Autor de "Casablanca" marcou o século de Hollywood

E o roteirista do cult Casablanca, Julius J. Epstein, não conseguiu fazer a passagem do século (e do milênio). Morreu no sábado, aos 91 anos. Mesmo assim, era o último remanescente da equipe criadora do clássico romântico preferido por 11 entre 10 espectadores. O astro Humphrey Bogart morreu nos anos 50, o diretor Michael Curtiz, nos 60, a estrela Ingrid Bergman, nos 80. Só Epstein ainda resistia.Ao longo de meio século de carreira, ele escreveu mais de 50 roteiros, muitos deles em parceria com o irmão gêmeo, Philip. Estava inativo desde 1984, quando escreveu o último roteiro, Reuben, Reuben, para uma comédia de Robert Ellis Miller com Tom Conti que lhe valeu a quarta e última indicação para o Oscar da categoria.A primeira indicação foi em 1938, quatro anos depois de iniciar a carreira de roteirista. Quatro Filhas, interpretado por Claude Rains e John Garfield, foi dirigido pelo mesmo Michael Curtiz que assinou Casablanca, o filme que valeu a Julius sua segunda indicação (e aí ele venceu). A terceira foi por Reencontro de Amor, de Martin Ritt, com Walter Matthau e Carol Burnett, em 1977. Entre os demais roteiros famosos de Julius, sozinho ou em dupla com o irmão (morto em 1952), estão os de Uma Loira com Açúcar, de Raoul Walsh, com James Cagney e Olivia De Havilland, em 1941, e Este Mundo É um Hospício, de Frank Capra, com Cary Grant e Josephine Hull, em 1944.É curioso que o Oscar tenha vindo por Casablanca, em 1942, que Julius assinou com o irmão Philip e com Howard Koch. Curioso porque qualquer pessoa que conheça o mínimo sobre os bastidores de Hollywood - e daquele clássico, em particular - sabe que Casablanca foi o produto feliz de uma soma de acasos. A empresa Warner queria fazer o filme com outros atores e só se decidiu por Humphrey Bogart e Ingrid Bergman às vésperas do início da rodagem. O próprio roteiro não foi considerado satisfatório pelo diretor nem pelos executivos do estúdio e foi sendo reescrito no dia-a-dia, à medida que avançavam as filmagens. O célebre desfecho foi uma invenção de última hora.Mesmo assim, o roteiro venceu o Oscar da categoria e ninguém acha que tenha sido um erro. Numa cena célebre, Bogart diz a Ingrid que em Paris os olhos dela eram azuis e o tempo, cinzento - evocação sutil da época em que a capital francesa estava ocupada pelos alemães. Em outra, Ingrid pergunta se aqueles sons são das batidas de seu coração, mas não - são os nazistas que invadem Hollywood. E não se pode esquecer que a frase mais célebre ligada ao filme não existe - Ingrid, aliás, Ilsa, nunca diz "Play it again, Sam". Não importa. Os fãs do filme vivem para o momento mágico em que Sam toca As Time Goes By e Ilsa e Rick (Bogart) descobrem que nunca deixaram de se amar.

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