Atriz Sabrina Greve encontra o gesto essencial em "Uma Vida em Segredo"

Há anos Suzana Amaral sonhava com aadaptação do romance de Autran Dourado. Ela queria fazer UmaVida em Segredo logo após o sucesso de A Hora da Estrela,em 1985. Chegou a escrever o roteiro, mas a produção emperrou,os direitos caducaram e ela se envolveu na aventura de O CasoMorel. Foram anos de tentativas para adaptar o livro de RubemFonseca. Não deu certo e Suzana voltou a Uma Vida emSegredo. Fez um filme belíssimo. Ela própria acha que é melhordo que A Hora da Estrela - mais maduro como reflexão, maisacabado como realização. Talvez tenha razão, mas essa, claro, é uma opiniãosujeita à controvérsia. Afinal, A Hora da Estrela virou umaunanimidade ao colocar na tela o universo de Clarice Lispectorcom delicadeza e sensibilidade. Marcélia Cartaxo foi melhoratriz no Festival de Berlim. Tudo isso soma a favor do outrofilme, mas Uma Vida em Segredo é muito bom. E, por falar ematriz, Sabrina Greve não é menos perfeita no papel. Suzana conversa com a reportagem no bar do EspaçoUnibanco. O local não poderia ser mais adequado: um templo docinema. Suzana era uma dona de casa. Cuidava do marido, dosfilhos. E curtia o cinema. O marido e ela viam filmes todos osdias. Aos 40 e alguns anos ela resolveu que queria ser cineasta.Entrou para a Universidade São Paulo, a USP, e integrou aprimeira turma a formar-se na Escola de Comunicações e Artes, aECA. Mas ainda não se sentia segura para enfrentar o desafio dadireção. Foi para os EUA, estudar na New York University. Já erauma senhora de 50 anos. Tinha colegas de aula jovenzinhos, nofim dos anos 1970. Querem os nomes? Ela fornece: Jim Jarmusch eBarry Sonnenfeld. Nossa diretora gosta dos personagens tortos. Põe na telaas pequenas vidas, pessoas sofridas. A Macabéia de Clarice eramiudinha, triste. A nova personagem é espichada, mas experimentaum mal-estar parecido no seu estar no mundo. Chama-se Biela. Éum bicho-do-mato, que quando o filme começa está indo morar nacidade com os primos. A prima tenta "civilizar" Biela.Compra-lhe roupas novas, ensina-a a usar o garfo e a faca,arranja até um pretendente, mas essa termina sendo umaexperiência desastrosa para Biela. Ela se sente mais à vontade nacozinha, com a caseira. E se liga a um cão abandonado. Não parece muita coisa e Suzana, com certeza, não estáinteressada em modismos, nem em satisfazer a necessidade de açãoe violência do público que reza pela cartilha de Hollywood. Seuregistro é mais lento, mais intimista, algo mais próximo docinema iraniano, talvez, embora a diretora esteja obcecada poridéias que a aproximam mais do mestre francês Robert Bresson.Como ele, Suzana quer fazer um cinema despojado, onde o menos,como ela diz, é mais. É um daqueles filmes que se constroem edesenvolvem em torno de um quase nada que termina significandotudo. Em A Hora da Estrela, Suzana dirigiu MarcéliaCartaxo de acordo com os princípios da escola de Stanislawski,que originou o Método, o estilo de representação que LeeStrasberg instituiu no Actor´s Studio. Hoje em dia, Suzana estáinteressada em outra coisa. Acha que o ator não deve interpretar, que o diretor deve esculpir o personagem nos seus olhares, nosseus silêncios, em certos gestos essenciais. Ela não tinhaidéias preconcebidas quanto à atriz que deveria fazer Biela. Mas, como diz, tem um anjo da guarda e ele gosta de cinema.Por umaquestão de afinidade com o método, que define como zen-budista,do diretor de teatro Antunes Filho com seus atores, ela bateu àsportas do CPT, o Centro de Pesquisas Teatrais. Descobriu SabrinaGreve. É maravilhosa. A emoção sem concessão que Uma Vida emSegredo provoca passa pela interpretação dessa atriz.

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