"Através da Janela" entra em cartaz

Estréia nesta sexta-feira o esperado segundo longa-metragem de Tata Amaral. Através da Janela, o espectador irá perceber, trabalha em registro diferente do anterior, Um Céu de Estrelas, este um sucesso de crítica, que não foi tão bem entre o público. Novamente, Tata trabalha em ambiente intimista, de poucos personagens, que se movem em cenários fechados. Centra sua atenção num estrato social determinado, a classe média baixa, aquela que flerta, socialmente, com o proletariado, embora não assuma nenhum dos valores deste, muito pelo contrário. Apesar dessas semelhanças, em Através da Janela o clima é mais sutil. A violência, que se desencadeava de maneira explosiva no primeiro, entra, por assim dizer, pelo vão da porta, pelas frestas, no segundo. Em ambos, no entanto, é o tom da tragédia - tão pouco explorado pelo cinema brasileiro - que se impõe, de uma maneira ou de outra. O filme, já premiado com o troféu principal do Festival de Cinema do Recife, coloca em cena basicamente dois personagens: Selma (Laura Cardoso) e seu filho Raí (Fransérgio Araújo). Ela, uma enfermeira aposentada, de 65 anos; ele, um desempregado, de 22. Um leve laço edipiano une os dois, em seu cotidiano repetitivo. É como se vivessem num casulo, cuja perfeição não é comprometida por certa precariedade material (não muita). O elemento externo é representado, primeiro, por Tomasina (Ana Lúcia Torre), amiga de Selma, que traz notícias do mundo, expõe a estranheza da situação dual entre mãe e filho e representa o senso comum. Ou seja, Tomasina faz, no filme, o papel do coro na tragédia grega. O engenho e arte de "Através da Janela" consistem em mostrar como esse cotidiano aparentemente seguro passa a ser desmontado pela intromissão de um mundo externo progressivamente invasivo e hostil. Ninguém vive no casulo, ou nessa gaiola de ouro tantas vezes idealizada pela classe média. Não há segurança ou vacina completamente eficaz contra uma sociedade que se deteriora lá do lado de fora. Tudo é insalubridade e contaminação, como acontece em textos célebres como A Peste, de Camus, ou Morte em Veneza, de Mann. No caso absolutamente mais prosaico encenado por Tata, Selma irá progressivamente perder o controle sobre o filho. Perdê-lo para o mundo, como costumam dizer as mães. Mas, que mundo... O filme é sobre mães e sobre filhos, como já se disse, o que é correto e bastante explícito. É, também, e à sua maneira, político, uma vez que trata da pólis, do mal-estar da cidade, da nação, do mundo. Fala da ilusão da insulabridade, do engodo que representa a separação absoluta entre o espaço privado (a casa) e o espaço público (a sociedade), fantasias sempre recorrentes num país chamado Brasil. Trata, de maneira mais limitada, mas ainda assim precisa, daquilo que acontece quando a juventude é colocada contra a parede pela falta de perspectivas concretas. O grande Ettore Scola já havia comentado o assunto em seu Romance para um Jovem Homem Pobre, filme subvalorizado, que será revisto e recuperado a seu tempo. Neste, o jovem refugia-se na recusa de viver. A prisão, para ele, é uma libertação. Em Através da Janela, Raí tomará outro caminho, também anômico, também desesperado, igualmente radical e que arrastará a mãe a uma situação-limite. Resta dizer que a atuação de Laura Cardoso nunca é menos do que magnífica. Uma grande dama do teatro, com pouca experiência no cinema, mas que se sai muito bem neste papel. Empresta a ele profundidade, silêncio, reflexão - qualidades em geral muito difíceis de encontrar entre os profissionais do ramo. Essa atuação é valorizada por uma mise-en-scne precisa, econômica. Tata abandona a câmera na mão, instável, elétrica, do seu primeiro longa. Prefere, agora, estabilizá-la em um tripé, mesmo porque irá tratar de outro tipo de inquietação. As cenas são recorrentes. Cada dia retorna e recomeça na mesma mesa do café da manhã, que vai sendo progressivamente desarrumada, da mesma forma como a vida perfeita vai se desmanchando. A câmera percorre uma espiral, que passa pelos mesmos lugares mas nunca os encontra da mesma forma. A inquietação vem dessa sensação de déjà vu perturbadora, amplificada por uma trilha sonora inquietante de Lívio Tragtenberg e Wilson Sukorski.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.