Atriz mexicana fala sobre polêmica

Quando leu pela primeira vez o roteiro de O Crime do Padre Amaro, a atriz Ana Claudia Talancón não podia imaginar que a produção inspirada no romance homônimo do português Eça de Queiroz estrearia sob protestos no México. A Igreja Católica não só abominou o longa-metragem como "condenou ao inferno" os que se atreveram a vê-lo no cinema. Isso porque o título retrata as tentações morais e carnais de um jovem sacerdote que engravida uma garota da paróquia e a encoraja a fazer um aborto."Por ser uma obra de ficção, não esperava que a Igreja se sentisse agredida", disse a atriz mexicana de 22 anos, escolhida para interpretar Amélia, a protagonista feminina. Mas ela não reclama da polêmica. Graças aos ataques dos religiosos mais fervorosos, que saíram às ruas pedindo que o filme fosse boicotado, O Crime do Padre Amaro é um fenômeno de bilheteria no México, onde foi visto por mais de 5 milhões de espectadores. "Por conta da reação exagerada, as pessoas tiveram ainda mais curiosidade para assisti-lo."Aliada à qualidade artística, a controvérsia ainda garantiu à produção assinada pelo cineasta Carlos Carrera ser a representante do país na próxima edição do Oscar. O drama que estréia na sexta-feira nas telas brasileiras também foi eleito um dos cinco melhores filmes estrangeiros de 2002 pela National Board of Review e concorre ao Globo de Ouro da categoria na cerimônia marcada para o domingo, em Los Angeles.Em entrevista concedida à Agência Estado, no Rio de Janeiro, Ana Claudia falou do novo longa, das expectativas de premiação e da experiência no Brasil, onde acabou de rodar a versão latina da novela Vale Tudo, da "Globo". Caiu nas mãos da atriz o papel de Maria de Fátima, antes interpretado por Glória Pires. "As personagens nas novelas brasileiras são mais humanas que as vistas nas mexicanas. Nós temos a tendência de deixá-las muito melodramáticas."Agência Estado - Qual foi a sua reação ao receber o roteiro de "O Crime do Padre Amaro"? Pôde prever a polêmica?Ana Claudia - Eu me apaixonei pela simplicidade e pela força de Amélia. Não pensei na polêmica que o filme poderia causar. Naquele momento se alguém me dissesse que a produção despertaria tantos protestos, eu jamais acreditaria. Fui atraída pela paixão de Amélia pela vida e pela confusão que ela cria entre o amor divino e o amor carnal. Ao se apaixonar pelo padre (vivido por Gael Garcia Bernal), com quem compartilha a devoção a Deus, ela mergulha nos sentimentos, sem se importar com as conseqüências. Há algum padre na sua família? E como ele reagiu ao ver o filme?O irmão de minha avó trabalha na igreja como sacristão, mas ele não viu o filme. Disse que seria pecado vê-lo. Infelizmente, foi o único da minha família que reagiu assim. Tentei convencê-lo a mudar de idéia, lembrando que a realidade é muito pior. Mencionei os escândalos de abuso infantil por padres nos EUA, por exemplo.Durante a polêmica no México você estava no Rio gravando a novela. Como foi acompanhar tudo de longe?Por um lado, me sentia perdendo o melhor da festa (risos). Mas ao chegar no México para comparecer à pré-estréia, pude ver de perto o que estava realmente acontecendo. Logo ao deixar o avião já vi manifestantes com cartazes que diziam "Não vejam o filme". Depois vi um grupo de freiras marchando nas ruas e gritando que O Crime do Padre Amaro era um pecado. Também ouvi boatos de atentado com bombas nos cinemas que exibissem a produção.Acredita que "Crime" fará os mexicanos renovarem o voto de confiança na produção local? Principalmente após "Amores Perros", que revitalizou o cinema recentemente.Acredito em uma nova era de ouro do cinema mexicano. Nós só precisamos investir mais nessa fórmula. Ou seja, fazer filmes de orçamento relativamente baixo, mas com qualidade artística. Não foi apenas a polêmica que garantiu a visibilidade de Crime, tanto no México quanto no exterior. A empatia do público também se deve ao fato de o filme ser atual. Embora seja baseado em livro escrito no século 17, ele faz uma releitura daqueles problemas, ambientando a história nos dias de hoje. Além da questão do celibato imposto aos padres, que deveria ser revisto, discute o tráfico de drogas.Antes de Salma Hayek migrar para Hollywood, contracenou com ela em alguma novela no México?Não. Tenho admiração por Salma, principalmente por ela ter reaberto as portas para as atrizes latinas nos EUA. Como Dolores del Rio fez há muito tempo. Graças a Salma e algumas outras de língua espanhola, Hollywood se deu conta do mercado latino. Quero muito ver Frida, em que ela retrata a lendária pintora mexicana.Só o fato de Abril Despedaçado ter sido exibido em Hollywood garantiu a Rodrigo Santoro uma ponta em As Panteras 2. Como Crime promete estar entre os cinco finalistas para o Oscar de melhor filme estrangeiro neste ano, sua exposição será ainda maior. Está preparada?Não quero pensar nisso ainda. Só de pensar me dá um friozinho na barriga. Se acontecer mesmo, terei de escolher muito bem o próximo projeto. Não quero dar um passo em falso. Por enquanto, tenho propostas para rodar filmes no México, na Espanha e no Peru. Com Hollywood, existem apenas possibilidades.Como conseguiu o papel de Maria de Fátima em "Vale Todo" (exibido nos EUA no canal "Telemundo", voltado à comunidade de língua espanhola)?Soube que a "Telemundo" faria uma versão falada em espanhol do maior sucesso da "Rede Globo" no mercado latino, Vale Tudo, quando estava na Argentina, fazendo outra novela. Fui procurada por Herval Rossano, que me escolheu para viver a personagem com base em outras novelas que eu tinha feito. Não fiz teste. Depois de gravar a novela no Rio por oito meses, o que mais difere o gênero no Brasil, em comparação com a produção no México?O realismo dos personagens e a espontaneidade dos atores. No México, as personagens são muito melodramáticas e unidimensionais. A boa é boa e a má é má. A dramaturgia brasileira é mais real, aproximando os personagens de nós mesmos. Maria de Fátima podia ser irônica, mentirosa e, ao mesmo tempo, verdadeira. O ritmo de trabalho no Brasil também é melhor. Como protagonista de uma novela mexicana cheguei a gravar 40 cenas em um dia, trabalhando das 8h às 23h. No Brasil, os atores têm tempo para decorar o texto. Lá, usamos um ponto no ouvido, recebendo as nossas falas na própria cena. Isso tira completamente a espontaneidade.

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