Autor de 007 não queria Sean Connery

Deve haver algum encanto misteriosoque mantém de pé essa série, tantos anos depois e sobrevivendoaté mesmo ao fim da guerra fria, que se pensava ser seufundamento, digamos assim, histórico. Muita gente previu que,com a queda do Muro e o fim da URSS, o mundo ficaria maismatizado e não se raciocinaria mais em termos de heróis e devilões, como na série 007. Como se vê, nos tempos de Bush essetipo de previsão parece tão certeira quando a da crítica Madamede Staël: Proust passará; como o café, afirmou. De modo que, na falta de bad boys russos, entramcoreanos, iraquianos, etc. Bodes expiatórios não faltam para darcredibilidade a histórias maniqueístas. E, falando nisso, umadas passagens mais lamentáveis e estereotipadas deste divertidoUm Novo Dia para Morrer passa-se numa Cuba tropicaliente,que faria vergonha a Fulgêncio Batista. Mas o charme da série sobrevive a todos os abusos. Aliásse alimenta deles. Essas histórias tiram força de uma tradiçãoque começa lá atrás, nos anos 60, quando Sean Connery, grandeator, encarnou o primeiro 007. Teve, no filme inicial, acompanhia da bond-girl do século, Ursula Andress. E assimfirmou-se a aura desse personagem charmoso, bebedor, mulherengoe debochado. Meio cafajeste, meio irresistível. E, sim, IanFleming, criador do tipo, era bom escritor, como sabe quem leuum conto chamado de Quantum de Refrigério, no qual Bond éapenas ouvinte. Fleming escrevia bem, mas não entendia nada decinema. Quando viu Connery, previu que ele iria estragar opersonagem. Outra frase para ficar na história, como a de Madamede Staël.

Agencia Estado,

09 de janeiro de 2003 | 19h43

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