Atriz Julianne Moore diz que voltará ao Brasil em breve

Em entrevista ao 'Estado', atriz fala que São Paulo 'é uma cidade muito cosmopolita e atraente'

Luiz Carlos Merten, enviado especial a Cannes,

08 de maio de 2016 | 17h54

Julianne Moore anuncia que em agosto estará de volta ao Brasil, para participar das entrevistas de lançamento de Blindness, ou melhor, Ensaio sobre a Cegueira, que Fernando Meirelles adaptou do romance de José Saramago. Julianne nunca havia estado na América do Sul, antes de rodar cenas de Blindness em Montevidéu (uma semana) e São Paulo (duas semanas). "É uma cidade muito cosmopolita e atraente. Fiquei bem feliz por ter estado lá e agora poder voltar", ela diz. Veja também:Acompanhe a cobertura no blog do Merten   Veja galeria de fotos do dia-a-dia do Festival Teste seus conhecimentos sobre o Festival de Cannes  César Charlone, o grande diretor de fotografia dos filmes de Fernando Meirelles, já havia comentado com o repórter do Estado que Julianne, como Ralph Fiennes - ator de O Jardineiro Fiel -, representa para a câmera. Ao chegar ao set, a primeira preocupação de ambos é saber onde estará a câmera e com que lentes ou de que ângulos serão filmados. Quando o repórter observa que ela é sempre tão intensa e pede que defina seu segredo de atriz - se representa para a câmera ou tenta ignorá-la -, Julianne não vacila. "A câmera mediatiza minha relação com o público. É através dela que sou filmada. É importante saber onde estará a câmera e como serei filmada. Faz parte das minhas ferramentas de atriz do cinema. Mas, depois, o movimento é rigorosamente inverso. Sabendo onde está a câmera, tenho de me esquecer dela para me entregar à personagem." Ela ri do que, afinal de contas, é este métier de atriz. "Sou uma mãe dedicada, mas se meus filhos quiserem jogar bola e me atirarem uma, eu vou fugir. Se isso faz parte da natureza de minha personagem, vou até o fim." Apesar da dedicação, ela comenta, como verdadeira, uma frase que lhe disse justamente Ralph Fiennes. "Não importa o que a gente faça para estar na pele do personagem, ao me ver na tela sou sempre eu." Julianne admite que não conhecia o romance de Saramago antes que o roteiro do filme lhe fosse enviado. Ela aceitou, entusiasmada ("excited") com a idéia de filmar com o diretor de "City of God" (Cidade de Deus). Quando leu o livro foi que ela se deu conta das dificuldades que Meirellres e o roteirista Don McKellar haviam enfrentado. "O livro é muito mais interiorizado. Quase tudo se passa dentro dos personagens. Seus sentimentos, sensações. E isso não se mostra no cinema, que capta basicamente o exterior." No ano passado, ela esteve em Cannes mostrando, na Quinzena dos Realizadores, o filme de Tom Kalin, Pecados Inocentes (Savage Grace), que ainda está em cartaz nos cinemas de São Paulo. Julianne faz uma mãe que estabelece uma relação destrutiva com o filho. Em Ensaio sobre a Cegueira, sua personagem precisa se transformar na mãe do próprio marido para redimir a humanidade, quando um vírus transforma todo mundo em cego e só ela permanece vendo. Alguma conexão entre as duas personagens? Julianne surpreende-se. "Savage Grace baseia-se numa história real. Blindness é uma ficção que pretende ser uma alegoria sobre a fragilidade da nossa civilização e o risco da barbárie. Mas, já que você falou, meu marido no filme de Meirelles (Mark Ruffalo), no início, infantiliza a mulher. Depois, ela o atende como se fosse criança, quando fica cego. E só bem mais tarde ambos conseguem estabelecer uma relação madura, como casal." Ela não concorda com uma coisa que está sendo dita com alguma freqüência aqui em Cannes - o que existe de mais iluminador em Blindness não basta para compensar toda aquela degradação, urbana e social, que se vê na tela. "Acho que Fernando fez um ‘terrific job’ (um trabalho maravilhoso). Há todo um subtexto realista e eu duvido que outro diretor conseguisse filmar melhor do que ele, e creio que é esse realismo que sustenta o nível filosófico e o caráter de advertência política contidos em Blindness." Já que ela falou em degradação urbana - a cidade do filme não é identificada, mas Meirelles junta, numa mesma tomada, cenas filmadas em São Paulo com outras no Uruguai e no Canadá. "É desconcertante. Muitas vezes cria uma sensação de confusão. Onde eu estava naquele momento? A unidade me pareceu impressionante, mesmo que às vezes seja nítida a passagem de um plano mais aberto para outro fechado onde se lêem melhor os signos da degradação." Uma pergunta mais frívola refere-se à sua decisão de transformar a personagem em loira. "Achei que meus cabelos ruivos seriam chamativos dentro do visual adotado por Fernando para recriar a cegueira branca do livro. A idéia de tingir os cabelos partiu de mim, mas confesso que não agüentava mais esperar pelo final da filmagem para voltar a ser eu mesma." Isso não parece contradição em relação ao que ela diz sobre um ator permanecer o mesmo, não importando o papel? "Pode ser, mas trocar a cor do cabelo é uma experiência que espero não repetir. É como abrir mão de uma marca pessoal. Serviu à personagem, mas acabou." O que Julianne sente quando avalia sua carreira. "Sinceramente? É uma coisa que sempre me surpreende. Nunca pensei chegar aonde cheguei, ter feito os filmes que fiz. Para mim, o cinema é uma arte do encontro. Tive a sorte de encontrar grandes diretores - Todd Haynes, Neil Jordan, Fernando Meirelles. Todos eles me ofereceram papéis que são verdadeiros sonhos para qualquer ator." Já que ela falou sobre diretores, a pergunta inevitável - o que ela conhece de cinema brasileiro, tendo trabalhado agora com um cineasta do Brasil? "Não muito, infelizmente. Conheço Walter - ela diz Úalter - Salles." Apesar desse conhecimento restrito, Julianne vê em Blindness o futuro do cinema. "Um filme supranacional, com a participação de artistas e técnicos de tantos países distintos. É eramos como uma família interagindo, e isso foi muito bonito."

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