Atrizes falam do longa 'Irmã Dulce', de Vicente Amorim

Regina Braga e Bianca Comparato vivem a religiosa em diferentes fases; filme disputa espaço com 'Jogos Vorazes'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

26 de novembro de 2014 | 03h00

Ambas têm projetos ligados à poesia. Regina Braga quer estrear na direção fazendo um filme sobre a correspondência da poeta Elizabeth Bishop. Bianca Comparato sonha há tempos com um filme sobre Ana Cristina César, considerada, talvez, o maior nome da geração mimeógrafo dos anos 1970 e que se suicidou em 1983. As duas compartilham algo mais, além da poesia – fazem diferentes momentos da vida de Irmã Dulce no longa de Vicente Amorim sobre a religiosa baiana que estreia no Centro/Sul do País. Já em cartaz no Norte e Nordeste, Irmã Dulce vai ocupar um total de 108 salas. É pouco para seu tamanho – e até ambição –, mas o circuito está tomado por Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1.

Regina já interpretou personagens reais – Chiquinha Gonzaga, a própria Bishop. Mas nunca lhe ocorreu algo como em Irmã Dulce. “De repente, realidade e ficção se misturaram na minha cabeça. Numa cena, eu tinha de abraçar um dos pobres da irmã, e fazer o gesto da cruz sobre ele. Essa pessoa havia sido abençoada pela própria Irmã Dulce e, ao reproduzir o gesto, querendo ser verdadeira, tudo se misturou para mim. Nunca havia experimentado isso antes. Foi muito forte.”

É a primeira vez que Regina carrega um filme, e isso também é novidade. Bianca conta como foi forte seu envolvimento com o papel. “Foi muito importante que o (diretor) Vicente (Amorim) tenha nos escolhido com antecedência. Regina e eu viemos para Salvador, percorremos as obras assistenciais de Irmã Dulce, ensaiamos juntas, conversamos com muita gente que a conheceu. Foi tudo muito intenso. Já havia lido muito sobre ela, visto as imagens, e havia o próprio roteiro, mas o fato é que, nos preparando juntas, compartilhando experiências, Regina e eu criamos a mesma personagem, e era isso que Vicente e (a produtora) Iafa (Britz) queriam.”

Logo no começo da missão de Irmã Dulce, um médico diz que ‘essa moça’ não vai viver muito. Seus problemas respiratórios antecipam pouco tempo de vida. Mas, apesar da dificuldade para respirar que a deixava ofegante, e representava esforço adicional à sua luta diária pelos pobres, Irmã Dulce viveu bastante. Ela começa menina, vivendo a experiência da descoberta da pobreza com a mãe (Glória Pires, numa participação realmente especial), vira Bianca e, de repente, de maneira quase imperceptível, é como se Bianca saísse por uma porta e Regina entrasse pela outra. A continuidade não só é sutil, como perfeita. As duas atrizes foram tocadas pela personagem.

“Nesse momento do País, é muito importante voltar a Irmã Dulce”, observa Bianca. “O Brasil saiu dividido da eleição (para presidente). Vi coisas que me doeram muito. Acusações graves, uma verdadeira guerra verbal de pobres e ricos. E a Irmã Dulce vivia isso. O compromisso dela era com os pobres, a quem se dedicou.” Regina acrescenta – “É um exemplo de dedicação como nunca vi. E não é uma caridade ofensiva nem culpada. Ela se dedica porque é o correto. Há uma questão ética em Irmã Dulce que permanece atual. Não foi por acaso que ela teve todos aqueles problemas e enfrentou resistência dentro da própria Igreja.”

Havia momentos em que as atrizes se angustiavam, “Ela não tinha curva (dramática). Pedia ao Vicente – será que ela não tem de duvidar mais, de vacilar mais? A decisão dele (e dos roteiristas L.G. Bayão e Anna Muylaert) de fazer a curva por meio de outros personagens, o filho, a madre superiora, parecia arriscada, mas deu muito certo”, avalia Regina, emocionada depois de assistir à pré-estreia do filme, em Salvador.

QUEM É

Irmã Dulce - Religiosa

Nascida Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes (1914- 1992), em Salvador, dedicou a vida aos pobres e ajudou a criar instituições de amparo aos necessitados. Foi indicada para o Nobel da Paz (1988) e beatificada por Bento XVI (2011).

ENTREVISTA - Vicente Amorim (Diretor)

Forte, intenso. Vicente Amorim conta como foi colocar na tela a vida de Irmã Dulce.

