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Audrey - A vez da literarura

Audrey Tautou fala dos filmes 'Thérèse Desqueyroux', que estreia sexta-feira, e 'A Espuma dos Dias'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2013 | 02h11

Para o público de todo o mundo, seu nome é indissociavelmente ligado ao fabuloso destino de uma certa Amélie Poulain. Foi o filme de Jean-Pierre Jeunet que fez de Audrey Tautou uma estrela. Ela guarda um grande carinho pela personagem, e pelo diretor. Mas Audrey Tautou, numa entrevista por telefone, de Paris, fala agora de Thérèse Desqueyroux, a adaptação do romance de François Mauriac que virou filme póstumo de Claude Miller e estreia sexta no Brasil. O cineasta morreu em abril passado, há um ano. Seu filme foi selecionado para o encerramento do Festival de Cannes de 2012. Audrey e Gilles Lellouche, um comediante popular que Miller transformou em ator dramático, encarnam o casal burguês que vive uma relação sombria. O filme fala de hipocrisia social, da condição da mulher e, principalmente, de propriedade. A terra, a mulher, tudo deve pertencer ao homem e contra isso Thérèse/ Audrey se rebela a ponto de cometer um crime, que o moralismo católico de Mauriac condena. Miller tende a ser mais ambivalente. Para Audrey, o filme e o papel são 'raros'.

Você já conhecia Claude Miller? E seu cinema?

Era adolescente quando assisti a L'Effrontée em 1985. Mais do que com a personagem de Charlotte Gainsbourg, me identifiquei com a história toda, com o mundo que Claude retratava. Mais tarde, quando comecei a fazer cinema, cruzei com ele algumas vezes. Era gentil, mas nunca pensei que um dia fosse fazer parte de sua família de cinema. Achava que não era um diretor para mim. Quando me convidou para fazer Thérèse, não pensei duas vezes. É agora!

E o romance de Mauriac? E o filme que dele tirou Georges Franju no começo dos anos 1960, com Emmanuelle Riva?

Sabia da existência do filme e do romance, mas nem um nem outro faziam parte de minhas referências. O filme não existia em DVD, o romance tinha fama de sombrio, mas não foi por isso que não o li. Trabalhei a personagem a partir do roteiro de Claude, mas terminei por ler o livro, que me impressionou muito.

Filme e livro discutem a burguesia por meio da questão da propriedade, em todas as suas formas. Passam-se em boa parte no teatro da natureza, mas o horizonte é fechado pelos bosques de pinho que terminam por aprisionar as pessoas. O que lhe digo faz sentido?

Completamente. Claude foi claro comigo - queria, por meio de Mauriac, colocar seu estilo clássico a serviço de uma causa moderna, o feminismo. Ele começa o filme com o encontro entre Thérèse e a futura cunhada. Ambas são muito jovens e o prólogo tem o sentido de um adeus a um mundo que ainda não se fechou em regras fixas. Por meio do casamento, Thérèse torna-se propriedade do marido. É uma mulher distante e seca. Não é mesquinha e é mesmo muito inteligente, mas se cala por força das convenções sociais. A família burguesa em que vive é monstruosa. Por detrás das aparências, do luxo, há uma violência que a oprime e contra a qual se rebela.

Apesar das tentativas libertárias de Thérèse e da cunhada, o filme se constrói como um cerimonial de tons fúnebres realçado pelas notas ao piano do andante de Franz Schubert. Você tinha consciência, ao filmar, de que isso ia ocorrer?

Em todo o mundo, e não apenas na França, os quadrinhos substituíram a literatura no cinema atual. A psicologia das personagens tende a ser bidimensional. Claude nos permitiu, a Gilles e a mim, encarnar a complexidade. Como atriz, não tinha controle nenhum sobre sua mise-en-scène, mas esse cerimonial fúnebre a que você se refere foi o que mais me atingiu quando comecei a ver o filme, mesmo ainda não finalizado. Claude respeita o moralismo de Mauriac, mas de uma maneira muito pessoal não pactua com ele. Seu filme liga-se a um cinema francês clássico, mas sem ser passadista. Gilles brinca dizendo que está na moda ser clássico. Eu retruco que a modernidade existe para ser superada.

Mudando o teor da conversa, você sonhava se converter nesta grande estrela francesa?

Estrela, eu? (Risos) Estrelas são Catherine Deneuve e Juliette Binoche. Ou a eterna Jeanne Moreau. Não me considero uma estrela. Sou mais uma operária do meu trabalho. Mas gosto do que faço, e é um privilégio encontrar pessoas como Claude. Gosto de imaginar que ele ficou satisfeito e continuaria a parceria, se não tivesse morrido tão cedo.

Incomoda-a, depois de tanto tempo, ainda ser identificada por Amélie Poulain?

Por que me incomodaria, se o filme foi importante para mim, me abriu portas? Amélie pode ser mais aberto para a fantasia, como forma de temperar as agruras do cotidiano, mas há ali uma reflexão sobre a mulher e seu destino que acho que as pessoas negligenciam. É uma outra maneira, não sei se mais otimista, de encarar e iluminar a luta sombria de Thérèse.

Você acaba de filmar outro clássico da literatura, L'Écume des Jours, de Boris Vian, que já foi filmado nos anos 1960. Desta vez conhecia o livro, ou o filme?

Só o livro, e foi uma experiência fascinante, embora distinta da de Thérèse. Boris foi marcado pelo surrealismo e pelo anarquismo, que lhe forneceram suas bases estéticas e políticas. Fazendo A Espuma dos Dias tinha a impressão de estar num universo inventado, surreal, mas no qual as coisas fazem sentido em relação ao mundo atual. Michel Gondry é um diretor que trabalha divinamente nesse registro. Tinha a mesma impressão em Thérèse. Claude poderia ter transferido a ação para a época contemporânea, mas se o fizesse teria perdido a riqueza e beleza do filme de época, que lhe serviram tão bem, Como atriz, considero-me privilegiada por participar desses dois filmes.

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