'Attila Marcel' e o rito de passagem

A mítica Bernadette Laffont ilumina a live action de Sylvain Chomet

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

15 de outubro de 2014 | 03h00

Sylvain Chomet virou uma promessa - um grande? - da animação quando As Bicicletas de Bellevue foi indicado para o Oscar de animação, em 2003. Depois disso, vieram O Mágico (L’Illusioniste) e o episódio de Paris, Eu Te Amo. E agora Attila Marcel. Chomet ama as histórias leves, os personagens bizarros. Tal como é interpretado por Guillaume Gouix, Paul, o protagonista de Attila Marcel, parece ter fugido de um filme de Wes Anderson. Ele não apenas não fala como se veste com um figurino extravagante.

Talvez se possa considerar que esse personagem de live action, pertencente ao mundo real, seja um trânsfuga das animações anteriores do diretor. Na trama de Attila Marcel, Paul foi criado por duas tias falastronas depois de ser abandonado - sem explicação - pelos pais. O abandono gerou um trauma. Paul é solitário. Expressa-se por meio da música, e as tias gostariam de vê-lo ganhar um concurso de piano. Aos 33 anos, mas com uma alma de menino, ele pratica com intensidade, mas nunca chega lá. É quando entra em cena Madame Proust. A vizinha, que não se chama assim por acaso, vai revirar as lembranças de Paul em busca de flash-backs (e do tempo perdido) para que ele se libere, ou se aparelhe para a vida.

Marcel (Proust), com seu tempo reencontrado por meio das madeleines, é uma referência, mas não a única de Chomet. Ele, com certeza, reverencia Jacques Tati, o autor de Meu Tio. Cinéfilos de carteirinha sabem de quem estamos falando, mas não custa buscar auxílio no que Jean Tulard escreve no Dicionário de Cinema. Filho de um embaixador do czar em Paris, Tati teve sólida educação artística e esportiva. Ambas transparecem seu personagem-símbolo, um tipo meio abobalhado, como escreve Tulard, seja ele o carteiro de Carrossel da Esperança ou o ‘tio’. Com movimentos de dançarino silencioso, M. Hulot - é seu nome - não fala. Para Tati, é o indivíduo perante, ou contra, a multidão que ameaça reduzi-lo a seu anonimato.

Paul é cria de Tati e Chomet encontrou em Guillaume Gouix o ator perfeito para o papel. Mas o filme tem as mulheres que cercam o herói, e entre elas Bernadette Lafont, que faz Tante Annie. Bernadette morreu em julho do ano passado, aos 74 anos. Havia se transformado numa das mais sólidas e eficientes coadjuvantes do cinema francês, com extensa contribuição também no teatro e na TV. Mas, na memória do cinéfilo - e a memória é essencial em Attila Marcel -, ela será sempre um dos mitos sexuais da nouvelle vague, a estrela de François Truffaut e Claude Chabrol no começo da carreira de ambos.

Apesar de um certo charme - tênue -, a história de Attila Marcel não é tão bem delineada como as das animações de Sylvain Chomet. O visual, no estilo HQ, é atraente, mas a entrada de Paul no mundo adulto é meio inconsistente e não convence. 

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