Seu filme faz um recorte bem amplo, da infância até os anos 1980. Como foi isso?

Iafa Britz (a produtora) me convidou para dirigir há três anos, mas não pude aceitar, por um problema de agenda. O filme atrasou, ela voltou há um ano com o convite e aí deu certo. Já tinha lido as duas biografias, pesquisado. Me embasei bastante, mas vale a advertência que Richard Attenborough colocou em Gandhi. Nenhum relato pode dar conta de uma vida inteira. O que tentamos fazer foi achar o caminho para o coração de Irmã Dulce.

Existem duas cenas em que, menina e adulta, ela arranha paredes. Não deve ser coincidência. Vêm de Hiroshima, Meu Amor. Por quê?

Não, não é coincidência. E Hiroshima é meu filme preferido de todos os tempos. Trabalha com a memória, a lembrança. Tudo isso está em Irmã Dulce.

Há uma perturbação quase erótica quando ela toca a barba do acordeonista. Por quê?

É erótico, mas não sensual. Irmã Dulce tocava muito as pessoas. Quis guardar isso.

Por que tantas histórias reais em sua carreira?

É o que me move. Histórias de gente, e sempre tentativas de organizar o caos.

 

CRÍTICA 

Filme é popular e organiza o caos do Brasil

Há um momento admirável em Irmã Dulce, o filme. Preocupada com o filho, que sumiu na noite de Salvador, a religiosa o procura no candomblé, onde João foi fechar seu corpo. Para surpresa de todos, adentra o terreiro. Troca olhares/palavras com a senhora dos orixás. Entendem-se. Respeitam-se. A cena não é só uma licença poética. Ocorreu de verdade, mesmo que João, o filho, não seja um, mas a síntese dos centenas/milhares de Joões a quem Irmã Dulce deu uma vida. 

Mais tarde, Irmã Dulce vai ao encontro do papa. A cúpula da Igreja tentou afastá-la de João Paulo II. João, o filho, liderou um movimento popular e o encontro com o papa, na verdade, é o reencontro com o filho. Duas belas cenas. O cinema brasileiro tem contado biografias, mas os filmes, embora bem feitos (Não Pare na Pista – A Melhor História de Paulo Coelho, Tim Maia, Trinta), não têm acontecido. Podem-se identificar os motivos – um problema de recorte, na hora de selecionar o que contar –, mas uma facilidade talvez seja dizer que o público prefere as comédias aos dramas. Os maiores sucessos de bilheteria do cinema nacional são dramas embasados na realidade – Tropa de Elite 1 e 2, 2 Filhos de Francisco. Mas parece uma temeridade fazer um filme sobre Irmã Dulce.

A vida dela foi uma luta sem-fim pelos pobres, mas não oferece aquilo que se chama de ‘curva dramática’. O diretor Vicente Amorim e seus roteiristas (L.G. Bayão e Anna Muylaert) se valem de personagens secundários para criar a curva. Arriscam-se. Por algum milagre, conseguem. Irmã Dulce é um grande filme ‘popular’. A questão de sempre – fará sucesso? Bianca Comparato e Regina Braga são extraordinárias no papel, Amaurih Oliveira, que faz João, é uma revelação e você vai odiar a madre ressentida de Irene Ravache, de tão bem que ela faz a personagem. Os cuidados de produção são imensos. Mas a interrogação permanece – você vai querer ver esse filme?

Vicente Amorim teve tempo de pensar no que e como fazer. Buscou suas referências. Menina, a futura Irmã Dulce arranha a parede do barraco ao ser levada pela mãe para conhecer a miséria. Adulta, arranha com as unhas outra parede, ao se dirigir ao encontro com o papa. Emmanuelle Riva fazia isso numa cena-chave de Hiroshima, Meu Amor, de Alain Resnais. Casta, casada com Cristo, Irmã Dulce sente uma perturbação ao reencontrar o acordeonista de sua infância. Toca-lhe a barba com delicadeza – para lembrar, como diz a madre, que é mulher? É um belo filme, e como todos de Vicente Amorim fala de uma tentativa de organizar o caos do mundo. O caos do Brasil. O final meio que institucionaliza o propósito, mas no reencontro com o papa, a troca agônica de olhares desenha a morte dela e o que vai ser o sofrimento dele. Irmã Dulce, o filme, merece fazer sucesso.


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