Audrey Dana ignora regras feministas e politicamente corretas em novo filme
Audrey Dana ignora regras feministas e politicamente corretas em novo filme

Audrey Dana ignora regras feministas e politicamente corretas em novo filme

'O Que As Mulheres Querem' é a versão francesa (e feminina) de 'E aí, Comeu?'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

24 Julho 2015 | 03h00

Talvez se possa dizer de O Que as Mulheres Querem que o filme – a comédia – de Audrey Dana é a versão francesa (e feminina) de E aí, Comeu? e, assim predisposto, o público pode realmente esperar o que muita gente diz da estreia. O filme é escatológico, maniqueísta... Mas talvez – também – exista um viés pelo qual todos esses defeitos possam se constituir em virtudes, senão grandes qualidades, fazendo de O Que as Mulheres Querem uma obra, no mínimo, digna de atenção e interesse.

No Rio, durante o Festival Varilux, a atriz e diretora contou a gênese do filme. “Tenho muitas amigas e nos reunimos para conversar. Saem conversas sérias, preocupações profundas, mas também muitas observações tolas e superficiais. E rimos muito, o que é sempre saudável. O filme nasceu dessa constatação. Nós, mulheres, adoramos conversar, e contamos tudo umas às outras. Você pode me dizer que os homens também fazem isso. Resolvi fazer uma enquete. Perguntei a mulheres escolhidas ao azar, sem nenhuma preocupação de fazer uma pesquisa científica, o que elas gostariam de ver num filme. Depois, entrevistei atrizes, algumas muito conhecidas, outras nem tanto, para saber que tipo de papel gostariam de fazer. Cruzei as enquetes, cheguei a um certo número de histórias e personagens, e escrevi um roteiro.”

Decididamente, não é um método muito usual de fazer um filme. Como reagiram os produtores? “Ficaram deliciados, com a garantia de que poderíamos ter um elenco estelar do cinema francês.” E foi assim que Audrey Dana fez seu filme, contando com Isabelle Huppert, Laetitia Casta, Vanessa Paradis etc. O filme é uma obra de ficção que se constrói nas bordas do documentário. O problema, e é um problema, é que Audrey ignora regras feministas e politicamente corretas. Faz uma caricatura das mulheres como muitas delas se veem. O humor, dizia Blake Edwards, é o horror filtrado pela poesia e pela beleza.

Diante de O Que as Mulheres Querem, o que o espectador tem de fazer é desistir da sutileza e ingressar num universo um tanto unidimensional, mas por isso menos hilário. Sem termos de comparação, porque o outro filme é muito melhor, pode-se lembrar que muitos ‘defeitos’ atribuídos a O Que as Mulheres Querem também foram invocados por críticos puristas sobre Relatos Selvagens, o longa do argentino Damián Szifron que acaba de vencer o premio Platino. A forma é coral, com personagens e diálogos cruzados que vão descortinando assuntos variados, do câncer de mama à solidão da mulher de negócios. O cinema mostrou tantos homens que descuidam da família absorvidos pela vida profissional que Audrey Dana se permite inverter o jogo e mostrar velhos clichês de um outro ponto de vista. A lésbica, a empresária, a solteira, a casada, a adúltera. E também a esposa infeliz, a amante sexy e a dominatrix dos negócios que irrita todo mundo com suas exigências. Trata-se de um catálogo que pode ser constrangedor do ponto de vista do politicamente correto, mas não resta dúvida que as atrizes, que escolheram fazer esses papéis, estão se divertindo com retratos que traçam com base na observação, no instinto ou seja lá o que for. Não é preciso ser gênio para constatar que, se o filme é sobre o que as mulheres querem, os homens estão presentes, e vistos do mesmo jeito. Misógino, machista? “Seria como dar um tiro no pé”, define Audrey Dana. “Conheço muita gente como as figuras do meu filme para não reconhecer que, malgré tout, são reais.”

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