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Atriz Marion Cotillard tem interpretação devastadora em filme dos irmãos Dardenne

'Dois Dias, Uma Noite' chega aos cinemas brasileiros nesta quinta, 5

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

05 de fevereiro de 2015 | 03h00

 Talvez haja poucos cineastas preocupados em tratar de um tema tão prosaico quanto fundamental que é a manutenção do emprego num mundo em crise. Os irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne estão interessados nesse tipo de discussão. Filhos (ou netos, talvez) do neorrealismo, sabem da importância do trabalho não apenas na manutenção material da vida como na dignidade da vida humana. Daí terem feito este Dois Dias, Uma Noite, com interpretação devastadora de Marion Cotillard.

Sandra é uma funcionária em via de perder seu emprego para que seus colegas de empresa possam usufruir de um bônus de  1.000. O título se refere ao tempo de que ela dispõe – o tempo de um fim de semana – para procurar os colegas, um a um, e tentar convencê-los a desistir da gratificação para que ela possa permanecer no posto.

A quantia da prime escolhida pelos diretores não parece indiferente ou aleatória. Mil euros, aproximadamente R$ 3 mil, é uma boa quantia. Não enorme, suficiente para mudar uma vida, nem tão desprezível a ponto de ser facilmente descartada. É nessa linha limite que Sandra terá de lutar, para fazer seus colegas desistirem de um petisco nada negligenciável, porém não vital. Na verdade, essa quantia limitada de euros mede simbolicamente o valor da solidariedade. Esta é uma palavra bonita, sempre na boca das pessoas. Mas a quanto estaremos prontos a renunciar para colocá-la em prática? Eis a (incômoda) pergunta do filme.

A estratégia narrativa é bem eficiente e permite retratar o conjunto de atitudes diferentes que existem na relação com o outro. Desde o inegociável “eu não vou perder dinheiro para te beneficiar” à do imigrante que deve votar com a maioria para não despertar preconceitos. Ou a da mulher que evita entrar em conflito com o marido. Ou das provas de companheirismo que vêm de onde menos se espera.

Sandra encontrará de tudo em sua jornada. As cenas parecem algo repetitivas. Ela aborda os colegas quase sempre com as mesmas palavras, dizendo que sabe como o dinheiro é importante, mas pedindo um sacrifício para que ela possa manter seu emprego, vital para ela. E aqui entra em cena a extraordinária atriz que é Marion Cotillard, capaz de apresentar nuances de comportamento em situações aparentemente iguais e, com isso, evitar qualquer risco de tédio pela repetição.

Despojada, sem maquiagem, sem charme, Marion tensiona a história para outros limites. O emprego, em seu caso, não significa apenas sobrevivência material, mas também a segurança espiritual, psicológica. É tudo isso que está em risco, mas a dificuldade é fazer com que os outros compreendam. É um mundo novo, desvendado pelos Dardenne. O conceito de solidariedade, dado óbvio na cultura operária de décadas atrás, hoje precisa ser rediscutido. Tornou-se dilema moral e mesmo opção individual, porque talvez essa cultura não exista mais, ou apenas em sua forma residual.

 

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