampiro de verdade - bem, um menino vampiro, cujos pais tentam, há 300 anos, reverter a maldição, transformando-se em humanos, novamente. Para isso precisam recuperar um amuleto. Lipnicki, que se chama "Tony", será fundamental no processo. Mas não é fácil vencer o caçador de vampiros que encerra o verdadeiro mal da história.A Warner deveria aprender um pouco com a Columbia, ou mais exatamente, com a Buena Vista, quando distribui a produção da Disney no País. Os filmes da Disney são dublados, com técnica superior, e a distribuidora ainda coloca no mercado um certo número de cópias legendadas, o que é sempre atraente. A dublagem de O Pequeno Vampiro é fraca e prejudica mais o filme, que já não é grande coisa. Mas há toques divertidos. Os vampiros do bem sugam sangue de vaca, para poupar os humanos, e as vacas não apenas viram vampiras como numa cena penduram-se como morcegos, no curral. A vampirinha, que se enamora de Tony e vira sua primeira namorada, diz lá pelas tantas que se ele precisar dela é só assoviar. As crianças poderão passar batido, mas seus pais, se forem cinéfilos, vão se lembrar que era isso mesmo que Lauren Bacall dizia para Humphrey Bogart no cult Uma Aventura na Martinica, de Howard Hawks.E há, ainda, o vampiro punk, irmão do amigo do herói. É um rebelde desajustado que desafia o próprio pai e vira uma ameaça para todos, motivo suficiente para que use o mesmo tipo de mordaça empregado para conter Hannibal Lecter, o canibal que deu o Oscar para Anthony Hopkins em O Silêncio dos Inocentes e que ele volta a interpretar agora em Hannibal, com estréia prevista para as próximas semanas (ou meses). Esses toques não são suficientes para fazer um bom filme, mas pelo menos salvam a cara do diretor Uli Edel, que, antes de cometer essa aventura infantil, fez filmes de certa ambição, como As Noites Violentas do Brooklyn, com Jennifer Jason Leigh, e Corpo em Evidência, com Madonna, ambos tratando de sexo e violência (e elogiados, por alguns críticos).O Pequeno Vampiro (The Little Vampire) - Aventura. Direção Uli Edel. Livre.

Agencia Estado,

11 de janeiro de 2001 | 20h48

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