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Aventura cinematográfica de Buñuel para filmar 'Las Hurdes' é destaque do Anima Mundi

'Buñuel no Labirinto das Tartarugas', de Salvador Simó, é baseado na graphic novel homônima de Fermín Solís; animação é destaque de sábado, 27, no Anima Mundi

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

26 de julho de 2019 | 19h38

Las Hurdes – Terra Sem Pão é considerado uma espécie de divisor de águas na carreira de Luis Buñuel. Antes, ele havia feito na França dois filmes surrealistas – o curta Um Cão Andaluz e o longa A Idade de Ouro. Este último causara uma polêmica intensa, em especial por seu conteúdo de deboche anticlerical. Para onde ir? A leitura de uma grossa tese de Maurice Legendre sobre uma região miserável na Espanha lhe deu a pista: por que não filmar Las Hurdes, região montanhosa da Extremadura?

A animação Buñuel no Labirinto das Tartarugas, de Salvador Simó, conta a aventura dessa filmagem, realizada em 1933. O filme é baseado na graphic novel homônima de Fermín Solís e parece mesmo uma história em quadrinhos animada. Com a diferença de que, às vezes, fotogramas do verdadeiro filme Las Hurdes, se intrometem, em seu expressivo preto e branco, entre as coloridas imagens da animação. Fazem um contraponto e tanto. 

A narrativa em si é fascinante, pois fala de uma aventura cinematográfica. Buñuel queria fazer o filme mas não tinha meios. Não podia pedir mais dinheiro a sua mãe, que já havia financiado Um Cão Andaluz. Contou seu problema a um amigo anarquista, Ramón Acín. Durante uma bebedeira em Madri, Acín saiu do bar e intempestivamente comprou um bilhete de loteria. Prometeu a Buñuel que, caso ganhasse, empregaria o dinheiro no filme. Ganhou. E, para surpresa de Buñuel, cumpriu a promessa. 

A animação de Simó revela o contato da equipe com a população em diversas situações: numa sala de aula, no interior de uma das casas, em episódios dramáticos como a morte de uma criança por doença e outros misteriosos, como um burro devorado vivo por abelhas furiosas e uma cabra despencando do despenhadeiro. 

As biografias de Buñuel (como a de John Baxter) mostram que essas duas últimas ocorrências foram fabricadas. Tanto o burro como a cabra (no filme seriam duas) foram abatidos a tiros enquanto a câmera concentrava-se em registrar seu destino final. A miséria estava lá e era bem verdadeira. Mas Buñuel entendia que às vezes era preciso forçar um pouco a mão – e afastar-se da verdade para melhor revelá-la ao mundo. 

Buñuel no Labirinto das Tartarugas é a atração deste sábado, 27, no Anima Mundi, às 20h no Cine Petra Belas Artes.

 

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