Aumento de 3% espanta greve em Hollywood

No começo da noite do dia 3, líderes dos dois sindicatos que representam 135 mil atores americanos - o Sindicato dos Atores de Cinema (SAG) e a Federação Americana de Artistas de Rádio e TV (AFTRA) - fecharam um novo contrato de três anos com a Aliança de Produtores de Cinema e TV. Esse acordo, que ainda vai ser ratificado nas próximas semanas por ambas as partes prevê um aumento imediato de 3% para o salário da categoria. As rodadas de negociação entre representantes dos estúdios de Hollywood e dos atores duraram cerca de seis semanas e colocaram finalmente um ponto final no pesadelo vivido pela indústria cinematográfica americana nos últimos meses. Desde 1980, que Hollywood não parava com uma greve. E duas das categorias profissionais mais importantes do show biz (além dos atores, roteiristas também estavam com o contrato para ser renovado) ameaçavam cruzar os braços. O impasse entre os roteiristas e os produtores americanos terminou no fim de maio. Um novo contrato de três anos foi ratificado no começo do mês passado. O acordo ajudou a suavizar a negociação com os atores. A greve, que muitos acreditavam que iria ocorrer - e levou os estúdios a acelerarem suas produções nos primeiros meses deste ano -, representaria uma calamidade para a já caótica economia da Califórnia, que teria um prejuízo de US$ 6,9 bilhões e 82 mil pessoas ficariam desempregadas.Apesar de pormenores do contrato ainda não terem sido revelado por ambas as partes, o novo contrato dos atores apresenta alguns ganhos para a categoria.O mais importante deles é o aumento de 3% no salário durante os dois primeiros anos da vigência desse acordo. Para o terceiro ano, o aumento será de 3,5%. O novo salário mínimo do sindicato para os atores com mais de quatro frases de diálogo num filme ou série de TV será de US$ 617 para 24 horas de trabalho, e de US$ 2,142 por semana. Aumentam também as contribuições das empresas-contratantes aos planos de saúde e pensão desses profissionais. Atores com salários baixos e presença limitada em filmes e séries de TV vão ganhar um adicional de US$ 5 mil por novo contrato assinado. "O principal foco das negociações foi a situação dos atores ´classe média´, e nós acabamos conseguindo arrumar a situação deles", disse Nick Counter, presidente da AFTRA.No Sindicato dos Atores de Cinema, o SAG, que tem a maior representatividade entre as duas entidades, cerca de 70 mil atores são considerados ´classe média´, ou seja, eles têm salários anuais que variam entre US$ 30 mil a US$ 70 mil. A "classe trabalhadora" constitui cerca de 6% da força deste sindicato e a remuneração, como diz o apelido, é baixa: até US$ 7,5 mil por ano. Atores que ganham mais de US$ 100 mil por ano, incluindo o clube dos milionários como Tom Hanks e Julia Roberts, que movimentam salários na casa dos oito dígitos, representam apenas 2% de todo esse contingente.Pontos controversos como o pagamento de residuais para os atores, ou seja, uma porcentagem em cima da exibição de filmes em TV a cabo, video on demand (sistema de hotéis), pay-per-view e a venda desses para a locação em vídeo e DVD; mais a exibição em mercado internacional e a venda de séries para as TVs estrangeiras, ainda permanecerão nebulosos.No caso de vídeos e DVDs, continua valendo o mesmo acordo anterior. Para cada dólar arrecadado com a venda de filmes nos formatos citados, os estúdios ficam com US$ 0,80 centavos, repassando para os atores um total de 5,4% calculado em cima dos 20 centavos restantes. Para os programas ou filmes americanos que alcançam os mercados internacionais, os atores só receberão, segundo o novo acordo, pagamentos adicionais quando eles forem vendidos por preço acima da tabela.Outro ponto debatido, e que não teve resultado favorável, foi a migração das produções de Hollywood para o Canadá e a Austrália, países onde a mão-de-obra é mais barata para os estúdios. Toronto, que vem a ser a nova Hollywood, viu, nos últimos dez anos, um aumento de 500% no número de filmes rodados na cidade. A Austrália, que recentemente construiu novos estúdios com excelente infra-estrutura, é o novo paraíso para os estúdios americanos. Calcula-se que, com o investimento de Hollywood nesses países, a economia americana perde um total de US$ 10 bilhões anuais.Entre as cláusulas desse novo contrato, existem pontos curiosos, embora ambas as partes dessa negociação ainda não revelaram publicamente o que ficou decidido. É o caso da prática da "pintura de dublês", na qual dublês caucasianos são pintados de preto ou marrom para se passarem por membros das etnias negra e latina, em cenas de ação ou das que exijam nudez não feitas pelos atores originais. O SAG decidiu exigir que os produtores contratem dublês e dublês de corpo de acordo com a etnia, idade, sexo e físico do intérprete principal.As regalias de atores do primeiro time como Mel Gibson, Harrison Ford, Arnold Schwarzenegger e Tom Cruise (que já movimentam um salário de US$ 25 milhões), ou de Julia Roberts, Jim Carrey, John Travolta e Brad Pitt (na casa dos US$ 20 milhões) não foram debatidas, embora a entourage que sempre acompanha esses nomes a cada filme geralmente signifique um custo adicional na casa dos US$ 500 mil para os estúdios.Durante as filmagens de A Letra Escarlate, fracasso da carreira de Demi Moore, o estúdio Disney teve de pagar um total de US$ 877 mil a mais para a atriz, que colocou na folha de pagamento do estúdio seu preparador físico, dois nutricionistas e babás para suas três filhas. Em algumas superproduções protagonizadas por atores como Sharon Stone e Robin Williams, eles exigiram, respectivamente, a construção de uma academia de ginástica e o uso de um jato privado. Cada hora do aluguel de um avião particular custa US$ 4,5 mil aos cofres dos estúdios, um pouco mais que o salário mensal de 70 mil atores que se digladiam por um boa oportunidade.

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