Paula Prandini|Divulgação
Paula Prandini|Divulgação

Atrizes brasileiras já foram premiadas em festivais no exterior

Sonia Braga, que está no elenco do filme 'Aquarius', pode ser a próxima a receber o prêmio no 69º Festival de Cannes

Amilton Pinheiro, Especial para O Estado de S. Paulo

22 de maio de 2016 | 07h00

O Festival de Cannes encerra sua 69.ª edição neste domingo, 22, a partir das 19 h, horário local (14 h no Brasil). Entre os concorrentes à tão desejada Palma de Ouro, o Brasil está no páreo novamente, desta vez, com o filme de Kleber Mendonça Filho, Aquarius. Mas, caso não ganhe, pode emplacar um prêmio de interpretação pelo elogiado trabalho de Sonia Braga, que vive Clara, uma ex-crítica musical que mora em um prédio no Recife cobiçado por uma imobiliária que quer derrubá-lo para construir um edifício mais moderno. 

Há exatos 30 anos, o cinema nacional ganhava pela primeira vez dois importantes prêmios internacionais de interpretação, que projetariam duas atrizes brasileiras: Marcélia Cartaxo, que venceu o Urso de Prata no Festival de Berlim, em fevereiro de 1986, por sua Macabéa de A Hora da Estrela, de Suzana Amaral, dividindo o prêmio com a atriz francesa Charlotte Valandrey, por Rouge Baiser; e Fernanda Torres, que também dividiria o prêmio de atriz no Festival de Cannes, por Eu Sei Que Vou Te Amar, de Arnaldo Jabor, com a alemã Bárbara Sukowa, por Rosa Luxemburgo, em maio do mesmo ano.

“Um prêmio desse é importante na carreira de qualquer atriz, ainda mais para mim que só tinha feito teatro amador”, conta Marcélia. Apesar de o prêmio abrir as portas para a carreira que se iniciava no Brasil, houve muita cobrança em cima dela para que outros trabalhos tivessem a mesma projeção. “Eu me sentia muito pressionada, principalmente por não ter experiência nem maturidade naquela época”, revela.

Para Fernanda Torres, que já tinha feito outros trabalhos antes do filme Eu Sei Que Vou Te Amar, a pressão foi para que tentasse uma carreira internacional. “Mesmo eu tendo ganhado em Cannes, Eu Sei Que Vou Te Amar não estourou lá fora. Fiquei com o prêmio nas mãos e diziam que eu devia tentar uma carreira no exterior. Não dominava o inglês e era muito nova. Para fazer isso, teria que me mudar para os Estados Unidos, ficar fazendo testes e mais testes”, disse a atriz, em uma entrevista concedida em 2009.

Ela chegou a fazer um filme falado em inglês, One Man’s, War (A Guerra de Um Homem Só), em que contracenava com Anthony Hopkins e a atriz argentina Norma Aleandro, com direção de um brasileiro, Sérgio Toledo, que tinha feito o filme Vera, com Ana Beatriz Nogueira, em 1987. “Fiz esse filme sem nenhuma pretensão em seguir uma carreira internacional, não falava inglês com fluência na época e o cinema no Brasil estava morrendo com a extinção da Embrafilme. Acertadamente decidi fazer teatro com Bia Lessa, que me ajudou a tomar consciência do meu ofício de atriz”, explicou Fernanda, na mesma entrevista.

As atrizes brasileiras continuariam conquistando prêmios nos festivais internacionais. Em 1987, Ana Beatriz Nogueira conquistaria outro Urso de Prata para o País, pelo seu desempenho em Vera, de Sérgio Toledo. “Quando o filme passou lá e destacaram meu trabalho na imprensa, os jornalistas lamentavam que não receberia o prêmio, pois seria muito difícil premiarem outra atriz brasileira em dois anos consecutivos”, lembra Ana Beatriz. Além disso, ela conta que concorria com atrizes de peso como Anne Bancroft, Sissy Spacek e Marlee Matlin, que venceria poucos dias depois o Oscar pelo filme Filhos do Silêncio.

Assim como Fernanda Torres, Ana Beatriz nem cogitou tentar uma carreira internacional. “Era meu primeiro trabalho como atriz profissional. Queria voltar para o Brasil e continuar fazendo filmes aqui e divulgá-los lá fora”, diz.

O Festival de Berlim reservaria o terceiro Urso de Prata para outra brasileira, agora para Fernanda Montenegro, por Central do Brasil, de Walter Salles, em 1999. É uma das grandes atuações de Fernanda, que lhe valeu ainda uma indicação para o Oscar.

Sandra Corveloni, que venceu em Cannes, em 2008, por Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas, disse que o prêmio abriu as portas para fazer mais filmes no Brasil, já que vinha do teatro. “As pessoas do palco que conhecia ficaram emocionadas e representadas por mim depois de Cannes”, conta. Assim como as outras atrizes premiadas em Berlim e Cannes, Sandra não se esforçou para fazer carreira no exterior.

O cineasta Walter Salles (leia abaixo) tem uma explicação para isso: “Não me parece que essas atrizes premiadas almejaram uma carreira fora do Brasil. Esse movimento para o exterior sempre foi mais comum entre diretores e fotógrafos”.

 

ENTREVISTA, Walter Salles, cineasta 

‘Prêmios de atuação são representativos

Você dirigiu duas atrizes premiadas: Fernanda Montenegro, em Central do Brasil, e Sandra Corveloni, em Linha de Passe, codirigido por Daniela Thomas. Como foi dirigi-las?

São dois filmes distintos, com um ponto em comum. Tanto Fernanda quanto Sandra foram formadas no rigor do teatro. Central do Brasil foi pensado e construído em torno da Fernanda. É a atriz mais brilhante com quem trabalhei. Sandra fazia seus primeiros filmes. E Daniela Thomas conduziu um minucioso processo de preparação que foi fundamental para o filme.

De que forma os prêmios internacionais recebidos por essas atrizes ajudaram a divulgar o cinema nacional (além de Fernanda Montenegro e Sandra Corveloni, estão na lista Marcélia Cartaxo, Ana Beatriz Nogueira e Fernanda Torres)?

Prêmios em festivais internacionais prolongam a vida de um filme e, quando esses filmes fazem parte de um movimento, põem em evidência toda uma cinematografia. Considero os prêmios de atuação especialmente importantes e representativos. Falam em talentos individuais excepcionais, mas também de escolas de representação, de uma forma específica de refletir a diversidade cultural de um país.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.