Atrevida e pioneira, Barbarella volta em DVD

Jane Fonda tinha 24 anos, seis filmes e três peças de teatro quando se encontrou com Roger Vadim em 1961, em Paris, para discutir a eventual participação num filme do diretor francês, já famoso como descobridor de Brigitte Bardot. Jane era mais conhecida como a filha de Henry Fonda. Cansada disso, aceitou fazer um filme na França, Jaula Amorosa, com Alain Delon, dirigido por René Clément.Jane e Vadim se acertaram, ela resolveu participar do tal filme dele, A Ronda do Amor, e se apaixonaram, Casaram-se em 1965 e viveram oito anos juntos, tendo ainda como frutos dessa união a filha Vanessa e o filme Barbarella, ambos de 1968. Barbarella virou cult no mundo todo, a tal ponto que até hoje tem fãs. O que justifica, assim, o fato da Paramount estar, lançando 34 anos depois, o DVD dessa divertida, estranha e nem sempre bem-sucedida aventura de ficção científica. Jane foi a terceira escolha do diretor Dino Di Laurentiis, depois que Sophia Loren e Brigitte Bardot recusaram. Conta-se que Virna Lisi rompeu seu contrato com a United ao receber a proposta de ser Barbarella. Afinal, era uma época em que estrelas não viviam personagens de histórias em quadrinhos. E Barbarella nascera na HQ de Jean-Claude Forest, publicada inicialmente em 1962, numa revista francesa, a V Magazine. Era a pioneira de uma onda de quadrinhos que misturavam antecipação e erotismo e que fizeram muito sucesso nos anos 60.Seguindo de perto algumas das aventuras dos quadrinhos, a Barbarella do filme vive no ano 4000. É uma astronauta corajosa e bonita, dedicada à missão de encontrar um cientista renegado, Durand, que fugiu com o segredo de uma arma poderosíssima, o raio positrônico. No planeta Lytheon, ela e o anjo cego Pygar (John Philip Law, de asa e tanguinha) encontram a malvada Rainha Negra (Annette Pallenberg) e seu comparsa (Milo O´Shea). Há uma revolução e a Rainha Negra ajudada pelo cientista louco usa o raio positrônico e desencadeia uma força que engole tudo que existe.Parece que acontece muita coisa, mas na verdade, a ação tem momentos mornos. O roteiro, feito por muitas mãos, entre elas as do escritor Terry Southern (Dr. Fantástico), Forest e de Roger Vadim, é confuso e superficial. O que fez de Barbarella um cult? Inicialmente seu humor meio escrachado, depois o fato de Jane Fonda viver a heroína de forma absolutamente inocente, o que se choca de frente com a desinibição sexual da personagem.Barbarella topa todas por sexo. Aí está seu caráter pioneiro. Ela transa com homens, máquinas de orgasmo (uma cena divertida) e tem uma cena lésbica com a Rainha Negra. Nem o anjo escapa (o que dá margem a uma das frases mais lembradas do filme, dita por John Philip Law: "Um anjo não faz amor, ele ´é´ o amor." O apetite sexual de Barbarella e o fato de ser ela quem escolhe dar prazer ou não eram revolucionários no final dos anos 60, em que o feminismo fazia furor. Ainda mais com a bela Jane como profeta. Jane está nua ou seminua o tempo todo, mas a cena que mais chama a atenção é a do strip tease futurista do começo, quando Barbarella tira sua roupa de astronauta e flutua, nua, entre as paredes revestidas de pele, da sua nave espacial. Os letreiros correm sobre estas imagens. O corpo de Jane é coberto apenas por uma base. Quem prestar atenção em algo além de Jane, poderá ver ainda David Hemmings, o mímico Marcel Marceau, Ugo Tognazzi e Claude Dauphin.O filme não fez sucesso ao ser lançado na França, mas aos poucos, foi criando sua reputação no mercado internacional. Entre as curiosidades ligadas ao filme, há o nome da cidade SoGo, um misto de Sodoma e Gomorra e o fato do grupo Duran Duran ter sido chamado assim em lembrança do nome do vilão. Jane sempre disse detestar Barbarella, mas o filme de vez em quando mostra o que poderia ter sido sua carreira como atriz de comédias, caso não tivesse colocado seu talento a serviço de mil e uma causas, que resultaram tantas vezes em filmes nobres e chatos.

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